domingo, 29 de abril de 2012

Da retórica enquanto lixo

Cada vez me dou menos ao trabalho de rebater afirmações caluniosas ou aquelas insinuaçõezinhas torpes que tão frequentes são no modo de agir daquelas pessoas que, tantas vezes a coberto do anonimato, vêm para a internet destilar veneno. Hoje, excecionalmente, vou fazê-lo como meio de mostrar algumas diferenças.

Num dos comentários a este post, um tal "Mario" que finge não ser anónimo usando um nome comum, mas na verdade é-o porque tem um perfil vazio e mais nada, acusa-me dissimuladamente de ser alguém que "à primeira oportunidade tenta agradar aos "grandes", e enche-se de razão e finge-se [sic] saber mais do que sabe." Provas do que diz? Não dá, claro. É a típica acusaçãozinha rasteira, não substanciada e vazia que este tipo de gente tanto gosta de usar.

O que eles deviam fazer, para que alguma hipótese houvesse de terem a mínima relevância no debate era, para começar, terem a coragem básica de se identificarem quando estão a falar com gente identificada. E em segundo lugar, de consubstanciarem o que dizem com algo que pelo menos se assemelhe a factos.

Dou um exemplo.

O mesmo "Mario" produz a seguinte afirmação, plena de elegância: "O problema dos acordistas é fazerem olho cego ao verdadeiro problema do Acordo: É uma imposição de traços ditatoriais. Nenhum deles tem testículos para discutir esse ponto."

Ou seja, segundo ele, o Acordo Ortográfico, ratificado por larga maioria na Assembleia da República pelos deputados eleitos pelo povo, o mesmo tendo acontecido com os protocolos retificativos, o último dos quais, lembro-me bem, foi ratificado em cumprimento de uma promessa eleitoral, é "uma imposição de traços ditatoriais". Ora eu, baseando-me nos factos supracitados, digo que esta afirmação é absolutamente idiota e revela que o nosso comentador anónimo nada sabe sobre o que é a democracia. Para ele, as coisas são democráticas quando são do seu agrado; se não são, trata-se de "imposições de traços ditatoriais".

Eis o ponto discutido por um "acordista". Pelos vistos tenho testículos. Viva eu.

Mas o verdadeiro ponto que aqui quero sublinhar é este: rebater um argumento com factos faz parte da discussão. Anular uma afirmação de totalitarismo com os factos a respeito do modo como o acordo foi aprovado pelas instituições democráticas deste país é, realmente, produzir argumentos. E avaliar os conhecimentos ou a ignorância de quem faz uma tal afirmação com base no resultado desses argumentos é legítimo e inteiramente válido.

Pelo contrário, atirar retórica insubstanciada e caluniosa ao ar não passa de lixo.

Já há demasiado lixo por aí. Não façam mais. Mas se não conseguirem resistir, e bem sei que há por aí muita gente que não consegue resistir a produzir lixo, não esperem que eu me dê ao trabalho de vos dar alguma atenção. Vão ficar a falar sozinhos. Temos pena.

sábado, 28 de abril de 2012

Lido: Ajolote

Ajolote é um conto de ficção científica do argentino Santiago Oviedo que postula um futuro biologicamente distópico, no qual a humanidade caiu vítima de uma epidemia para a qual não se consegue encontrar cura, ao mesmo tempo que as cidades vão submergindo, provavelmente inundadas em consequência do aquecimento global, muito embora isso nunca chegue a ser afirmado taxativamente. Pareceu-me um conto muito bem escrito, com uma linguagem cuidada, em especial no princípio, embora caia aqui e ali em infodumps que não me parecem particularmente bem interligados com o resto do conto. À parte essa questão dos infodumps, também me pareceu bem elaborado, no sentido de ter tudo mais ou menos no sítio certo. Um bom conto, portanto?

Mais devagar.

É que no que toca às ideias... custou-me muito engolir algumas. Há a recuperação de velhos conceitos New Age sobre a Terra como organismo vivo e consciente, a teoria de Gaia. Há uma certa atmosfera ludita, que encara o Homem e a sua tecnologia como uma doença que Gaia tenta expulsar. É isso que explica a epidemia. O Homem e a civilização que construiu estão a ser exterminados por uma espécie de sistema imunológico (e vão ter de ler para ficarem a saber qual é o principal — ou será único? — vetor desse sistema) de Gaia-enquanto-superorganismo, como se não passássemos de bactérias ou de vírus.

São ideias razoavelmente comuns nos meios ecologistas, mas eu julgo que são profundamente erradas e que fazem mais mal que bem. Não vou entrar aqui numa discussão dos motivos mas, em pinceladas muito esquemáticas, posso dizer que têm a ver com o facto de que num sistema biológico tudo influencia tudo, tudo tem impacto no sistema como um todo e, consequentemente, nós não somos exceção, e com eu pensar que a tecnologia é uma ferramenta, moralmente neutra, que tanto pode ser usada para criar os problemas como para os resolver. Não creio que o problema seja de tecnologia, ou sequer de natureza humana. Creio que está na ideologia, na ignorância e na atitude perante a sociedade e o mundo que nos rodeia, tudo coisas alteráveis, com maior ou menor esforço.

Portanto não, não creio que este conto seja bom. Mas é, isso com toda a certeza, um conto interessante. Um conto com sumo. E isso, só por si, é bom. Mas nada como avaliarem por vós próprios. O conto está aqui.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Lido: O Caçador Gracus

O Caçador Gracus (bib.) é um conto curto de Franz Kafka sobre a chegada, numa barca, a altas horas da noite, do Caçador Gracus do título à cidade de Riva. Recebido pelo burgomestre, é de uma conversa entre os dois que o resto do conto consiste, na qual é explicado quem é o Caçador Gracus, que faz ele ali, e porque veio à cidade daquela forma algo sub-reptícia depois de terem sido avisadas as autoridades. Que há no conto de horror? Ditas as coisas assim, não parece haver nada. Mas o mais interessante neste conto é precisamente a forma como vai sendo transmitida a quem o lê a informação sobre quem é o tal Gracus.

É que o homem está morto.

Contos anteriores desta publicação:

Do provincianismo pacóvio

O provinciano pacóvio tem uma porcaria de casa, suja, pobre, desmazelada e desarrumada, mas que inclui uma linda (acha ele) sala de visitas cheia de bibelôs, mobília de mogno e a omnipresente estante envidraçada que contém as duas ou três pratas e porcelanas que foi conseguindo arranjar por portas travessas e com grande sacifício, destinadas a mostrar uma prosperidade que não existe. Nunca ninguém vai a essa sala, exceto quando há visitas, não vá calhar partir-se alguma coisa, riscar-se o tampo da mesa, sujar-se alguma almofada de alguma cadeira, acontecer algum outro desastre do mesmo tipo, cair o Carmo e a Trindade. Nunca, exceto uma vez por semana, para limpar, sacudir o pó e as teias de aranha, mantê-la "apresentável".

O provinciano pacóvio só se preocupa com uma coisa: parecer. O centro da sua vida é a imagem externa e, para arranjar uma imagem externa que seja consentânea com aquilo que pretende aparentar, entra em tais contorcionismos que para qualquer pessoa com coluna vertebral seriam um prodígio dos mais prodigiosos. Mas o provinciano pacóvio desembaraça-se com desenvoltura, pois não passa de um molusco de corpo mole, sem qualquer vestígio de espinha.

O provinciano pacóvio não é, obviamente, exclusivo da província. O seu provincianismo é um estado de espírito e uma filosofia de vida, uma verdadeira ideologia. Na capital há tantos provincianos pacóvios como na província. Ou mais, quiçá. Mas é um sinal de atavismo. Já nos textos de Eça, com século e meio de existência, se encontram precisamente os mesmos provincianos pacóvios que nos rodeiam hoje em dia. E até em alguns dos de Gil Vicente, bem mais antigos. É um nacional atraso de vida, uma velhíssima erva daninha com raízes bem profundas, e que para piorar as coisas tem a irritante tradição de invadir todo o tipo de "elites" neste desgraçado país.

Estou, claro, a falar do Cavaco. E de todo o nosso governo atual, sempre tão obcecado com o que os estrangeiros vão pensar. Ambos, vai-se tornando cada vez mais claro, herdeiros diretos do mais pacóvio de todos os regimes, o salazarismo.

Mas o provincianismo pacóvio não é exclusivo da política, muito longe disso. Aparece por todo o lado, neste país cheio de provincianos pacóvios, mais preocupados em parecer prósperos e competentes e tantas outras qualidades do que em realmente fazerem um pequeno esforço para serem prósperos e competentes, para terem de facto essas qualidades. Para o verem, até, talvez, em vós próprios, basta abrirem os olhos.

Pois é precisamente essa a sugestão que vos deixo neste 25 de Abril de 2012: abram os olhos.

domingo, 22 de abril de 2012

Transignorâncias 5: Mutantis mutandis

O Universo em que vivemos, diz-nos a física, é composto por duas coisas: energia, nas suas várias formas (incluindo a matéria), e tempo. Diz-nos também a física que quando se junta energia ao tempo obtém-se movimento. E movimento é igual a mudança.

Tudo no universo muda. Umas coisas mais depressa, outras tão lentamente que para as que mudam depressa parecem imutáveis. A velocidade da mudança depende diretamente da energia nela envolvida. Fenómenos de alto gasto energético, como a vida, mudam depressa; fenómenos onde os fluxos energéticos são baixos, como as reações químicas não vulcânicas na litosfera, mudam devagar. É por isso que a vida dos organismos passa num piscar de olhos, e os fósseis que eles geram perduram por aquilo que nos parece ser eternidades. É por isso que a vida é mudança e o fóssil, o esqueleto, a morte, são permanência.

É também por isso que as únicas línguas que não mudam são as mortas. As línguas vivas mudam, e quanto mais vivas são mais depressa mudam. Essa mudança é uma força constante, irresistível como um tsunami. É fútil tentar impedi-la. Na verdade, é pior que fútil: é estúpido.

Perante a mudança linguística há duas atitudes possíveis, as mesmas que existem na relação que vamos tendo com as inundações. Há quem tente erigir muros contra a mudança, construir diques, blindá-los, criar ilhas de imutabilidade, isolar-se das águas que as assolam. E têm sucesso enquanto a cheia é pequena. Mas quando ela é grande, e mais tarde ou mais cedo ela acaba mesmo por ser grande, a falha dos diques, inevitável, torna a catástrofe muitíssimo mais devastadora. Entre outras coisas, foi isso que nos ensinou o Katrina. De modo que a engenharia moderna procura outro caminho. Em vez de erguer barreiras contra as cheias, prefere construir pontos de fuga e escape, por onde a cheia possa seguir sem causar danos de maior às infrastruturas que temos como mais importantes. Em lugar de tentarmos reter as águas da mudança, tentamos dirigi-las, conduzi-las para locais seguros.

São também essas as duas atitudes que podemos ter perante a mudança linguística. Há quem resista a todas as mudanças, procurando criar diques cada vez mais altos, isolando-se em ilhazinhas cada vez mais pequenas de irredutível "pureza" (que nada tem de puro, visto ser fruto de milénios da mesmíssima mudança que eles procuram agora interromper... mas eles julgam que tem). Com isso só conseguirão adiar o inevitável, e ser depois completamente varridos do mapa quando o inevitável finalmente acontecer.

Outros, preferem acompanhar a mudança, tentando dirigi-la, incentivando as partes dela que consideram seguras ou benignas, e erguendo pequenas barreiras contra aquela que julgam poder causar maiores estragos. É o que fazemos nós, os que apoiamos a reforma ortográfica. Apoiamo-la por ser uma daquelas mudanças que, globalmente, dirige a vertente escrita da língua por caminhos que pouco ou nenhum estrago poderão causar no futuro. Porque sem termos de perder tempo a ensinar às criancinhas regras incongruentes e cheias de exceções sobre escrever-se, ou não, certas letras em certas palavras, talvez consigamos usar esse tempo a explicar-lhes que escreverem coisas como "nós faze-mos" é muito, muito mau. Porque se tivermos uma ortografia com alguma coerência, uma ortografia que se ensine depressa e bem, talvez consigamos arranjar espaço nos currículos e nas salas de aula para explicar aos pivôs dos telejornais, anos antes de eles se tornarem pivôs dos telejornais, enquanto ainda estão sentados nos bancos da escola, que dizer coisas como "há vinte anos atrás" é um disparate, pois o "há" já indica, por si só, que estamos a falar do passado. Em suma, porque incentivando a mudança que não estraga poderemos dedicar-nos a combater a mudança que estraga.

Há cem anos (sem "atrás" nenhum, se me fizerem esse grande favor), fez-se uma grande reforma ortográfica na língua portuguesa, tão grande que mete a atual num chinelo de insignificância. Nessa época não faltaram profetas da desgraça a antever o fim do mundo. Pois bem: o mundo ainda cá está, a língua também, houve durante estes cem anos quem a usasse com uma qualidade superlativa, quem nela inovasse sabendo muito bem o que estava a fazer e porquê, quem aproveitasse e adaptasse as melhores das mudanças para com elas fazer arte, ao mesmo tempo que, com essa seleção, combatia as piores. Houve e há grandes poetas e escritores a usar a língua com enorme qualidade, em todos os pontos do mundo em que ela vive, e o número de pessoas que dela se servem quotidianamente multiplicou-se muitas vezes. Há cem anos, não passávamos de alguns milhões os que estávamos expostos a ela todos os dias; hoje, é toda a população do planeta com uma ligação à internet, porque esta nossa língua em eterna mudança é, entre as milhares de línguas da Terra, a quinta mais usada online.

Foi este o "fim do mundo" que aconteceu após 1911. E é parecido com este o "fim do mundo" que podemos esperar desta reforma ortográfica. Um "fim do mundo" feito de crescimento e desenvolvimento, que devíamos todos acolher de braços abertos. Mas há quem não consiga perceber estas coisas. Nada a fazer.

Outros, contudo, percebem. E é com eles, e só com eles, que o futuro conta.

Transignorâncias anteriores:

sábado, 21 de abril de 2012

Les bons esprits se rencontrent

Li há dias alguém dizer que a maioria das pessoas que conhece prefere ler segundo a antiga ortografia.

Tenho a certeza absoluta de que é a mais pura das verdades. Mas a maioria das pessoas que eu conheço prefere ler coisas bem escritas e bem elaboradas, seja qual for a ortografia. Tanto lhes dá se é a moderna, se é a antiga, se é a portuguesa, se é a brasileira, se é, até, a orthographia pseudo ethymologica anterior a 1911. Para isso, estão-se basicamente nas tintas, e são suficientemente inteligentes e flexíveis para saltar de uma para outra sem qualquer dificuldade (ou sem grande dificuldade quando é a anterior a 1911, que é a que mais se afasta de todas as outras). Porque o que a maioria das pessoas que eu conheço quer mesmo é ler coisas interessantes, escritas em bom português.

Mas repito: não tenho a mínima dúvida de que o que a tal pessoa de que falei no princípio disse é a mais absoluta das verdades. É que les bons esprits se rencontrent. Great minds think alike. E etc.

E o inverso também é verdadeiro.

domingo, 15 de abril de 2012

Lido: O Golfinho Malhado

O Golfinho Malhado (bib.) é uma vinheta fantástica e surreal de Bruce Holland Rogers que conta a história de uma família, na qual um dos membros não se conforma com a vida que supostamente cabe a cada um. Em vez de seguir o caminho habitual, os estudos, as relações, o casamento, os filhos e o trabalho, isto é, em vez de se deixar levar pela vida, o rapaz prefere escolher o seu próprio caminho, e viaja, deixando-se fascinar tanto com o mundo e as coisas, que a certo ponto começa a transformar-se nele. Um continho bastante bom sobre o inconformismo, mas também sobre aquilo de que este obriga a abdicar. Curto, mas fica-se a pensar.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Lido: Ritinha

Ritinha (bib.) é um conto curto próximo do horror, de José de Lemos, contado na primeira pessoa por um jovem que se casa, mais por conveniência do que outra coisa, com uma conhecida de infância, filha do sócio do pai. A Ritinha, precisamente. Mas a Ritinha não é uma pessoa vulgar; é uma pessoa que se vai desfazendo em fantasma, que se vai tornando incorpórea, que vai perdendo os laços que prendem as pessoas vulgares ao mundo vulgar de todos os dias. E que, para grande horror do marido, tenta levá-lo consigo para onde quer que se situe o sítio extramaterial para o qual se retira. É um conto interessante, embora, aqui e ali, um pouco ridículo, que termina com um final em aberto inquietante... pelo menos para o protagonista.

O que achei mais curioso neste conto foi o que me pareceu entrever por trás: a velha irritação e resistência masculinas perante as tentativas mais ou menos denodadas que as mulheres que se cruzam connosco na vida têm tendência a desenvolver para mudarem quem somos, como agimos e como encaramos o mundo. O protagonista só quer continuar calmamente na sua, mas isso não o salva de ser atormentado por uma Ritinha cada vez mais alienada da realidade. O homem que nunca sentiu o mesmo que lhe atire a primeira pedra.

Apesar de não ter achado este conto nada de superlativo, gostei.

Lido: El Interrogatorio

El Interrogatorio, do mexicano Carlos R. Flores Gutiérrez, é um pequeno conto de ficção científica de laboratório que joga de forma interessante com paradoxos temporais. Contado na primeira pessoa, o protagonista é um cientista que resolve abreviar o procedimento de testes da sua recém-desenvolvida máquina do tempo, enviando-se a si próprio ao futuro para uma breve viagem. Para quê fazer metodicamente os testes todos, se é possível dar um saltinho ao futuro, conversar consigo próprio e ficar logo a saber se tudo funciona convenientemente? Não é? Só que ao chegar ao futuro, o nosso protagonista depara com o laboratório incendiado. E as coisas correm cada vez pior a partir daí.

Não sendo nenhum prodígio de originalidade, longe disso, é, contudo, um continho com algum interesse e bem concebido. Dos quatro contos desta página, este foi o que mais me agradou. É qualquer coisa.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sobre RSI, caridadezinha e burrice

Estou positivamente farto do Mota Soares e de toda a supinamente imbecil conversa do CDS sobre aquilo a que se costuma chamar Rendimento Mínimo ou, na simpática terminologia da extrema-direita, "subsídio à preguiça". Porquê?

Façamos uma experiência de lógica, sim?

Para princípio de conversa, é falso que quem esteja a receber o RSI seja alguém que não quer trabalhar. É igualmente falso que os recebimentos sejam fraudulentos. Haverá casos de ambas as coisas, sem dúvida, mas a maioria dos casos não é assim, em particular numa altura como a que atravessamos em que o desemprego sobe de forma galopante e há todos os dias novas famílias a cair em situações de carência absoluta, com vontade de trabalhar ou sem ela.

Mas para a nossa experiência de lógica suponhamos que sim. Suponhamos que todos os beneficiários do RSI sejam gente que não quer trabalhar e/ou pessoas que recebem o "subsídio à preguiça" de forma fraudulenta. E perguntemos a nós próprios o seguinte: que fará essa gente se o RSI lhes for cortado?

A resposta não é difícil de encontrar, até porque é o próprio governo a incentivar a alternativa.

Essa gente salta do RSI para a caridadezinha. Passa a frequentar as misericórdias, a comer nas sopas dos pobres, torna-se subitamente muito católica, muito agradecida a nosso senhor. Porque é evidente que para quem não quer trabalhar tanto lhe dá se a comida é entregue pelo Estado ou pela Santa Madre ICAR, e quem engana o Estado não terá o mínimo escrúpulo em enganar o padre ou as beatas da Misericórdia.

Certo?

Só que há aqui um mas. E o mas é que iniciativas como o RSI sempre vieram com regras e fiscalização atrás. Não é um regabofe, um fartar vilanagem. Umas e outras serão insuficientes, porque o são sempre, mas existem. E isso quer dizer que há algum controlo sobre se aquelas pessoas estão realmente a (re)inserir-se na sociedade ou não, se realmente precisam dos apoios ou se se estão simplesmente a aproveitar deles.

E na caridadezinha não há.

Na caridadezinha é o fartar vilanagem.

Recentemente morreu o padre aqui da minha zona. Era um homem bom (há uns quantos), que oferecia refeições aos necessitados, e era o primeiro a admitir que não fazia a mínima ideia se as pessoas que lhe apareciam seriam realmente necessitadas ou não. Nem tinha como saber. A operação que geria não tinha fiscais; era ele e um punhado de voluntários. Se ele não fosse um homem bom (também há uns quantos; eu acho que muito mais numerosos do que os bons, vocês lá saberão o que acham), provavelmente faria o controlo de uma forma simples e pragmática: vais à igreja, mereces, não vais, não mereces. Mas aquele era um homem bom, portanto todos os que lhe iam bater à porta eram servidos.

E a caridadezinha é isto.

Portanto, as mesmas pessoas preguiçosas e fraudulentas que na nossa experiência mental deixam de receber RSIs fiscalizados passam a ir servir-se, com total à-vontade e desfaçatez, à caridadezinha dos homens bons, ou então a submeter-se às regras arbitrárias e motivadas por coisas bem menos nobres do que o apoio a cidadãos caídos em situação de carência da caridadezinha dos homens maus.

Qual dos dois sistemas é o melhor? Caridadezinha ou RSI? Eu não tenho a mais pequena dúvida: o RSI. Mesmo se todos os seus beneficiários forem os canalhas e abusadores de que a extrema-direita tanto gosta de falar. E como nem todos o são, como a maioria não o é, mais ainda. Porque acho peferível que alguns vigaristas se escapem entre as malhas da fiscalização do que não haver fiscalização alguma ou uma fiscalização arbitrária baseada em critérios que nada têm a ver com as reais carências das pessoas.

Porque, em suma, substituir um sistema em que existe uma fiscalização imperfeita por outro em que a fiscalização é coisa nenhuma é, numa palavra, uma burrice.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Lido: Brinca Comigo!

Brinca Comigo! (bib.) é um conto de ficção científica de João Barreiros sobre uma horda de brinquedos mais ou menos inteligentes (ou não) que, numa Lisboa pós-apocalíptica, vai lentamente avançando na direção de um alvo. Sequela do infinitamente superior O Caçador de Brinquedos, este conto é bastante fraco. Para começar, quase não existe história. A horda arrasta-se, sempre à beira de deixar de funcionar, e o autor descreve e volta a descrever e volta a descrever e volta a descrever que se a horda chegar a ultrapassar os 500 membros é mau, muito mau. Mas os leitores perceberam à primeira, era escusada tanta repetição. Especialmente quando se gasta mais latim a descrever isso do que a viagem propriamente dita. Depois, o final não faz qualquer sentido se tivermos em conta que o problema para a horda é ultrapassar um n de elementos, não um x de capacidade de processamento.

E depois há o fatídico capítulo 6, onde os disparates se sucedem em catadupa. Ele é uma inversão magnética dos pólos que pelos vistos foi súbita (mas as verdadeiras não são, levam anos e anos), ele é o destrambelhamento dos sistemas GPS por essa inversão magnética (pena que o GPS não tenha rigorosamente nada a ver com o sítio onde os pólos estão) ele é uma ponte suspensa a cair devagarinho, aos bocados, a oscilar violentamente propelida por ventos ciclónicos (esta é a menos má, a asneira não é total, mas as pontes suspensas dependem de um equilíbrio de forças que as distribui por todos os seus elementos. Cada elemento que falha aumenta a pressão sobre os que restam, aumentando também a probabilidade de algum dos outros falhar. A consequência é que, à parte os pilares, se algo corre mal com alguma parte, tudo vem abaixo muito depressa e em conjunto). Convenhamos, para um autor que tem sido visto a estraçalhar obras alheias por este tipo de pormenores, é mau, muito mau.

Eu até fecharia os olhos àquele lamentável capítulo 6 se o resto do conto fosse realmente bom. Mas não é. Tem a prosa colorida habitual no Barreiros e muito pouco mais. É demasiado comprido, perde-se demasiado em ninharias e repetições e o final incoerente deixa na boca um gosto amargo a aldrabice.

Brinca Comigo! é, de caras e de longe, o pior conto de João Barreiros que eu li até hoje.

sábado, 24 de março de 2012

Lido: Cenário de Guerra

Cenário de Guerra (bib.) é um conto de horror de J. F. Tavares, contado na primeira pessoa por um arqueólogo que busca algo nas ruínas de um velho castelo medieval. Se descontarmos uma certa propensão para exagerar nos adjetivos (influências de Lovecraft, talvez?) não está mal escrito, mas também não me parece que funcione muito bem como conto. O ambiente está bastante bem retratado; do comboio fantasma que o leva ao castelo à própria fortaleza, tudo tem um tom suturno que joga bem com a temática sobrenatural. Mas não se percebe o que move o protagonista. Trechos como "eu queria explorar a câmara dos horrores e descobrir nela sensações" não me dizem nada. Sensações? A sério? É para "descobrir sensações" que uma pessoa embarca numa viagem rumo a territórios dominados por demónios?

Não sei, talvez funcione com alguns leitores. Comigo, este tipo de explicações que nada explicam não funciona de todo. Apesar disso, não achei o conto mau, só insatisfatório. O ambiente, como disse, está bastante bem conseguido, e também gostei da reviravolta final. E, apesar de tudo, o conto manteve-me curioso até ao fim, à espera de descobrir nele algo que fizesse com que o que faz mover o protagonista fizesse sentido. É qualquer coisa, suponho.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Os Poetas Menores de San Miguel County

Os Poetas Menores de San Miguel County (bib.) é um conto de Bruce Holland Rogers que descreve a visita de um velho professor reformado de literatura a uma vilória perdida nas zonas rurais do Colorado a fim de dar uma palestra sobre o poeta alemão Rilke. Delicodoce, é basicamente um conto sobre o evelhecimento, sobre aquilo que a vida faz aos sonhos e aspirações de quem a vive. E também sobre o ambiente que rodeia cada um de nós, e como este determina, ou não, aquilo que a vida nos traz. Sim, tem as suas subtilezas, como é norma do autor. Mas pareceu-me que lhe falta qualquer coisa, não sei bem o quê. Não me deixou tão plenamente satisfeito como alguns dos contos anteriores.

Lido: A Noite de Walpurgis

A Noite de Walpurgis (bib.) é um conto fantástico de Hugo Rocha, assumidamente inspirado pelo Fausto de Goethe. Contado na primeira pessoa, é um daqueles contos "de ouvir contar" em que o protagonista-narrador revela aos seus leitores uma história que lhe terá sido contada por uma terceira pessoa. Aqui, a terceira pessoa é uma velhota beirã, bem camponesa, que o protagonista encontra num passeio pela serra, e que lhe relata uma história que por sua vez lhe teria sido contada pela avó. Esta, segundo reza a história, ao andar um belo dia pelas serranias, teria deparado com uma cena inesperada: uma assembleia de bruxos e bruxas, alguns dos quais seus conhecidos, que prestavam culto a alguém que a velhota (à época ainda nada velhota) deduz tratar-se de Satanás. Segue-se uma descrição da cerimónia, e o desfecho milagroso.

É um conto interessante, por estar bem escrito mas especialmente por uma certa ironia que o autor entrelaça na história, alguns apartes sobre as reais motivações e moralidade da avó da camponesa, fundamentalmente. O deus ex machina que aparece no final poderá fazer torcer narizes, mas não me pareceu desadequado no contexto deste conto em concreto. Trata-se, claro, de conto contado, não mostrado. Os contos deste tipo são-no quase sempre; é essa a sua natureza. Por conseguinte, leitores que odeiem histórias contadas devem fugir dele como diabo da cruz, mas quem não for fundamentalista talvez goste. Eu gostei. Não muito, não foi coisa que me enchesse as medidas, mas gostei.

Lido: El Mundo se Detuvo

El Mundo se Detuvo, pequeno conto do chileno Christian Lisboa, é uma mescla de fantástico inspirado na tradição católica com ficção científica, na qual esta ocupa um lugar muito secundário. Num tom poético, conta na primeira pessoa a morte de um homem e a sua tranformação, que já vimos tantas vezes em tantas outras histórias, numa entidade incorpórea, um espectro, uma alma, algo assim. E segue-se a também muito típica avaliação do desempenho terrestre do recém-falecido, embora com algumas peculiaridades.

Não achei grande coisa. São tão numerosas as histórias deste tipo que é muito difícil fugir ao cliché absoluto quando se escreve mais uma e, embora Lisboa tenha tentado, não me parece que tenha conseguido. Se preferem avaliá-lo pessoalmente, basta darem um saltinho até aqui e lerem a terceira história.

domingo, 18 de março de 2012

Lido: Valaquenta

A Valaquenta é outro mito de criação concebido por J. R. R. Tolkien. Descreve a criação dos deuses, ou "senhores de Arda", um por um e em detalhe, o que faz com que seja mais longo do que o primeiro texto do livro, e também leitura menos desenvolta. Mas não chega a ser chato, não tem dimensão suficiente para tanto. Apesar de ter gostado menos deste conto do que de Ainulindalë, digo sobre ele basicamente o mesmo que já disse sobre o primeiro texto.

Conto anterior desta publicação:

sábado, 17 de março de 2012

Lido: Consequências

Consequências (bib.), mais um dos continhos de Bruce Holland Rogers, é um monumento de subtileza. A cena seria inteiramente banal não fosse um pequeno pormenor. Uma cena doméstica, um marido e uma mulher que conversam à volta da mesa depois de um dia de trabalho, entre o ramerrame e a crueldade mesquinha de todos os dias. Mas o homem lê o jornal, e duas palavras põem no conto uma nota de inquietação e mau agouro que sem elas estaria longe de ter, uma sensação de que algo de terrível está na iminência de acontecer. "Mortalidade aumenta", intitula o jornal na primeira página. Porque aumenta a mortalidade? Não se sabe, nem é preciso que se saiba. Guerra, epidemia, seja o que for. Irrelevante. O que importa é que a mortalidade aumenta. E que isso explica e justifica (justificará?) tudo. Muito bom.

Lido: Ritos Legais

Ritos Legais (bib.) é uma divertida noveleta de Isaac Asimov e James MacCreach (este não é mais que Frederik Pohl), dois conhecidos escritores de FC, que aqui apresentam uma história de fantasmas que de terror não tem rigorosamente nada. A noveleta inicia-se com a chegada de um homem a uma propriedade de um tio excêntrico e meio eremita, recentemente falecido, que lha deixara por herança. Para sua surpresa, depara com mais do que estava à espera: um fantasma gotejante, que corre consigo do terreno e que ele vai de seguida tentar esconjurar. Até aqui ainda estamos em terreno razoavelmente banal, e a noveleta parece uma história de fantasmas semelhante a tantas outras. Mas o que acontece em seguida transforma-a num belo exemplo de humor fantástico: o fantasma põe o herdeiro em tribunal.

O leitor é de seguida servido com uma típica história de tribunal, onde quem conheça razoavelmente bem Asimov não pode deixar de detetar os sinais do seu racionalismo implacavelmente lógico. Mas sem nunca perder de vista a ironia da premissa: o tom é declaradamente humorístico. E o final, então, é divertidíssimo. Mas repito: esta história, apesar de, em Portugal, estar incluída em duas antologias de terror, de terror nada tem.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: O Rei Duende

O Rei Duende (bib.), de Bruce Holland Rogers, é um conto sobre a infância. O narrador recorda velhas idas para a cama, durante as quais o pai teimava em recitar-lhe um poema sobre o Rei Duende, afirmando que se tratava do poema preferido do filho. O narrador nega e, após reproduzir o tal poema, passa a descrever o que aconteceu uma bela noite em que faltou a luz na zona da sua casa e o pai, apesar disso, o levou para a cama à hora do costume. E recitou de memória o poema do costume.

E mais não digo. Repito apenas que O Rei Duende é um conto sobre a infância. E acrescento que também é um conto de terror. E bom.

Lido: O Mistério da Estrada de Sintra

O Mistério da Estrada de Sintra, segundo se diz na contracapa desta edição, pode considerar-se o primeiro romance policial português. Mas quem julgue que isso implica que nesta história de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão se encontra um detetive a exercitar os seus poderes dedutivos, desengane-se.

Sim, de certa forma, esta história, escrita por dois grandes da literatura portuguesa do século XIX (e um deles é o maior de todos) mesmo que ambos tenham nesta a primeira obra de fôlego, tem qualquer coisa de policial. Afinal, arranca com um rapto na estrada de Sintra, e prossegue misteriosamente com um enredo adequadamente convoluto, que até mete um cadáver e tudo. Tudo num estilo epistolar, sob a forma de cartas que os protagonistas da história vão fazendo chegar à redação do Diário de Notícias, jornal onde ela foi primeiro publicada sob a forma de folhetim.

Mas a páginas tantas o rumo do enredo sofre uma reviravolta, os acontecimentos deslocam-se da zona de Lisboa para o Mediterrâneo, e o romance toma o caráter de literatura romântica, repleta de sentimentos vulcânicos e trágicos desenvolvimentos, um verdadeiro drama de faca e alguidar. A trama policial basicamente desaparece, dilui-se quase por completo nos encontros e desencontros amorosos de um pequeno grupo internacional de privilegiados em viagem até à ilha de Malta, à época colónia britânica. E não volta à superfície senão no final, e, aparentemente, a contragosto. É que se é certo que tudo no mistério acaba compreendido, se é verdade que a morte e o rapto se veem desvendados, não o é menos que o principal motivo que percorre o fim do romance é o aviso. Não sei se por casualidade ou desígnio, se estava planeado ou não, mas os autores acabam por transformar o romance numa história exemplar, numa história que acautela as donzelas e as jovens mulheres casadas contra os arrebatos do coração.

Ora, como já disse aqui por várias vezes, estes exageros do romantismo têm o condão de me encher de tédio, se bem que tenha bastante mais tolerância para eles quando as obras foram executadas na época em que era esse o estilo e a abordagem aceites nos meios literários. Ou seja, se este livro tivesse sido escrito hoje, teria poucas dúvidas em considerá-lo bastante fraco. Em 1870, contudo, ainda é época de romantismo, embora o movimento esteja já nos seus estertores finais em Portugal (onde chegou tardiamente, e onde terminou tardiamente, como é de tradição), portanto não será por aí que lhe pego. Não me agrada, mas não vou condenar o livro por isso.

Onde me parece que o livro peca mesmo é numa certa falta de solidez de abordagem. Dá ideia que os autores foram rumando um pouco ao sabor dos comentários que foram recebendo à medida que os capítulos iam sendo publicados no jornal e que a páginas tantas se deram conta de que o seu público seria maioritariamente feminino e decidiram escrever umas coisas primeiro para contentar as senhoras, depois para as avisar. Especulo. Não sei se assim foi ou não. Mas foi essa a ideia com que fiquei.

Daí que, embora não tenha desgostado da leitura, tampouco posso dizer que gostei. O português sai da experiência tão bem tratado como seria de esperar, mas o livro aborreceu-me bastante em vários trechos, em especial durante o longo interlúdio maltês. Não me encheu as medidas, longe disso. E diverte-me a popularidade de que continua a gozar ainda hoje. Não me surpreende, mas diverte-me bastante.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Lido: O Anjo

O Anjo (bib.) é um conto fantástico de Branquinho da Fonseca sobre um homem que uma bela noite tem um anjo a bater-lhe à porta. Segue-se um diálogo muito emocional entre o homem e o anjo, que eventualmente será o seu anjo da guarda, e de repente, sem que nada o faça prever, aparece na história uma bizarra trama policial com uns polícias muito brutos que o interrogam, tentando arrancar-lhe informações que ele desconhece. A que propósito? A nenhum, que eu tivesse discernido. E depois soltam-no sem propriamente o libertarem. A que propósito? Fiquei na mesma.

Tudo no conto me pareceu gratuito, colado com cuspo, francamente tosco. Nem a utilização da língua, muitas vezes o ponto forte deste tipo de contos sem enredo que se veja, é particularmente inspirada. Sim, entendo, as coisas acontecem-nos, a nossa vida está sujeita a forças que nos transcendem, muito bem. Mas já li histórias magníficas com base nessa premissa, histórias com pés e cabeça, com sumo e miolo. Aquilo que Branquinho da Fonseca faz neste conto fica muito, muito, muito longe dessas histórias. Muito longe.

É para mim completo mistério o motivo por que um conto como este é considerado um ponto alto do fantástico português.

Maçonarices, provavelmente.

Lido: En el Sexto Planeta

En el Sexto Planeta, do argentino Carlos Chiarelli, é um curioso conto que mistura ficção científica e terror, sobre a morte de um astronauta enquanto explora Saturno. Uma morte que não é bem morte, e a maior parte do conto corresponde a uma descrição do que é, ao certo, que acontece ao astronauta, e do que é, ao certo, que existe em Saturno para que algo assim possa acontecer ao astronauta. Não vos vou dizer de que se trata: boa parte do interesse do conto reside na revelação da ideia que ele tem por trás e das suas consequências. Não me parece que seja uma grande ideia, encontro-lhe alguns problemas no que toca à ciência propriamente dita, mas achei-a interessante mesmo assim. E pareceu-me bem executada. Se querem avaliar pessoalmente, basta irem até aqui e lerem o segundo conto.

Lido: Vaporpunk

Vaporpunk (bib.), como certamente já saberão os que seguem habitualmente este blogue, é uma antologia brasileira de contos steampunk que contém um conto meu. Ou uma novela, mais precisamente. Organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, saiu em setembro de 2010 mas só agora a li. E digo-vos que fiquei muito satisfeito com o que li, e mais ainda por marcar presença neste livro.

É que na maior parte das antologias que li há, quanto muito, dois ou três contos especialmente fortes, que me agradam mesmo, e depois uma série de outros contos menos bons, quando não são decididamente maus. É a natureza da coisa, e eu sou suficientemente tolerante para achar que já valeu a pena a publicação do livro se ele contiver nem que seja um conto realmente bom. Mesmo que todos os outros estejam abaixo do mínimo desejável. E é muito raro que não haja pelo menos um ou dois que me parecem não passar de enchimento. É a tal questão de mais valer a oportunidade de tomar contacto com os contos bons, mesmo que no processo acabe por ler também coisas fracas, do que ficar à espera do ótimo e acabar sem nada, nem o mau, nem o bom.

Para além disso, confesso, não sou grande fã da maior parte das abordagens ao steampunk. A ideia retrofuturista em si mesma agrada-me bastante, mas parece-me ser demasiado frequente as obras steampunk prenderem-se demasiado ao ambiente vitoriano, a uma certa idealização da Inglaterra de uma determinada época a fazer lembrar a idealização do período medieval que torna tanta fantasia comercial tão desinteressante para mim, a um folclore visual feito de couro e latão, e aprofundarem pouco aquilo que realmente me chama a atenção: a tensão entre a tecnologia e uma sociedade pouco preparada para a industrialização, entre as ideias que o desenvolvimento técnico-científico alimenta e as velhas ideias e preconceitos herdados do passado, etc. Ou seja: aquilo que me parece relevante também para os dias que correm.

Por tudo isso, foi com alguma surpresa que dei por mim a gostar de todas as histórias deste livro. De umas mais, de outras menos, mas acabei por gostar de todas. Mesmo daquelas que abordam o steampunk por caminhos de que não gosto particularmente.

Já tinha, obviamente, lido as críticas, esmagadoramente positivas mas, como já não seria a primeira vez que livros muito aclamados por quase toda a gente me sabem a pouco, parti para a leitura apenas curioso. E acabei-a convencido de que tinha acabado de ler uma das melhores antologias de literatura fantástica que me passaram pelas mãos.

Eis o que achei de cada uma das histórias. Sobre a minha, Unidade em Chamas, já falei aqui.

Recebi este livro gratuitamente por ser um dos seus autores.

Lido: Ainulindalë

Ainulindalë, de J. R. R. Tolkien, é um conto de fantasia que mimetiza um mito de criação do mundo que mais tarde se irá transformar na Terra Média que conhecemos da obra do autor e, estranhamente para mim, que nem sou fã da trilogia do Senhor dos Anéis, achei-o particularmente interessante enquanto peça literária. Talvez porque o maniqueísmo que me aborrece em obras de ficção mais "concretas", digamos, me parece natural quando incluído num mito de criação, visto que os mitos (todos eles, mas muito em especial os de criação) são explicações simplificadas e simbólicas do mundo e o maniqueísmo é inerente a tais explicações. E também porque o achei realmente bem escrito, com o tom certo e a extensão correta. E provavelmente também porque a ideia de residir na música a origem de tudo, não sendo original (há culturas reais que a usam nos seus mitos de criação), é apelativa, julgo, para qualquer pessoa para quem a música seja uma parte importante da vida. Gostei bastante.

domingo, 4 de março de 2012

Lido: Hipótese Para um Fim Feliz

Hipótese Para um Fim Feliz (bib.) é um conto de João de Melo, bastante católico na mitologia que apresenta, mas também bastante iconoclasta, muito bem escrito e cheio de humor. Vem incluído numa antologia de contos de terror, é verdade, mas não descortinei nele o que fosse de terror. Há morte, é certo, mas esta é suave, simpática, sem nada de definitivo, quase feliz, o tal fim feliz do título. O conto, na verdade, pareceu-me ter mais de FC do que de terror, porque o protagonista é morto por um indivíduo que o trata por "meu camelo", e cujos atos estão respaldados num Decreto legal emanado da ONU, o qual determina a legalidade do assassínio. Este, porém, é depois avaliado pelo Pai (Deus? Tudo indica que sim, embora também possa ser um ET qualquer), que verifica se se trata, ou não, de morte vã e age em conformidade.

O conto descreve, pois, a morte do protagonista e aquilo que a rodeia. Coisa terrorífica? Nada. Trata-se, no fundamental, de um conto fantástico bem humorado. De um bom conto fantástico bem humorado.

Contos anteriores desta publicação: