sexta-feira, 2 de março de 2018

Lido: Continhos de Alfarrobeira

"Continhos" é a palavra certa para intitular este Continhos de Alfarrobeira, porque, apesar de nem todos os textos contidos no livro se poderem designar com propriedade como "continhos", a grande maioria pode. São vinte e quatro textos, entre os quais se contam dois artigos ou crónicas, quase todos com uma dimensão que os situa entre a vinheta e o conto curto, só ocasionalmente se estendendo mais do que isso. Tematicamente são diversos, como é natural em qualquer coletânea de contos, mas existe uma clara preponderância do registo irónico e de uma abordagem entre o realista e o fantástico-realista, ainda que por vezes se encontrem também elementos de outros géneros. Pode mesmo dizer-se que este livro de Alexandra Pereira é sobretudo um livro de literatura fantástica, pois a abordagem fantástica marca presença em mais de metade destas histórias.

Os contos estão em geral bem escritos, ainda que a autora tenha um problema demasiado comum nos escritores portugueses quando chega a hora de escrever diálogos: só muito raramente estes conseguem transmitir a voz própria das personagens, ficando-se quase sempre por trechos rebuscados que em nada se distinguem da parte descritiva das histórias. Por vezes, isto é tão intenso que consegue estragar os contos respetivos, mas quando Alexandra Pereira consegue evitar cair nessa armadilha é capaz de escrever textos de leitura bastante agradável. Ela não tem uma prosa perfeita, há algumas falhas aqui e ali, mas escreve bem. E feitas as contas são mais os bons contos que aqui apresenta do que os maus, mesmo que alguns dos primeiros não correspondam propriamente às minhas preferências literárias e outros me pareçam um bom bocado inconsequentes. Ora, como eu repito com frequência, basta uma compilação de histórias conter várias boas ou nem que seja uma muito boa para valer a pena a publicação e a leitura, e é claramente o caso desta.

Em suma: não se tratando de nenhuma obra-prima, este é um livro que quem gosta de contos deverá achar interessante, e quem gosta de conhecer a literatura fantástica portuguesa, especialmente aquela que se situa na vertente mais mainstream do espectro, tem aqui algumas obras que merecem claramente leitura.

Eis o que achei de cada um dos contos e artigos:
Este livro foi disponibilizado gratuitamente sob a forma de ficheiro PDF pela editora, que entretanto fechou portas, mas continua disponível em vários sítios, nomeadamente no scribd.

2 comentários:

  1. Caro Jorge, Muito obrigada pela leitura, resenha e crítica, seja positiva ou não. Fico muito feliz que tenha gostado de, pelo menos, alguns continhos. E pelo facto de me situar na literatura fantástica também - acho um género difícil (como a forma do conto curto) e não muito comum em Portugal. O Cristais Como Nós ganhou um prémio em São Paulo na altura. Mas atenção que estes Continhos foram escritos nos inícios dos anos 2000 e publicados há mais de dez anos online pela Sinapses, um projecto duns amigos de Coimbra e dos Jovens Criadores. Abraço.

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    1. De nada.

      Quanto a o fantástico ser ou não incomum em Portugal, quando eu comecei a primeira versão do que viria a ser o Bibliowiki também achava que era escasso. Hoje, o raio do site é um monstro com mais de 39 mil páginas e ainda falta incluir montes de material. É menos incomum do que se pensa, apesar de ser muitas vezes posto de parte como género "menor".

      Quanto ao atraso na leitura, eu sei, eu sei. Passei muitos anos só a gravar coisas publicadas online, sem as ler. Só comecei a lê-las quando começaram a aparecer tablets a preço razoável, e tenho aqui larguíssimas dezenas de publicações das mais variadas à espera de atenção. Um dia...

      Por fim, parabéns pelo prémio. Esse, realmente, foi dos contos que mais me agradaram.

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