terça-feira, 6 de março de 2018

Lido: Lisboa no Ano 2000

Justamente considerada uma das primeiras obras de ficção científica propriamente dita escrita em Portugal, Lisboa no Ano 2000 (bibliografia - a precisar urgentemente de atualização) é um texto curioso por vários motivos. Em termos de extensão, trata-se de uma noveleta, mas quando a lemos deparamos com um texto híbrido, entre o documental e o ficcional. Melo de Matos, o autor, parece hesitar entre apresentar-se como engenheiro, futurista, inventor, cheio de projetos mais ou menos mirabolantes para uma Lisboa quase 100 anos no futuro (o texto data de 1906), e escritor, alguém que cria uma obra ficcional, com enredo e personagens e não apenas cenário.

E ao chegarmos ao fim, feitas as contas, ganha o engenheiro.

O cenário é inegavelmente fascinante. A Lisboa do ano 2000 que nos é apresentada é uma megalópole cosmopolita, economicamente próspera e politicamente influente à escala global, intensamente influenciada pelo progresso fabril que era a ideia de progresso em absoluto predominante na viragem do século XIX para o XX, antes de deixar de ser possível ignorar os problemas, ambientais mas não só, causados pelos desenvolvimentos da Revolução Industrial. Existe uma ingenuidade cativante nesse cenário utópico, pelo menos até ao momento em que se começam a entrever as condições sociais que se escondem por detrás dele.

Melo de Matos não fornece muitas pistas quanto a essas condições. A leitura deixa claro que isso não o preocupava minimamente, ou pelo menos que o mesmo tipo de ingenuidade que o leva a extrapolar a Fábrica e o capitalismo selvagem de 1900 para cem anos mais tarde o leva também a postular que os fundamentos da sociedade não iriam sofrer quaisquer alterações ao longo desse século. E é aqui que quem conhecer alguma coisa sobre as condições em que viviam as várias classes sociais no apogeu da sociedade fabril clássica se arrepia um bocadinho (ou um bocadão) com a ideia de cem anos de mais do mesmo, só que mais intenso. Já para não falar de algo que está implícito: o domínio europeu, e por conseguinte português, sobre vastas extensões do globo não sofre quaisquer alterações. É bem sabido que os progressistas europeus da época eram quase sempre profundamente colonialistas e estavam convictos de que a superioridade tecnológica europeia gerada pelos séculos de inovações que acabaram por desembocar na Revolução Industrial e na reorganização fabril da sociedade lhes conferia uma espécie de "missão civilizadora" cujo objetivo era arrancar à "selvajaria" os povos colonizados. Na ficção científica, encontramos essas ideias em Júlio Verne, por exemplo. E só muito raramente elas vinham acompanhadas pela consciência de que essa "missão" chegava sempre de braço dado com grandes doses de opressão e violência.

Tudo isto, no entanto, é fruta da época. O pensamento europeu era quase sempre assim, e Melo de Matos não constitui nenhuma exceção. Adiante; falemos de literatura propriamente dita.

Literariamente, a obra é fraca. Como o objetivo principal era apresentar grandes ideias para grandes projetos de engenharia, personagens, enredo, diálogos e tudo o mais que constitui a literatura, embora existam, são secundarizados e pouco importantes. Não é nada que desconheçamos na ficção científica, mas Matos exagera porque não se limita a sacrificar as personagens à Ideia, como fazem tantas obras de FC, em especial as mais antigas, sacrifica-lhe também o enredo ao ponto de o tornar inconsistente.

E além disso, parece incompleta. A publicação de Lisboa no Ano 2000 fez-se em forma de folhetim, tendo saído quatro partes na revista Ilustração Portugueza e, no fim da quarta, há fortes indicações de que o autor pretendia prolongá-la, descrevendo mais das maravilhas tecnológicas com que sonhava, pelo menos os estaleiros do Seixal. No entanto, por motivos desconhecidos, esta continuação nunca chegou a ver a luz do dia, chegando-nos uma obra que parece amputada de um final propriamente dito.

E apesar de todas estas falhas, o que nos chegou é realmente interessante, podendo ser mesmo inspirador. E para o provar nem teria sido preciso que João Barreiros tivesse tido a ideia de pegar nas ideias de Melo de Matos e desenvolvê-las à sua maneira, agregando outros autores para compor a antologia homónima. Existe neste tecnoutopismo de Matos qualquer coisa que enche o cérebro criativo de vontade de o explorar, nem que seja para expor os pés de barro em que assenta. E isso é uma inegável qualidade.

Mas esta não é uma obra de qualidade; limita-se a ser uma obra com qualidades, algumas. E é também uma obra fundamental para qualquer pessoa que tenha algum interesse pela ficção científica portuguesa.

E além disso, pode ser obtida gratuitamente, em ebook, através do Projeto Adamastor.

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