domingo, 25 de março de 2018

Lido: Pulp Feek, nº 1

Tempos houve em que, por limitações de espaço, e numa tentativa de fidelizar leitores pagantes, as publicações comerciais ligadas à ficção científica e à fantasia tinham por norma incluir entre os contos completos que publicavam algumas histórias mais extensas (geralmente novelas longas ou pequenos romances) subdivididas em várias partes publicadas em números sucessivos. Era compreensível que assim fosse: para lá da já referida questão da fidelização, essa era a única forma de publicar essas histórias mais extensas em revistas com um número padronizado de páginas que por um lado era frequente serem menos do que as necessárias para a publicação da história completa e por outro dificilmente alguém arriscaria ocupar todas (ou quase) com uma só história, por receio de desagradar demasiado aos leitores que dela não gostassem.

Estes fatores compensavam claramente o principal problema desta abordagem: a chatice que era para os leitores (e para os autores, diga-se) ficarem com histórias incompletas nas mãos, tendo de esperar um mês ou mais pela continuação (ou para sempre se a publicação fechasse, o que era sempre uma possibilidade a ter em conta). Ou apanhando as histórias a meio se por acaso calhassem comprar pela primeira vez uma revista a meio de uma publicação dessas.

Mas se isto se compreende nas publicações comerciais em papel, já me custa perceber o que leva alguém a apostar nesta forma de edição quando a publicação em questão é um ficheiro digital, que por definição não tem limitações físicas, muito em especial quando, ainda por cima, é distribuído gratuitamente na internet. Com toda a certeza, a mera procura de fidelização não compensa os incómodos que a prática origina.

Já perceberam que foi isso mesmo o que se fez nesta Pulp Feek, nº 1, não é verdade? Pois. Não só foi isso o que se fez no número 1, como essa é praticamente toda a proposta da publicação, a par com a abordagem pulp às histórias (isto não é bem verdade, mas por agora fica assim porque para explicar o resto é melhor esperar pela leitura e comentário ao nº 2). Este número da publicação, dedicado à fantasia épica e espada e magia, é constituído por dois inícios de duas histórias, por um conto completo e não muito extenso e por dois artigos. Ah, e um texto que não se assume como editorial mas funciona como tal. Nada mais.

Não falarei dos inícios das histórias para além de dizer que a língua portuguesa não sai deles lá muito bem tratada: o início de uma história pode fornecer pistas para o que a história será quando completa, certamente, mas a obra só é realmente obra quando está completa. O conto completo? É fraco, opinião que desenvolvo mais no texto que lhe dediquei (ver mais abaixo). E quanto aos artigos, são artigos de caráter didático sobre escrita criativa e sobre o que é, ao certo, o pulp, claramente dirigidos à formação de autores iniciantes, o que é bastante interessante. O outro lado da moeda, claro, é o foco ser a escrita de ficções mais ou menos pulp, como não poderia deixar de ser dada a abordagem da iniciativa. Ora, a minha opinião sobre o pulp é bem conhecida por qualquer pessoa que leia o que aqui escrevo com alguma regularidade. Apesar disso, os artigos são a parte mais interessante desta publicação... o que também dá uma ideia da opinião com que fiquei a respeito dos dois inícios de história.

Ou seja, saí desta leitura muito longe de estar satisfeito. Na verdade, quem leu o balanço do ano de 2017 já sabe que esta foi a minha pior leitura do ano. Pois. Está tudo dito, não está? Não gostei da ficção, não gosto da abordagem e não me parece que o estilo de publicação faça grande sentido no contexto da publicação digital.

E aqui está o que achei do único conto completo:

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