domingo, 23 de setembro de 2018

Lido: O Cais do Poeta

Tinha de ser. Bastou-me julgar ter reparado num padrão nestes contos de Carina Portugal para logo o conto seguinte vir desmenti-lo. Até aqui, quanto mais a autora tentava elaborar a prosa pior era o resultado, e eis que chega O Cais do Poeta e deparamos com um conto de prosa razoavelmente elaborada, chegando a espaços a ser mesmo poética, e que no entanto funciona tão bem como os melhores contos que o antecedem e muito melhor que o imediatamente anterior.

Não que esteja isento de problemas, entenda-se: as fragilidades de que a Carina tem dado mostras nos contos anteriores não desapareceram por artes mágicas. Mas aqui estão significativamente reduzidas e são compensadas por um fio narrativo seguro, por um protagonista sólido e tridimensional, e por ser aparente que pouco neste conto é gratuito e quase tudo tem a sua razão de ser. Ou seja: aqui não há espaço para a queixa de que o que faz mover as personagens não é compreensível, porque aqui é. Fruto, provavelmente, do conto ser mais longo e portanto ter espaço para se desenvolver como precisa.

O protagonista do conto é um vagabundo que é também poeta. A história começa com ele a acordar e a descobrir que uma outra vagabunda, sua companheira de longa data, morrera durante a noite, e o leitor está desculpado se temer que o conto venha a ganhar um rumo lamechas e sentimentaloide. Felizmente não é o que acontece: o protagonista vai simplesmente à sua vida e a autora limita-se a contar o dia dele, um dia como qualquer outro.

(Um parêntese: Esta descoberta da companheira morta é o pormenor mais gratuito do conto, pois em nada influencia o que se segue. Penso que a ideia fosse transmitr a ideia de esqualidez e miséria e vida no fio da navalha, mas não me parece necessário e, como não tem nenhuma influência no enredo, parece-me até desnecessário. Mas retomemos o fluxo das ideias.)

Mas não um dia como qualquer outro, porque o protagonista tem as suas peculiaridades e a sua rotina não é como a das pessoas comuns. Enquanto o grosso de nós vai de casa para o trabalho e do trabalho para casa, o mendigo de Carina Portugal tem como objetivo de vida vaguear por Lisboa a conversar com estátuas, em especial as estátuas dos poetas. Isto antes de se dirigir ao seu cais para lançar poesia ao Tejo.

Este conto, que a princípio parece inteiramente mainstream e só ganha realmente contornos fantásticos (não de horror como os anteriores, mas de fantástico propriamente dito) perto do fim, é bom. Na verdade, se não fossem as fragilidades que perduram e aparecem aqui e ali seria mesmo muito bom. Tem potencial para tanto. O melhor do livro? Não sei ainda. Mas o melhor até agora, isso sem dúvida.

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