quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Lido: Um Poeta Lírico

Na literatura realista, sobretudo mas não só, há uma corrente contista que consiste sobretudo em estudos de personagem. Contos cujo enredo é escasso ou inexistente, substituído por profusas e profundas descrições e muitas vezes opiniões sobre uma (ou mais, mas é mais comum ser só uma) personagem. Retratos, no fundo, perfeitos análogos do género pictórico em que as pinceladas se substituem por palavras.

O conto anterior deste livro do Eça de Queirós, Singularidades de uma Rapariga Loura, já era bastante isto, mas este Um Poeta Lírico é-o ainda mais. Nele retrata-se, naquele jeito de depoimento tão em voga nas letras oitocentistas (conheci fulano, falei com beltrano, fui a tal sítio e deparei com sicrano), um poeta lírico, grego de origem mas exilado em Londres, outrora pessoa importante na sua terra mas agora preso a um trabalho menor num restaurante, sem poder dar vazão aos pendores líricos porque à sua volta ninguém entende grego e ele não escreve noutra língua.

É uma personagem trágica, um perdido da vida, que o Eça trata com um misto de carinho e troça, num conto cheio de qualidades literárias, com algum humor, mas sem muito que ultrapasse a personagem em si mesma e tendo por conseguinte o interesse que a personagem desperte, pouco mais. É bom? Sim, é bom. Mas, mais uma vez, não é conto que me encha as medidas.

Conto anterior deste livro:

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