terça-feira, 4 de setembro de 2018

Lido: A Luz dos Vermes

E ao quarto conto voltamos ao terrir. Agora Carina Portugal apresenta-nos uma história de uma mulher ciumenta que faz gato-sapato do pobre do homem (marido? namorado? não interessa) sempre que ele ousa sequer olhar com algum interesse para outra. Brincando com humor com velhíssimos clichés (há um rolo da massa que voa logo no início do conto, e tal), pondo o seu protagonista como um autêntico joguete nas mãos da mulher, a qual lhe dá ensinadelas que no entanto parecem não ter nenhum efeito, este é claramente um conto bem-humorado de poder feminino. Mas não se pense que o conto é só galhofa e um título como A Luz dos Vermes aparece por acaso.

É que a ensinadela que constitui a maior parte do conto, e que é usada para o intitular, é terrível. Ao sair de casa, o desgraçado é engolido pelo passeio que se fragmenta numas engenhocas deslizantes com forte cheiro a steampunk, e quando dá por si acha-se num túnel habitado por uns vermes gigantescos e muito malcheirosos, que inevitavelmente acabam por o atacar. Não se percebe bem se se trata de algo que lhe acontece realmente, se é fruto de alguma espécie de alucinação, mas desta vez ainda bem que não se percebe; aqui a indefinição funciona bem.

O conto está bem concebido e tem um enredo bem amarrado. E é divertido, a menos que nos identifiquemos em demasia com o homem. Não convém. No entanto, não é isento de problemas, e as já mencionadas fragilidades da autora voltam a fazer-se sentir. Palavras de utilização algo estranha (exemplo: quando o homem é engolido pelo passeio esbraceja "incessantemente" antes de cair, o que é bizarro porque um ato pouco mais que momentâneo nada tem de incessante) e repetições desadequadas (exemplo: "[...]retratos de nobres seculares, e janelas, onde tão depressa era dia como noite. Contudo a gravidade puxava-o tão depressa que mal conseguia ver o que havia para além delas") reduzem a qualidade do texto, fazendo com que o conto não seja tão bom como podia ter sido. Ter-se-ia resolvido com um revisor que soubesse do seu ofício. São úteis, os revisores.

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