sábado, 16 de fevereiro de 2019

Lido: O Vampiro de Nova Holanda

Ah! Agora sim. Depois de um início morno, descritivo talvez em excesso e não muito bom, eis que finalmente este livro engrena com O Vampiro da Nova Holanda (bibliografia). Apesar de ter sido alterado para se adaptar ao formato de romance-colagem, sofrendo uma expansão e a amputação de um capítulo (quando falei de A Noiva e o Vampiro mencionei que já conhecia a história e julgava que ela fazia originalmente parte de um texto mais extenso mas não me lembrava de qual; era deste), esta é essencialmente a história que deu o pontapé de saída na série dos Três Brasis e conserva as características que tornaram o original uma das melhores noveletas da história alternativa lusófona. As grandes alterações que ela sofreu, de resto, nem foram feitas para este livro; esta é basicamente a versão que apareceu na coletânea Outros Brasis, já aí expandida em novela.

Ambientada no Recife, cidade que na linha história alternativa que Gerson Lodi-Ribeiro estabelece é a capital da Nova Holanda, acompanha uma investigação, por parte de três personagens diferentes, para determinar a autoria de uma série de crimes sangrentos que teriam tido lugar na cidade velha, pobre e habitada principalmente por portugueses e seus descendentes. Entre as vítimas conta-se a "noiva de Palmares" d'A Noiva e o Vampiro, i.e., uma negra, recém-trazida de África, cujo destino é tornar-se mulher de algum habitante de estatuto elevado de Palmares, a república negra que na imaginação de Gerson se desenvolve a partir do quilombo (local de refúgio de negros livres no Brasil esclavagista colonial, ora por fuga, ora por alforriamento) de Palmares, que existiu de facto mas aqui se desenvolve num estado independente e potente, aliado dos holandeses da Nova Holanda.

O assassino, claro, é o vampiro que já encontrámos antes no livro. E há aqui um detalhe interessante: no conto original, o clima de mistério, muito bem gerado e sustentado durante a maior parte do texto, é boa parte do que propele o interesse do leitor ao longo da narrativa. É boa parte do motivo por que o conto é realmente muito bom. Esse mistério reside na identidade e na natureza do assassino e, quando elas se revelam, o impacto é fantástico. Mas a integração do conto (agora novela) num romance-colagem altera fundamentalmente essa dinâmica. Já conhecemos o protagonista quando começamos a ler esta história e a sua permanência nas sombras ao longo de quase todo o texto não impede que ele esteja bem presente na mente do leitor. O impacto ressente-se, evidentemente. E para um leitor que só conheça esta versão, neste livro, é bastante provável que ela não pareça tão boa como é na realidade.

Por outro lado, há coisas que esse facto não afeta. O naipe de personagens interessantes, por exemplo, razoavelmente bem construídas, para personagens secundárias, e divertidas. Da princesa banta que não conhece o medo ao espadachim francês, filho de Cyrano de Bergerac, que julga que sabe muito quando nada sabe, passando por um inspetor da polícia holandesa da colónia de Nova Holanda que não se chama Van Helsig, propriamente (esse nome tão bem conhecido de quem é fã das histórias de vampiros), mas se chama Van Helsing. Entre outros. Julgo que as personagens, juntamente com um enredo bem construído e movimentado nos lugares certos e um texto de qualidade, bastam para que mesmo quem não conheça a história original considere esta novela boa. Porque o é.

Contos anteriores deste livro:

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