segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Lido: O Espelho e a Máscara

Às vezes até parece que nestes últimos tempos, desde que me lancei à leitura de contos tradicionais, a estrutura e ambiente dessas histórias me perseguem. Encontro-as nos livros de histórias tradicionais, obviamente, mas também já as encontrei no livro do Eça que tenho andado a ler e agora encontro-as outra vez neste livro de Jorge Luis Borges.

Pois O Espelho e a Máscara é um conto bastante curto, fundamentalmente sobre a natureza da literatura, que vai buscar às histórias tradicionais, acima de tudo, o número três como esqueleto estrutural. Conta a história de três encontros entre o Alto Rei da Irlanda e um seu poeta, no primeiro dos quais o primeiro encomenda ao segundo uma obra capaz de imortalizar a sua vitória sobre os noruegueses. Um ano depois, o poeta entrega a obra mas, pese embora a sua perfeição estilística, ela é recusada por nada conter de seu, ser composta apenas por empréstimos de outros autores. Apesar da recusa, o rei recompensa o poeta com um espelho de prata. E um ano mais tarde lá regressa o poeta com nova obra, bem diferente, mais curta, original, perturbada e perturbadora. Esta o rei não recusa mas, enquanto recompensa o poeta com uma máscara de ouro, vai dizendo que sabe que o poeta é capaz de produzir algo melhor ao mesmo tempo que é introduzido no texto um elemento metaliterário, pois o rei diz que os dois são "figuras de uma fábula e é justo recordar que nas fábulas prima o número três". E lá vai o poeta e regressa um ano depois com uma terceira obra, um poema de uma só linha que só se atreve a murmurar em privado ao rei por grande insistência deste. Porque este último poema, recompensado com uma adaga, é o resultado da depuração da literatura até à perfeição, e isso é fatídico para ambos.

Este é outro conto excelente. Não lhe chamarei perfeito, até porque tem mais que uma linha, mas é um conto capaz de revelar como poucos a atitude que Borges tinha para com a literatura; A sua ideologia literária, chamemos-lhe assim. E fá-lo indo beber precisamente à mais profunda e antiga fonte da literatura: as histórias populares. O que constitui um nível de leitura em si mesmo mas ganha novos significados quando é combinado com o que vem escrito no conto. Borges gostava de labirintos, como é sabido, e aqui construiu um labirinto metaliterário de primeira qualidade.

Contos anteriores deste livro:

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