quarta-feira, 17 de abril de 2019

Lido: O Bornal, o Chapéu e a Corneta

Um dos clichés eternos dos contos populares em que aparecem três irmãos ou, mais raramente, outros tipos de trios (e têm de ser três, naturalmente), determina que os dois primeiros a aparecer na história devem ter características semelhantes mas o terceiro faça contraste com eles em algum detalhe fulcral (ou em mais que um), ou pelo menos que as qualidades (ou defeitos) vão em progressão do primeiro para o segundo e deste para o terceiro. Lembram-se da história dos Três Porquinhos? Pois. É um caso típico: os dois primeiros são imprudentes e preguiçosos e estúpidos, embora o segundo seja menos mau que o primeiro, e o terceiro é prudente, trabalhador e inteligente, salvando-se assim do lobo.

Esta história, de acordo com a habitual nota dos Irmãos Grimm e para variar, não resulta na fusão de dois ou mais contos. E é uma dessas histórias protagonizadas por três irmãos, nos quais uma certa qualidade vai em progressão do primeiro para o terceiro, seguindo portanto de perto o esquema dos Três Porquinhos. Que qualidade? A ambição.

A ambição de saírem da miséria, para começar. Por isso partem pelo mundo, em busca de fortuna. O primeiro irmão encontra-a sob a forma de uma montanha toda feita de prata; o segundo, sob a de uma montanha de ouro. E o terceiro?

Bem, se atentarem a que a história se intitula O Bornal, o Chapéu e a Corneta poderão imaginar, corretamente, que esses três objetos vão acabar por constituir a fortuna do terceiro. Como? Sendo mágicos, claro.

São esses três objetos os prémios do terceiro irmão. Não direi que magia tem cada um, mas sigo que esse terceiro irmão é um canalha de todo o tamanho, que consegue os seus três objetos da forma mais criminosa possível, e que depois de os reunir, de voltar a casa, de mais umas quantas peripécias, acaba como rei. Não se trata, pois, daqueles contos de fadas em que no fim os bons vencem os maus e vivem felizes para sempre. É um conto cínico e brutal, que deixa à interpretação de cada um se a brutalidade do terceiro irmão é de elogiar por levar a que ele alcançasse tudo aquilo que desejara ou, pelo contrário, se trata de uma história de denúncia do negrume que os reis têm dentro. Seja como for, é um conto perturbador e, em parte por isso, interessante.

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