quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lido: José Matias

Com José Matias, cujo título dificilmente poderia ser mais apropriado, Eça de Queirós regressa aos estudos de personagem que abrem este livro. E este é bastante longo para esta espécie de retratos: 18 páginas de letra miudinha e apertadinha.

A personagem que Eça estuda é, claro, José Matias. Um jovem aristocrata ultrarromântico que se perde de amores platónicos (e correspondidos) por uma bela casada e se recusa a permitir que o platonismo passe a coisa concretizada quando a rapariga fica viúva, tudo contado como quem fala connosco, numa narração onde aqui e ali assomam as marcas de oralidade típicas do discurso direto. A princípio parece que a costumeira ironia queirosiana vai desfazer a tolice e o absurdo inerente àquela patetice sentimental, mas com o desenrolar da história percebemos que não, que Eça não troça do seu protagonista; tem pena dele.

O detalhe mais bem apanhado deste conto é a forma narrativa. Eça escreve como quem fala com o leitor, com marcas de oralidade que, não sendo fortes, estão espalhadas pelo texto. Dirige-se diretamente ao leitor, chamando-lhe "meu amigo", e explica-lhe a história das idas e vindas da sua relação com José Matias e, por intermédio dessa história, também a vida do protagonista desde que pela primeira vez pôs os olhos naquela que viria a ser o objeto da sua paixão platónica, até à sua morte (e não, não estou a revelar nada que Eça não revele logo na primeira linha do conto), destruído e alcoólico, anos mais tarde.

Mas não posso dizer que tenha realmente gostado desta história. Sim, está tão bem escrita como seria de esperar de algo feito pelo Eça, e sim, a técnica narrativa é usada de forma praticamente perfeita. Mas a história que Eça conta foi-me aborrecendo mais depressa do que as páginas foram passando. Poderia talvez ter gostado dela com cerca de metade da extensão, apesar de reconhecer ser provável que sem prolongar a lenta agonia autoimposta do protagonista Eça teria tido dificuldade em retratá-lo de forma adequadamente patética. Mas mesmo assim... É que muito antes de chegarmos ao fim, muito antes, já sabemos que estamos perante um palerma tresloucado, e a confirmação e reconfirmação desse facto em sucessivas peripécias em que o tosco do protagonista toma as decisões mais estúpidas possíveis depressa se tornam francamente maçudas.

Lá está: nada tenho a apontar à forma, bem pelo contrário. Mas o conteúdo... meh. E como dou primazia ao conteúdo, a opinião final não é das melhores.

Contos anteriores deste livro:

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