quarta-feira, 8 de maio de 2019

Lido: O Suborno

Uma das facetas mais interessantes da forma que Jorge Luis Borges arranjou para escrever os seus contos é o uso que faz da ironia, frequentemente subtilíssima mas não menos acutilante por isso. Essa ironia é patente na maior parte dos seus pseudofactuais, mas também em muitas das histórias que não o são. Ou naquelas que são algo mistas nesse aspeto: não propriamente pseudofactuais, mas com elementos destas últimas.

Caso de O Suborno. Trata-se de uma história muito subtilmente irónica sobre a Academia, narrada em jeito de depoimento. Um reputado professor e investigador de arcanas minudências literárias e linguísticas vê-se muito subitamente alvo de ferozes críticas na imprensa académica por parte de um jovem até aí desconhecido, e o conto vai narrando as peripécias de tal rivalidade, até que os dois protagonistas finalmente se encontram e conversam um com o outro, momento em que o mais novo revela ao adversário que na verdade não discordava do mais velho, antes nutria por ele um forte respeito, e tudo não passara de estratagema para alcançar uma posição académica que ambicionava. E que dependia do criticado.

É um conto tão bem construído como é espectável em Borges, muito corrosivo na ironia com que retrata as manobras políticas subjacentes às posições e publicações académicas, mas a que lhe falta aquele toque de surpresa, de revelação, para realmente me encher as medidas. Um conto bom, parece-me, e que me divertiu, mas que para além disso me deixou em grande medida frio.

Contos anteriores deste livro:

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