quinta-feira, 16 de maio de 2019

Lido: A Perfeição

Para prosador realista, preocupado com as minudências da condição humana como é de bom tom entre os prosadores realistas, há que convir que Eça de Queirós se fartou de escrever histórias fantásticas.

Pois A Perfeição é mais uma. Desta feita, porém, o conto não é como de costume baseado na mitologia cristã, nem sequer, como acontece por vezes, nas histórias tradicionais europeias, mas enraíza-se na mitologia grega. Ou melhor: numa história específica da literatura grega, a Odisseia.

Eça não inventa muito; limita-se a recontar, à sua maneira, o excerto da Odisseia em que Ulisses é cativo da ninfa Calipso na ilha de Ogígia, seguindo fielmente a história de Homero, pelo menos nas grandes pinceladas. A história é interessante e Eça torna-a mais interessante ao colocar no fulcro da rebeldia de Ulisses não tanto as saudades da pátria e da família, embora essa parcela também faça parte da soma, mas a resistência de um mortal, por conseguinte imperfeito, à perfeição inerente à divindade. E é este o elemento que mais contribui para o interesse do conto.

Mas há algumas coisas nele que colidem com alguma violência com o meu gosto literário. Para começar, a prosa é bastante mais adverbiada e adjetivada do que é habitual em Eça, cujo estilo, embora esteja sempre longe de ser seco, costuma ser mais contido do que aqui aparece. E ainda bem. E também há um problema com os diálogos, os quais tendem para um ar declamativo e tonitruante que num autor menor se estatelaria no ridículo e só não o faz em Eça porque, enfim, Eça não deixa de ser Eça.

Este é um mau conto, portanto? Não, não é. Mas na minha opinião (há outras; há quem goste de declamações teatrais e adjetivadas) está a alguma distância dos melhores.

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