quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Lido: Um Casamento Perfeito

A ficção científica de meados do século passado inclui uma corrente inteira de obras centradas na ideia de sociedades mecânicas e determinísticas, geridas por gigantescos computadores infalíveis, nas quais cada detalhe está predeterminado "cientificamente" e não há lugar nem para a imaginação nem para a liberdade individual. É uma ideia caída em desuso, até pela própria evolução da ciência que entretanto integrou noções probabilísticas e princípios de incerteza, afastando-se também ela deste tipo de inflexibilidade. De vez em quando a ideia ainda aparece por aí, mas de forma anacrónica, o que tem como consequência que histórias deste género sejam no fundamental datadas pelos seus pressupostos básicos.

Um Casamento Perfeito (bibliografia) é uma dessas histórias. Nela, André Carneiro desenvolve uma distopia clássica, que seria integralmente mecânica e determinística se não fossem os elementos subversivos que se dedicam a colocar uns grãozinhos na engrenagem. O enredo gira em volta de um casamento, claro, e da vida em comum dos casados. Como é natural, a união é determinada pelo computador que tudo vê e tudo decide, mas o casamento é turbulento e gera sentimentos fortes. É o contraste entre essa turbulência e a expetativa de perfeição qualquer coisa que fosse determinada pelo computador que serve de motor à narrativa e, nisso, Carneiro é bastante bem sucedido. No entanto, não gostei por aí além do conto. Há nele um certo ludismo que me desagrada, apesar de compreender bem a sua origem (o pseudo-cientificismo das ditaduras da época e de décadas anteriores, com certeza) e o estilo que Carneiro aqui apresenta, muito descritivo e bastante seco, também não é muito do meu agrado.

Ou seja, este é um conto muito datado e que eu só acharia um pouco mais que razoável mesmo se não o fosse.

Contos anteriores deste livro:

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