segunda-feira, 15 de março de 2021

Mário de Carvalho: A Torneira

No Beco das Sardinheiras, um bando de putos resolve entrar num barracão (ou casarão) abandonado e muito proibido para lá fazerem o que os putos desde sempre fizeram em lugares abandonados e muito proibidos: investigar, explorar, vencer o medo que os adultos lhes tentam incutir. É assim que começa este A Torneira de Mário de Carvalho, mas já se sabe que não é assim que termina. Afinal, estamos no Beco das Sardinheiras, onde pode acontecer tudo e qualquer coisa. E geralmente acontece mesmo.

Aqui, o que os putos encontram é uma espécie de oficina cheia de estranhos mecanismos enferrujados. Resolvem acionar um deles, uma espécie de roda, o que fazem com dificuldade. Nada parece acontecer. Desinteressam-se e vão-se embora em debandada, pois o pai de um deles vem-se chegando e pode dar sarilho. Mas pouco depois aparece uma espécie de trovoada fixa sobre o bairro, e um fio de água, não muito abundante mas contínuo, despenca céu abaixo sempre no mesmo sítio. Toda a gente em espanto, a tentar perceber o que se passa, e a água vai de cair, não tanta que cause alarme na cidade em geral, mas a suficiente para começar a fazer estragos no sítio específico onde cai. Até que um dos putos soma dois e dois e resolve a situação.

Este é, como se vê, um conto fantástico muito interessante e bastante divertido. Mas para mim, o que ele tem de mais interessante é poder integrar-se num subgénero recente, que trabalha este tipo de histórias em que a tecnologia classicamente mecânica interage com o mágico e o bizarro, e fazê-lo quase toda a certeza sem que o autor disso tenha conhecimento, até porque o conto foi escrito e publicado muitos anos antes do subgénero ser identificado e individualizado. Aliás, dois subgéneros. Há aqui elementos de fantasia steampunk e também de new weird. Interessante, muito interessante.

Contos anteriores deste livro:

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