terça-feira, 2 de março de 2021

Irmãos Grimm: Da Morte da Galinha

É-me sempre curioso o descaso com que nestas histórias tradicionais se encara a morte. É certo que Da Morte da Galinha é uma fábula, que mais uma vez parece não ter sido muito alterada pelos Irmãos Grimm, à parte, provavelmente, um apuro literário que o original contado à lareira não teria. É certo que, sendo fábula, as suas personagens são animais e por isso é menos relevante que morram ou não do que se fossem gente, mas não é menos certo que são animais que falam e pensam, o que de certa forma lhes confere alguma humanidade. E no entanto, a sua morte é aqui tratada com absoluta indiferença.

E são mortes em catadupa. Tudo começa quando uma galinha tenta engolir um miolo de noz demasiado grande e fica com ele entalado na garganta, pondo o frango num corrupio para tentar ajudá-la. Com elementos de lengalenga, neste conto o frango pede ajuda, quem (um animal ou objeto inanimado) recebe o pedido negoceia um favor prévio antes de prestar auxílio, e lá corre o frango a tentar satisfazer o favor. Claro que a galinha morre. Mas está longe de ser só ela a morrer. A moral da história parece ser "não te metas, deixa-te ficar sentadinho, não faças nada, não tentes ajudar ninguém, os outros que se governem e se não se governarem azar o deles", porque sempre que alguma personagem acaba por ceder à ideia de prestar alguma espécie de auxílio acaba morta. Um elogio do egoísmo mais completo.

É um conto asquerosozinho, sim. Já não é o primeiro que aqui se encontra e muito provavelmente não será o último.

Contos anteriores deste livro:

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