sábado, 8 de dezembro de 2018

Já anda por aí...

Eu traduzo profissionalmente desde 2006. Já lá vão uns aninhos, portanto. E já tenho uns quantos livritos no currículo. Ou umas quantas dezenas de livritos no currículo, mais propriamente. Segundo as contas do Goodreads há no momento em que escrevo isto 86 trabalhos distintos associados ao meu nome, embora parte destes trabalhos sejam os que contêm a minha ficção e haja uma praga no Goodreads que torna estes números extremamente imprecisos: a malta que introduz repetidamente os mesmos livros (e não os associa uns aos outros), compensada em parte pela malta que se esquece de que o tradutor é um tipo especial de autor dos livros traduzidos e não o inclui na ficha dos livros que introduz.

Neste tempo todo, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que falei do meu trabalho aqui na Lâmpada. Dei há dias por isso, e seguiu-se imediatamente uma das minhas expressões favoritas: "mas por que raio?!"

É que realmente faz muito pouco sentido.

Bem, acho que isso vai mudar. Se as coisas não fazem sentido faz menos sentido ainda insistir nelas. E por isso, digo-vos que já por aí anda o penúltimo livro que traduzi: o primeiro volume de Sangue & Fogo, do George R. R. Martin. E não é só no site da editora que o podem encontrar, ou seja, já não está em pré-lançamento. Eu já o vi até no Continente.

É o primeiro volume de uma história imaginária sobre o que aconteceu em Westeros entre a Conquista de Aegon e a Rebelião de Robert, e se não sabem que nomes são estes o livro também explica. Tal como O Mundo de A Guerra dos Tronos (título que faz todo o sentido comercial mas que não me agrada particularmente, diga-se de passagem), é, no contexto do universo ficcional do Martin, um livro de não-ficção, escrito por um dos eruditos da Cidadela de Vilavelha. Mas enquanto O Mundo é um livro iminentemente descritivo, uma obra que seria verdadeiramente de não-ficção se não se desse o caso de tudo aquilo que descreve ser ficcional, estes livros de Sangue & Fogo são mais híbridos.

Quero eu dizer com isto que este livro se lê quase como um romance. Há descrições, é certo, como seria natural num livro de História, assim com letra grande, mas também há diálogos e uma voz do homem que narra, o qual, apesar de procurar ser eruditamente objetivo, deixa transparecer a sua humanidade, os seus preconceitos, a sua moral, as suas opiniões, e por aí fora.

Este é um dos truques que o Martin usa para anular o aborrecimento que se poderia esperar do equivalente westerosiano de um livro académico.

Outro é o humor. Ao longo deste livro (e do próximo, que isto são dois volumes a sair com poucos meses de intervalo), há várias personagens, apartes e situações que emprestam às típicas convulsões políticas e militares de qualquer história de qualquer entidade política uma nota de ironia, que por vezes chega a provocar o riso. Por mais sisudo que se tente mostrar o erudito que narra a história, as alfinetadas que atira a um ou outro dos colegas, os comentários que tece sobre a fiabilidade das fontes que utiliza para a elaboração do seu livro, e até algumas citações dessas mesmas fontes, conseguem ser francamente divertidas.

No entanto, se o livro se lê quase como um romance não se lê exatamente como um romance. Sendo como é uma história (fictícia) sobre um período prolongado, de 100 anos, e apesar de várias personagens nos acompanharem ao longo de dezenas e por vezes de centenas de páginas, não existe aqui propriamente o tipo de protagonista que costuma existir nos romances. Ou por outra, o verdadeiro protagonista desta história é a dinastia Targaryen propriamente dita, não Aegon I, a rainha Alysanne ou qualquer outra das pessoas (e dragões) que passam pelas suas páginas.

Pessoalmente posso dizer que foi bom regressar a Westeros. No processo de tradução dos 10 volumes da série, e de mais uns apêndices, passei lá vários anos da minha vida e os Sete Reinos (a par dos Seis Ducados da Robin Hobb, que também já somam vários anos de trabalho) tornaram-se ao longo desses anos uma espécie de casa virtual, pelo que foi uma espécie de regresso a casa. A uma casa um pouco diferente, sem nenhum dos velhos amigos que lá deixei quando terminei a tradução de Os Reinos do Caos, mas mesmo assim foi agradável conhecer um pouco melhor pessoas e acontecimentos que até aqui só conhecia de ouvir contar, de referências dispersas por aqui e ali, ao longo das milhares de páginas das Crónicas do Gelo e Fogo. E também algumas personagens e factos até aqui desconhecidos.

E só vos digo mais uma coisa, um cheirinho não para este livro propriamente dito, mas para o próximo volume: o Martin é uma delícia a escrever anões.

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