domingo, 9 de dezembro de 2018

Lido: A Bicha de Sete Cabeças

Há muitos contos populares cuja moral principal se pode resumir na velhíssima máxima "o crime não compensa". E este A Bicha de Sete Cabeças é um deles.

Mas é mais do que isso. Recolhido por Adolfo Coelho em Ourilhe, a tal terreola com um peso absolutamente desproporcionado nesta recolha, também é um conto que desmente de forma categórica a velha ficção nacional sobre os portugueses não serem racistas. Quem juntar as duas coisas percebe imediatamente: há aqui um preto, e é o preto o criminoso. Claro.

O enredo anda em volta de um caçador que caça a tal bicha de sete cabeças, sem saber que o rei instituíra um prémio pela morte de tal monstro: a mão da filha em casamento, como de costume. O tal preto, malandro e vigarista, aproveita-se da ignorância do heroico caçador, apropria-se das cabeças da bicha, leva-as ao rei, afirmando ter sido ele o bravo a matar o monstro. E claro que tudo acaba em bem, com o preto impedido de casar com a princesa e o branco bonzinho recompensado.

Esta é das tais histórias que, a reboque de uma moral positiva (mas falsa, infelizmente; demasiadas vezes o crime compensa mesmo), inculca em quem a lê e ouve uma série de valores francamente negativos, quando não são mesmo repugnantes. E também é uma história com uma curiosidade: o facto de se referir à bicha assim, no feminino. É que eu sempre ouvi falar em bicho de sete cabeças, masculino, uma expressão que se utiliza como sinónimo de coisa muito complicada. E isto desde bem antes de o brasileirismo bicha se generalizar para designar os homossexuais masculinos. Regionalismos, talvez? Não sei.

Contos anteriores deste livro:

4 comentários:

  1. Eu sempre ouvi falar de bicha de sete cabeças (no sentido de hidra, mesmo). Sou de Lisboa.

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    1. A sério? Nunca ouviste frases do tipo "oh, pá, tem lá calma que isso não é nenhum bicho de sete cabeças", no sentido de não ser nada de particularmente complicado? Era bicha?

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  2. Ouvi as duas coisas:
    bicho de sete cabeças = problema
    bicha de sete cabeças = hidra
    Uma bicha é um bicho semelhante à cobra. Aliás, em Lisboa chama-se bicha a muita coisa. Fiquei perplexa quando comecei a conhecer pessoas de outros sítios que achavam que "bicha" era uma palavra feia. Muito antes das telenovelas brasileiras.
    Aqui o insulto sempre foi outro. Muito, mas muito mais feio, quer no masculino quer no feminino. Bicha é a do autocarro.
    Pode ser um regionalismo do meu bairro onde até temos um Beco da Bicha. ;)

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    1. Engraçado. Eu nunca ouvi bicha de sete cabeças. Por aqui bicha é a fila, sim, e também a bicha-solitária, i.e., a ténia.

      E mais algumas coisas. Mas bicha de sete cabeças não.

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