quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Lido: O Engenho dos Sonhos (#leiturtugas)

Entre o devagarinho e o parado durante anos, dependente em demasia de uma série de autores que produzem pouco ou nada (mea culpa!) e de uma atitude perfecionista de mais valer não fazer do que fazer mal ou até insuficientemente bem, o panorama da ficção científica e fantasia portuguesa recebeu há uns anos nova vida com a chegada de uma série de autores que, entre erros e acertos, se borrifaram para os velhos do Restelo, arregaçaram as mangas e começaram a produzir coisas. E a publicar coisas.

Boa parte desses autores organizou-se em volta do site Fantasy & Co., entretanto desativado (definitivamente?). E Carina Portugal foi uma delas, produzindo uma série de histórias para o site, umas sujeitas a tema, outras nem tanto, as quais vieram depois dar contribuição decisiva para a composição desta coletânea a que resolveu dar o título algo enigmático de O Engenho dos Sonhos.

Mesmo havendo exceções a esta regra, sai-se da leitura com a ideia de que a autora se sai melhor em extensões médias (uma vez que não existe aqui nenhuma história realmente longa), pois geralmente não consegue fazer com que a maior brevidade não venha acompanhada pela sensação de que há demasiadas coisas no ar, ou gratuitas. Será provavelmente sintoma de inexperiência; só tentando e errando se compreende realmente onde estão os nossos pontos fortes e fracos e a experiência ensina a sublinhar aqueles e disfarçar estes.

Mas a verdade é que, pesem embora algumas fragilidades no tratamento da língua, de que fui falando e de que fui dando exemplos ao longo da leitura e comentário dos contos (e um poema), e que em geral pareceram ir diminuindo do princípio para o fim do livro, este não deixa de ser interessante. Não contendo nenhum conto muito bom, tem vários que se podem considerar bons, sobretudo Pintado a Sangue, Sementes de Fada, Pele de Escrava e O Cais do Poeta. Outros há que com uma revisão atenta e pequenas mudanças poderiam juntar-se a este grupo, embora também haja um grupo de seis ou sete mais fracos ou até bastante fracos. O tom geral que fica é de um livro de fantasia sombria próxima do horror, com alguns exemplos de outros géneros e com outras abordagens (até há um conto de FC), de uma autora com potencial mas ainda inexperiente e que nem sempre consegue descolar de caminhos já muito trilhados por autores anteriores.

E se, como eu digo sempre, uma compilação de contos vale a pena se contiver pelo menos uma história muito boa ou três ou quatro boas, esta cumpre. Não chegará a ser uma boa coletânea, não ultrapassará a mediania, mas apesar de ser autoeditada é melhor que algumas das coletâneas de FC&F portuguesa que saíram em livro por editoras de prestígio, contendo vários bons contos. Talvez merecesse uma boa revisão, uma reformulação de conteúdo para remover as histórias mais fracas e talvez acrescentar outras, e uma edição a preceito.

Eis o que achei de cada história:
Este livro pode ser obtido gratuitamente aqui.

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