segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Lido: Pequena Coleção de Grandes Horrores

Quem olhar para a extensa lista de links que se segue, sem dispor de mais nenhuma informação (além da capa aqui ao lado a indicar que se trata de um livro de contos, provavelmente), facilmente poderá pensar que a Pequena Coleção de Grandes Horrores é um livro volumoso. Mas não. O "pequena" do título é inteiramente adequado para este livro de Luiz Bras que tem apenas 144 páginas.

Trata-se, portanto, de uma coleção de textos muito curtos, raramente ultrapassando as duas páginas, contos quase todos, ou pelo menos algo de híbrido mas mais próximo da prosa que da poesia, ainda que alguns se aproximem mais desta que daquela. O "horrores" do título nem sempre é fiel ao conteúdo, pois várias destas histórias são francamente divertidas, chegando mesmo a provocar a gargalhada, ainda que em muitas o horror esteja de facto presente. Mas também aqui raramente se trata de algo de puro. É um horror que vem quase sempre misturado com outras coisas, e entre estas outras coisas a ficção científica tem posição de relevo.

Mas o que aqui se encontra é sobretudo um conjunto de exercícios com o objetivo de transmitir o máximo de significado com o mínimo de palavras, reduzindo a ficção ao osso e mais além. Nisso, estas histórias aproximam-se muito da poesia, que tem também aí um dos seus principais apelos. E disso há aqui exemplos que chegam quase ao sublime. Alguns, retirados dos últimos contos do livro, e haveria muitos mais para dar, incluem Temporada de Caça, Selvagens, Nas Catacumbas ou Ventania.

Como é natural em qualquer compilação de contos, e mais ainda numa que, como esta, tem no experimentalismo literário um dos seus esteios principais, alguns textos foram mais bem sucedidos que outros. Mas não há aqui textos maus. Há alguns que me parece não terem saído da mediania, mas são poucos; a maioria são bons contos e/ou poemas, e um número razoável é mesmo muito bom. Entre estes, destacam-se, a meu ver, O Homem sem Sombra, Total Recall e Coronel Pança em Pânico.

Em suma: este é um livro francamente bom. Não será para todos os gostos, que não é. Quem goste dos seus géneros bem definidos é capaz de ficar pouco impressionado com as misturas que Bras faz, e quem não ache grande graça a ficção ultracurta provavelmente não achará grande graça a esta ficção ultracurta. Dois exemplos, entre outros possíveis. Mas para os outros, por exemplo para os que, em Portugal, gostam de Mário-Henrique Leiria (apesar de aqui irem encontrar uma acutilância política menor e mais movida a raiva) ou, entre os mais recentes, das ficções mais breves de gente como João Ventura, este é livro que vale muito a pena. Muito mesmo.

Eis o que achei de cada texto:
Este livro foi-me oferecido pelo autor.

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