domingo, 29 de setembro de 2019

José Marracinha: Horas Certas

Perdoem-me esta constatação de facto, porque há uma boa possibilidade de que quem esteja a ler estas palavras seja da zona, nas neste país escreve-se demasiado sobre Lisboa.

Isto não é só desabafo de alguém que está cansado de ver o mesmo cenário em dezenas de textos literários (e letras de canções), embora também o seja. É que a superabundância de histórias lisboetas tem como consequência alguma mesmice em muitas delas. E isso tem como consequência tornar essas histórias menos interessantes do que de outra forma poderiam ser.

Já perceberam, certamente, que as Horas Certas de José Marracinha se passam em Lisboa. Não só se passam em Lisboa, como decorrem num ambiente que faz muito lembrar algumas obras do Mário Zambujal ou o do filme Kilas, o Mau da Fita. Marracinha tenta traçar um retrato de uma série de personagens populares que giram em volta do Clube Recreativo da Ajuda e de um crime de homicídio de que uma delas, um engatatão impenitente, teria sido vítima. Crime esse executado de forma particularmente macabra, pois alguém matara a vítima enfiando-lhe no traseiro um ponteiro de um relógio de igreja.

E sim, a história sofre de mesmice. É aquele ambiente popularucho e afadistado que encontramos em dezenas de obras dos mais variados tipos, a que se acrescenta um enredo a remeter às comédias de costumes que reconhecemos de centenas de histórias contadas em vários meios, mas sobretudo na literatura, pelo menos desde o século XIX. E isso contribui para tornar esta história bastante aborrecida. O estilo enovelado de Marracinha não ajuda a evitar que o ritmo do seu conto fique tão arrastado que nem a faceta policial da história consegue espevitar o interesse do leitor. Ou pelo menos deste leitor.

Não digo com isto que o conto seja mau. Não é; não há nele incorreções de monta e não maltrata a língua. É apenas aborrecido. Muito aborrecido.

Contos anteriores deste livro:

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