segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Teresa Avillez Ereira: É Rua Cá Dentro

Já repararam como por vezes as histórias de linguagem mais arrebatadamente poética são as mais parcas em verdadeira emoção, ao passo que outras histórias, escritas com a maior simplicidade, extravasam emoção em cada traço de cada letra? E isto independentemente de qualidade, elaboração narrativa, por aí fora. E também independentemente do sentimentalismo da escrita (sentimentalismo e emoção são coisas por vezes bastante diferentes). Uma frase como "só conheci realmente o meu pai momentos antes de ele fechar os olhos para sempre", que acabei de inventar agora mesmo e é composta exclusivamente por palavras simples que qualquer um de nós poderia dizer em qualquer momento da vida, pode ser mais emotiva do que contos inteiros cheios de imagens poéticas que pretendem transmitir emoção.

Foi um pouco isto o que senti ao ler este conto de Teresa Avillez Ereira (que com as suas 30 páginas é bem capaz de não ser conto mas sim noveleta, diga-se de passagem). O pendor poetizante já é óbvio desde o título de É Rua Cá Dentro, e mais óbvio se torna assim que a leitura começa. Ereira parece ser daquelas autoras muito mais preocupadas com a forma do que com o conteúdo, e isso tem consequências, mas convém que se sublinhe desde já que a sua prosa não é daquelas prosas poéticas cheias de mau gosto que os anglófonos englobam sob a etiqueta de "purple prose". Não. No que toca à prosa propriamente dita, este conto é francamente bom, e está cheio de imagens muito bem conseguidas, ainda que por vezes soem demasiado gratuitas por parecerem existem por existir e não como meio para alcançar um fim.

Quanto à história propriamente dita, é uma daquelas histórias feitas em registo de realismo mágico, baseadas em alguma bizarria incomum. No caso, a bizarria é o protagonista: um rapaz que não fala. Não por não saber ou por ser sudo ou mudo (apesar de ser assim que muitos o tratam), mas simplesmente porque não quer. Acha que nada tem a dizer, e prefere a posição de observador do mundo do que propriamente de seu agente. A narrativa, altamente sinuosa e ainda mais palavrosa, segue basicamente um dia da vida do miúdo e da sua mãe, uma fisioterapeuta que reserva um dia na semana para fazer visitas ao domicílio na vilória costeira em que vivem. Uma vilória imaginária, chamada Vila da Areia, mas cuja geografia parece apontar para a zona da Ria de Aveiro ou coisa que o valha.

E é de deambulações que se faz a história, com personagens que aparecem de forma aparentemente irrelevante para depois desaparecerem e reaparecerem mais adiante, sugestões sinuosas sobre relações que para o miúdo protagonista são mistérios quase totais e a autora nunca chega a esclarecer, e personagens pouco claras: uma estrangeira misteriosa, um pintor com artrite nas mãos, uma velha maluca mas cheia de juízo, um gato e um cavalo. Muito simbolismo à mistura. Para muitos leitores, imagino, toda a bruma que envolve este texto será de molde a causar alguma rejeição. Para mim, o que mais me afastou foi o que mencionei ali em cima: a sensação de que tudo isto pretendia despertar emoções que é incapaz de despertar por puro excesso de literatura. Mas o conto não é mau. Até talvez seja bom.

Contos anteriores deste livro:

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