sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Lido: Quartos de Hotel

Há muito quem diga que o escritor deve escrever sobre aquilo que conhece, como se a imaginação ou a capacidade efabulatória fossem palavras feias a banir dos dicionários. É uma ideia daninha, esta, porque deu e continua a dar origem a verdadeiros oceanos de banalidade umbiguista. E este conto de Inês Pedrosa é um excelente exemplo disso.

Quartos de Hotel é um conto episódico e quase inteiramente descritivo, composto por seis variações sobre o mesmo tema: um encontro sexual entre amantes, invariavelmente ligados à literatura (os dois ou só um deles), invariavelmente insatisfeitos, que serve invariavelmente para os retratar a breves pinceladas, tanto a eles como às relações que vivem. Se não o é logo a abrir, depressa se torna ululantemente óbvio que o umbigo da autora marca forte presença nestes quadros e que o conto é escrito a pensar sobretudo no limitado circulozinho de escritores, editores e gente das letras em que ela se move.

E é também um conto prodigioso. É prodigioso como algo tão breve consegue ser um tão eficaz gerador de bocejos.

As historietas são de uma banalidade burguesa absoluta e depressa se tornam repetitivas, as ironiazinhas com destinatário são muito menos subtis do que a autora julga, e antes de chegar a meio já eu estava a olhar para o contador de páginas a pensar "mas isto nunca mais acaba?"

Entendamo-nos bem: não, o conto não é mau. Inês Pedrosa tem a qualidade de não maltratar a língua portuguesa, de apresentar uma escrita boa o suficiente para não se poder achar realmente mau o que produz. O problema é ser muito, muito chato e irremediavelmente desinteressante. Haverá quem goste, claro; há sempre.

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