domingo, 21 de janeiro de 2018

Lido: Gelo e Fogo

As fronteiras que separam a ficção científica do que não o é são quase sempre muito mais questão de ponto de vista e do objetivo da classificação do que coisas sólidas e objetivas. Variam. Sinal disso é a profusão de definições propostas para o género, muitas delas contraditórias entre si, que levaram alguns autores e críticos a propor definições sarcásticas do estilo de "ficção científica é aquilo para que eu aponto quando digo 'ficção científica'". Para alguns, isto é frustrante e presta-se a discussões intermináveis e, na maior parte dos casos, perfeitamente inúteis. Mas é simplesmente a inevitável natureza das coisas, nem que seja porque no preciso momento em que alguma definição porventura se tornasse universalmente aceite alguém trataria logo de produzir alguma obra que a pusesse em causa.

Vem isto a propósito de Gelo e Fogo (bibliografia), uma raridade na obra de Ray Bradbury, não por algum motivo temático ou estilístico, mas pela sua extensão de novela. Poderão ficar com uma ideia de quão raro foi Bradbury escrever nessa extensão se vos disser que, embora nem toda a obra de Bradbury esteja traduzida para português e provavelmente nem toda a obra que o está já tenha chegado ao Bibliowiki, das 189 obras que chegaram até este momento (Bradbury é o autor com mais obras já incluídas no site, e um de apenas três que atingiram as 100; os outros dois são Asimov — 167 — e King — 100) esta é a única novela.

Gelo e Fogo tem uma premissa imaginativa: o que aconteceria à tripulação de uma nave espacial se se despenhasse num planeta distante apenas marginalmente habitável, no qual algum estranho efeito de radiação causasse uma gigantesca aceleração no desenvolvimento metabólico do ser humano? Ao ponto de as pessoas passarem a viver vidas inteiras em meros dias. Ao ponto de essa vida ser uma constante guerra pela sobrevivência, uma precipitação para aproveitar os escassos recursos no mais escasso ainda tempo que existe entre dias de um calor a que é impossível sobreviver, e noites de um frio não menos assassino, durante os quais é indispensável procurar refúgio em grutas. E o que aconteceria se a população não coubesse toda numa só gruta, separando-se em grutas diferentes, divergindo assim ao longo dos dias (para eles, anos) em tribos diferentes e inimigas porque competidoras pelos mesmos recursos?

Nessas circunstâncias, o que aconteceria a qualquer atividade que não tivesse como único objetivo a sobrevivência imediata? O que aconteceria, sobretudo, à ciência, à procura do conhecimento indispensável para vencer aquele terrível planeta e conseguir partir, regressar a um lugar onde, dizem as lendas, a vida não se escoa com a velocidade de um relâmpago?

É este o ambiente em que nasce Sim, um génio do seu povo, animado de intensa curiosidade e não menos intensa rebeldia, que o levam a fazer tudo o que pode para resolver o problema. É que uma nave está visível ao longe, a uma distância que todos lhe dizem ser inacessível antes de ficar ressequido pelo calor do dia ou congelado pelo frio da noite. Uma nave que é para ele um brilhante farol de esperança.

Esta é claramente, segundo muitas definições, uma história de ficção científica. Afinal, tem naves, passa-se num planeta distante, num ambiente estranho que coloca desafios à sobrevivência. Passa nas calmas a definição que uso para alimentar o Ficção Científica Literária. No entanto, viola de forma grosseira algumas leis muito básicas do universo, nomeadamente as que limitam a quantidade de crescimento e atividade possíveis a um sistema biológico num dado intervalo de tempo à quantidade de energia disponível para o alimentar nesse intervalo, e não se dá propriamente o caso de tais leis serem desconhecidas na época em que esta história foi escrita (a primeira publicação dá-se em 1946). Não passa na minha definição preferida de FC, que exige que as obras não violem grosseiramente os factos científicos conhecidos na época em que forem escritas.

Mas isso importa?

Nem por isso, não. Por mais inverosímil que seja em alguns dos seus aspetos, a história é eficaz na criação de um enorme sentido de urgência, no estabelecimento do ambiente, implacável e violento, e na criação da personalidade do protagonista. A narrativa talvez derive por vezes em excesso, e o final talvez tenha um certo sabor a deus ex-machina que fazem com que não estejamos perante uma das melhores obras do autor. Mas há muitos que nem a isto chegam, e no quesito inverosimilhança Bradbury é um menino quando comparado com autores pulp como Raymond ou Hamilton. Está vários degraus abaixo das melhores obras de Bradbury, entre o razoável mais e o bom, mas é leitura agradável e a qualidade da prosa é aquela a que o autor nos habituou.

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