quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Lido: Vivo

Para mim, tanto enquanto leitor como enquanto gajo que às vezes até vai escrevendo umas coisas, o ideal na literatura é encontrar um equilíbrio tão perfeito quanto possível entre história, ideias e técnica literária, a qual inclui quer a habilidade narrativa, quer a capacidade no manejo da língua. Esse equilíbrio depende até certo ponto da história que se quer contar (algumas exigem mais enredo, outras mais forma, entre outras subtilezas) e é sempre complicado de encontrar. Mas quando se encontra... ah, quando se encontra!...

E em Vivo, infelizmente, Ricardo Lopes Moura não encontrou. O enredo é interessante e tem pormenores de execução bem conseguidos: um misterioso estranho impede um assassínio a tiro numa rua de Lisboa, acabando ferido com gravidade. E como o auxílio ao próximo é doença contagiosa, uma jovem, que não o conhecia de lado nenhum, acaba por se ver compelida a ajudá-lo, o que a faz mergulhar num enredo complicado que começa pela recusa do homem em ser levado para o hospital. Ela leva-o para casa e de repente dá por si sozinha pois o homem desaparece. A rapariga podia ter  deixado as coisas assim, mas não consegue, pois o mistério do homem a fascina, pelo que vai à sua procura. E encontra-o.

A história, uma noveleta que está algures entre a fantasia urbana e o horror, é boa, há pormenores interessantes, a reviravolta final é excelente, mas... mas falta-lhe qualquer coisa. E essa qualquer coisa é qualidade no manejo da língua.

Quem costuma ler a Lâmpada decerto saberá que eu estou longe de ser a pessoa mais ligada à forma literária que se poderá encontrar por aí. Saberá que entre a forma e o conteúdo tendo a dar alguma preponderância ao conteúdo. Mas a verdade é que o texto de Lopes Moura é aqui demasiado frágil para o conteúdo deste conto, e estraga-o. Não por completo; a noveleta não é má. Mas é significativamente pior do que poderia ser com um texto mais competente. As ideias estão lá. A execução é que deixa a desejar.

Contos anteriores deste livro:

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