segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Lido: O Príncipe Sapo

É em contos como este O Príncipe Sapo que melhor se nota que esta recolha de contos populares de Adolfo Coelho é realmente uma recolha propriamente dita, não um objeto literário construído por ele com base em contos recolhidos junto do povo como acontece com a compilação dos Grimm. Lê-se este conto e como que se ouve o contador de histórias sentado à lareira, a trocar todos os vês que se encontrariam em texto escrito pelos bês característicos do seu dialeto, a salpicar a contação de regionalismos, de palavras e expressões que para ele eram naturalíssimas mas até Adolfo Coelho, ele próprio beirão, portanto bem mais próximo desses falares do que os verdadeiros meridionais como eu, sente a necessidade de as grafar a itálico. A história é básica e maravilhosa e eivada de sinais de catolicismo que provavelmente não existiam nela quando nasceu: um rei não tinha filhos e a mulher, desesperada, suplica a deus um filho, qualquer filho, nem que fosse um sapo. E deus concede-lhe o desejo com toda a crueldade do mundo: dá-lhe um filho sapo. Depois, a história mete uma moça contratada para cuidar do príncipe, o que mais tarde dá em casamento (tudo contado num ápice, com a história reduzida ao seu esqueleto), mas as coisas correm mal, há mais umas peripécias e umas crueldades até que por fim tudo acaba no típico viveram felizes para todo o sempre. Uma história de encantar de ascensão social com um certo fundo comum com a da Cinderela. Tivéssemos nós tido um Grimm, alguém dedicado a tornar as histórias do povo palatáveis para o delicado (coff coff) gosto das classes altas, talvez tivesse sido esta a história a tornar-se globalmente conhecida, e não a da Cinderela. Mas perderíamos sem dúvida em irreverência. Ou seja, olhem: antes assim.

Contos anteriores deste livro:

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