segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Ana Sequeiros: Lucubrações Acacianas

Gostaria de ter gostado deste conto. Há nele alguns detalhes que apertam os botões certos, uma vez que Ana Sequeiros se dedica a gozar, sem dó nem piedade, com um facho, daqueles que o são de forma inapelável e soberanamente estúpida, muito embora haja bons argumentos para defender que não há facho que não o seja. Lucubrações Acacianas tem este título porque o facho se chama Acácio e o conto se dedica a dissecar com todo o detalhe todas as teias de aranha que ele tem na cabeça. Este Acácio fará certamente lembrar alguém a todos os que conheçam um facho desta variedade miudinha e intelectualmente (e e provavelmente não só) impotente. A mim decerto que fez. Mais que um, até.

Com estes ingredientes, como não gostar, não é? Mas a verdade é que não gostei. Não desgostei, mas também não gostei. Porquê?

Basicamente pelo mesmo motivo por que não gostei por aí além de O Patriota Improvável da Maria de Menezes. É que, apesar de ideologicamente se situarem em pontas praticamente opostas, os dois contos têm muito em comum. A queda para a caricatura inconsequente, principalmente, na qual qualquer tentação de contar uma história é subalternizada àquilo que realmente move as respetivas autoras: a vontade de lançar um violento ataque (de riso, talvez) às personagens que as inspiram. São contos em que a tradição nacional das histórias curtas que praticamente se resumem a um retrato dos protagonistas é alterada daquela forma algo grotesca que é inerente à transformação do retrato em caricatura. E isso, se pode agradar a alguns leitores, a mim não agrada.

Eu, leitor, preciso das minhas caricaturas literárias com alguma história por trás, e discretas o suficiente para não ofuscarem essa história. Não foi o que encontrei aqui. É pena.

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