sábado, 3 de novembro de 2018

Lido: Pele de Escrava

Um dos motivos por que não sou grande apreciador de histórias de horror, e pouco importa se são literárias ou não, é parecer-me quase sempre que trazem em si muito de gratuito, que a ideia principal é gerar o choque pelo choque, sem grande substância por trás. Em parte isto deve-se ao meu racionalismo: não acreditando em nada de sobrenatural, e estando a maior parte do horror intimamente ligado a uma ou outra vertente do universo sobrenatural, sou em grande medida imune ao impacto emocional que estas histórias procuram gerar em quem as julga possíveis. Leio com prazer alguns autores e histórias, mas é geralmente uma leitura fria, na qual mais depressa capto os cordelinhos que o autor tece ao tentar manipular emocionalmente quem lê do que sinto alguma espécie de arrepio.

Mas há algumas histórias que, mesmo quando contêm esses mesmos elementos sobrenaturais que geralmente me deixam frio, trazem em si realidade suficiente para criarem impacto. E este Pele de Escrava, de Carina Portugal, é uma dessas histórias.

Julgo que este conto se poderia classificar como horror psicológico com elementos sobrenaturais. Fala de uma escrava, vítima de abusos continuados, sexuais e não só, por parte de um assassino em série, que antes dela já tinha feito numerosas outras vítimas, e tudo isto, toda a descrição dos abusos e da situação seria horror psicológico puro se não fosse um detalhe: as vítimas anteriores têm as almas aprisionadas dentro de um espelho, e vão ser essas almas a dar à protagonista a coragem necessária para se rebelar.

Este é um bom conto. Com os defeitos anteriormente apontados à escrita da autora muito atenuados, sem grandes fragilidades, sem grande coisa de aparentemente gratuito, com um bom ritmo, este Pele de Escrava estará mais ou menos a par de O Cais do Poeta como o melhor naco de prosa incluído neste livro até este ponto: está mais bem escrito mas tem uma história e estruturação um pouco piores.

Textos anteriores deste livro:

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