segunda-feira, 8 de julho de 2019

Catarina do Espírito Santo: Conto Bizantino

O lugar é Bizâncio, a cidade que provavelmente se chamaria oficialmente Constantinopla na época em que esta história decorre e muito mais tarde viria a tomar o nome de Istambul. O tempo é meados do século XV, às vésperas da queda perante a invasão otomana. O protagonista é um veneziano, ou pelo menos alguém que viveu em Veneza, e que se encontra na cidade com um objetivo bem definido: compilar todo o conhecimento humano.

Com esta base, Catarina do Espírito Santo desenvolve um conto inteligente, que até tem um levíssimo cheirinho a ficção científica (demasiado leve para que se possa sequer pensar em incluí-lo no género) por intermédio de uma rapariga veneziana que se corresponde com o protagonista e é por ele tratada como "a visionária". Porque o Conto Bizantino poderá ser bizantino, mas só marginalmente é sobre Bizâncio; trata-se, isso sim, de uma história cujo tema é algo muito contemporâneo: que efeitos tem sobre a sociedade a disponibilização livre e acessível de toda a informação do mundo?

A autora aborda a ideia de uma forma anacrónica, mas por isso mesmo francamente interessante. Sendo esse o projeto do seu protagonista, animado da ideia utópica de que o resultado só poderia ser o melhor possível, de que estando toda a informação disponível para todos a ignorância e os males que esta gera só poderiam desaparecer, Catrina do Espírito Santo arranja-lhe uma admiradora antagonista, cética relativamente à capacidade humana para absorver e realmente compreender toda essa informação. Para a gerir. O protagonista chama-lhe visionária porque ela lhe descreve o futuro que vê — o futuro em que nós vivemos —, um futuro em que as massas se mantêm tão irracionais e desinformadas como sempre, e em que os problemas se conservam, teimosos e resistentes.

Este, caros compinchas, é um conto muito bom. Não só é inteligente como ainda por cima está muito bem escrito.

Contos anteriores deste livro:

2 comentários: