domingo, 23 de junho de 2019

Claudia Brabetz Cameira: A Viagem da Giulia Tarossi

Há uma corrente de pensamento que defende que um escritor deve escrever sobre aquilo que conhece, e há quem retire daí a ideia de que a melhor escrita é autobiográfica. É a perspetiva umbiguista. Cá por mim, discordo. Mais que discordar, custa-me a perceber os mecanismos mentais que poderão levar alguém a achar a sua própria vida tão relevante que certamente irá despertar interesse suficiente nas pessoas para as levar a querer ler ficções autobiográficas (ou memórias, as quais são tendencialmente não ficcionais). Para mim, ficção interessante é sobretudo imaginação, empatia, procura do outro, mesmo reconhecendo como inevitável que os autores deixem parte de si em tudo o que escrevem.

E é precisamente isso o que Claudia Brabetz Cameira, italiana radicada em Portugal, faz neste A Viagem de Giulia Tarossi. O que significa que eu não gostei, certo?

Bem... não. Errado. Todas as regras têm as suas exceções, e gostei muito mais deste conto do que esperei gostar depois de perceber que ele era autobiográfico. Porque a autora usa o seu percurso de vida, usa a forma como abandonou o seu país de origem porque se apaixonou por outro, para refletir sobre isso mesmo, o modo como o lugar onde nascemos só nos define até certo ponto, como outros lugares podem acabar por ter mais a ver connosco, podem ressoar mais harmonicamente com o núcleo de quem somos.

E isso, numa época em que a xenofobia reergue a sua feia (e tão, tão estúpida) cabeça como há muito não se via, é de toda a relevância. E por isso, de baixo do umbiguismo característico das ficções autobiográficas, surgem nesta coisas absolutamente relevantes e universais. E além disso, o conto está bastante bem escrito, pesem embora uma ou duas frases um pouco estranhas, provavelmente resquícios do facto do português não ser a primeira língua da autora. Esta foi uma boa surpresa.

Conto anterior deste livro:

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