segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

João: Apocalipse

É uma forma curiosa de dar o pontapé de partida a uma antologia de contos fantásticos, esta. Apocalipse, neste contexto, é um conjunto razoavelmente extenso de excertos do texto bíblico do Apocalipse, escritos por um autor que assina apenas como João e selecionados pelas suas qualidades literárias, porque, à sua maneira, contam uma história, e não pelas conotações religiosas que poderão ter.

Na verdade, a Bíblia é há muito usada como inspiração para ficções dos mais variados estilos, abordagens e matizes, mas só muito raramente é analisada ela própria como uma obra de ficção. Em parte, suponho, por preconceito — muitos dos que o poderiam fazer ou são religiosos e tendem a encarar aprioristicamente aquelas histórias como sagradas, e portanto inerentemente não ficcionais, ou não o são e tendem a ignorar o texto bíblico como um mero texto religioso, logo com pouco ou nenhum interesse para estudos literários. Fazer o contrário não é inaudito, obviamente, mas também está longe de ser comum. E isso reflete-se na raridade de se encontrar trechos bíblicos, mais ou menos selecionados, em publicações de ficção fantástica.

Daí que quando se encontra um texto como este numa antologia como esta, a primeira reação será quase inevitavelmente de estranheza. Mas se aceitarmos a premissa do antologista e desfrutarmos da leitura como desfrutaríamos de qualquer outra obra de ficção, não é difícil chegarmos à conclusão de que pelo menos estes excertos do Apocalipse formam uma espécie de noveleta de ficção fantástica bastante boa, em especial se tivermos em conta há quanto tempo a obra foi produzida.

O problema é quando as pessoas, em vez de lerem esta história como a ficção que é, a aceitam como verdade literal e surge todo o tipo de seitas, cada uma mais destrambelhada que a outra, todas convencidas de que o fim do mundo está aí ao virar da esquina ou, bastante pior, decididas a fazer tudo o que lhes for possível para o anteciparem porque eles, obviamente, são os escolhidos, aqueles para os quais há sobrevida ao fim do mundo, cometam os crimes que cometerem, e os outros que se lixem. Isso é que estraga tudo. As milhares de vidas que se perderam e continuam a perder-se por haver quem não saiba ler ficção como ficção!

À conta desta história e do que os outros dela fizeram, este João, seja ele quem for (há debates quanto à sua verdadeira identidade) e tenha sido essa a sua intenção ou não, ficará na História da humanidade como um assassino em série. É um destino terrível para um ficcionista. Absolutamente terrível.

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