segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ângelo Brea: Doze Anos em Titã

Eu já andava com a impressão de que as influências e a abordagem do galego Ângelo Brea à FC tinham muito a ver com as de um autor português que li muito recentemente: António Bettencourt Viana. E ao ler esta noveleta, que apesar do título não é bem sobre Doze Anos em Titã, a impressão transformou-se em certeza.

Aqui se encontra a mesma pulsão pedagógica (pelo menos aparente), a mesma tendência para a explicação detalhada de fenómenos e ambientes, a mesma secundarização relativa da história face ao desenvolvimento do cenário. E o mesmo estilo despojado, direto, seco. Tudo isto são características que, dependendo das histórias e dos autores, tanto podem ser boas como más, mas aqui encontramos também alguns dos mesmos defeitos absolutos, como a queda no "como-sabes-Zé", aquelas explicações que as personagens dão umas às outras para benefício exclusivo do leitor, pois ambas têm a obrigação de estar ao corrente de todas as informações que transmitem.

Não sei quando Brea escreveu esta história, que o livro não o diz, mas desconfio que terá sido largos anos antes da sua inclusão neste volume. Parece-me a explicação mais plausível para tão grande classicismo de estilo, em especial quando conjugado com algumas fragilidades de monta na caracterização científica do ambiente. Um exemplo: a história passa-se em Titã, lua de Saturno que recebeu uma visita da sonda Huygens uma década antes do livro sair em 2014, ano que não está assim tão distante no passado. Já então se sabia com total certeza que é o gelo de água a fazer, à superfície de Titã, as vezes de rocha, e no entanto Brea cria uma base mineira superficial a sofrer com falta de água, a qual tem de ser trazida de algures em grandes naves cargueiras. E a base mineira produz metano, o qual é levado para a Terra por "metaneiros", naves equiparáveis aos navios petroleiros do mundo real, o que ignora por completo o efeito que o metano e a sua queima têm sobre o clima global (a queima de metano, CH4, produz dióxido de carbono... mais dióxido de carbono). E já nem falo da absurda economia de trazer naves tripuladas carregadas com uma substância que se pode produzir aqui mesmo com CO2 ou moléculas orgânicas variadas, água e alguma energia (solar, por exemplo... ou simplesmente deixando certas espécies bacterianas tratarem disso), desde a imensa distância de 9,5 unidades astronómicas, pois a subestimação das distâncias cósmicas é mato na FC.

Mas a construção do ambiente na base e as relações interpessoais (ou pessoal-robóticas) que Brea cria estão bem conseguidas, o que acaba por conferir algum interesse à noveleta. E podia ser bastante mais interessante se houvesse uma linha narrativa minimamente sólida. A história gira em volta do comandante da base, narrando o seu dia-a-dia num momento em que se confronta com uma série de questões que passam pela sua permanência em Titã durante mais algum tempo, o início da expansão da base, a gestão dos timings de pouso, estadia e descolagem dos vários metaneiros que procuram a base, e os problemas gerados pelas respetivas tripulações, mas é tudo pouco consistente. É um retrato, não propriamente uma história, o que reduz o interesse que a noveleta poderia ter.

Contos anteriores deste livro:

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