terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Flávio Moreira da Costa (org.): Os Melhores Contos Fantásticos (#leiturtugas)

Serão estes, realmente, Os Melhores Contos Fantásticos (bibliografia)? São-no, certamente, na opinião de Flávio Moreira da Costa, organizador desta antologia (a menos que tenha havido alguma questão com direitos, pelo menos no que toca às histórias mais modernas, que tenha levado à exclusão de uns e à inclusão de outros, o que desconheço). Mas serão mesmo "os melhores"? E o que significa realmente isso de "os melhores" contos fantásticos? Melhores em quê, ao certo?

Não sei. E consigo lembrar-me de contos de praticamente todos os autores aqui presentes e cuja bibliografia conheço de forma menos limitada que me parecem tão bons ou até melhores que os contos que aqui se apresentam. E também há uma panóplia de outros autores, especialmente entre os mais recentes, que me agradam mais do que vários dos que aqui aparecem, por razões objetivas e subjetivas. Mas lá está, nestas coisas há sempre uma componente de subjetividade, por mais que se tente ser objetivo; o que agrada a Fulano desagrada a Sicrano e nem sempre há grande diferença entre a bondade das razões de um e outro. Por isso, de resto, é que opiniões múltiplas e contraditórias são não só naturais como necessárias e até enriquecedoras, desde que os motivos para cada uma sejam bem explicados. E quanto ao que é influente, fator que também entra nestas contas, bem, depende de para onde se olha e como. Aqui não se encontra Dunsany, por exemplo, por mais que seja inegável a imensa influência que ele teve num vasto e muito bem sucedido género literário contemporâneo.

O que quero dizer com isto é que todas as escolhas, quando se compila um conjunto de "os melhores contos" seja do que for, são inerentemente discutíveis. Portanto nenhum desses conjuntos deve ser encarado como uma compilação definitiva. Nunca. Deve ser olhado como aquilo que é: uma opinião, individual ou coletiva, mais ou menos abalizada, entre muitas outras opiniões possíveis.

E há coisas na opinião do Flávio Moreira da Costa de que gostei particularmente. Gostei bastante, por exemplo, da ideia de lidar com textos antigos e sacralizados como as ficções fantásticas que são. Também gostei da preocupação em ser abrangente em vez de se cingir ao habitual eixo anglófono-francófono-germanófono de tantas compilações deste tipo, apesar de continuar aqui a haver algumas ausências gritantes: o continente africano, o médio oriente, etc. Mia Couto, no mínimo dos mínimos, mereceria figurar na secção lusófona, e Agualusa também, embora a sua exclusão se possa dever às mesmas razões que levaram à exclusão de muitos outros autores razoavelmente modernos, suponho.

Esta parte lusófona, de resto, é outra decisão editorial que me parece particularmente feliz. É demasiado frequente que as compilações dos "melhores contos" deste ou daquele género se limitem a material traduzido, esquecendo que a língua portuguesa também os produziu (e transmitindo a ideia de que o que existe não existe ou de que o que é nosso está sempre e inevitavelmente vários patamares abaixo do que vem de fora).

De resto, trata-se de uma compilação de textos clássicos, com tudo o que isso acarreta. Muitos destes contos são daqueles textos que surgem repetidamente em publicações antológicas, e o leitor experiente já terá, inevitavelmente, tomado contacto com muitos deles. O nível é seguramente alto, e inclui alguns contos extraordinários, ainda que nem todos me tenham convencido por inteiro, em boa parte, mas não exclusivamente, por questões de gosto literário.

Tudo somado, o resultado é um bom livro. Com os seus detalhes discutíveis? Certamente. Raros são os casos em que não existe nenhum detalhe discutível. Mas este livro é bom. Pessoalmente preferiria que me tivesse surpreendido mais, mostrando-me menos contos que já conhecia, mas como é evidente não posso culpar Moreira da Costa por aquilo que já li.

Eis o que achei de cada um dos textos deste livro:

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