segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Lídia Jorge: A Espuma da Tarde

Há um efeito curioso em alguns escritos de autoras como a Maria Ondina Braga, a Sophia de Mello Breyner Andresen e a Lídia Jorge, que conseguem incutir-lhes um certo ambiente onírico, um certo odor a fantástico, sem introduzirem no texto nada que possa realmente identificá-lo como texto onírico e/ou fantástico. Talvez seja de se servirem de um certo tom irreal, ou pelo menos de realidade vaga, que cai como uma espécie de bruma de sonho sobre histórias cujos enredos, personagens e até ambientações são basicamente realistas.

É isso o que acontece neste conto de Lídia Jorge, A Espuma da Tarde. Há qualquer coisa de francamente onírico nesta história que consiste numa discussão vagamente existencialista entre vários rapazes, um dos quais está imbuído de toda a mitologia e ideologia do fora-da-lei americano, apesar de todos serem portugueses e da história se passar à beira-mar, num bar da Costa da Caparica. A acompanhá-los, está uma rapariga, claramente atraída pelo perigo representado pelo "bad boy", cujas humidades íntimas vão avançando e recuando ao sabor das marés da conversa.

É esse fluxo e refluxo do desejo da moça, a qual como que corporiza a volúpia da violência, ainda que mais a idealizada que a real, que mais contribui para o tom onírico deste conto. Porque de resto, trata-se de uma daquelas histórias em que alguém conta uma história, tão frequentes na literatura. Aqui, quem conta a história é o bad boy, e a história que conta é uma cena policial na América, com ele próprio como protagonista desajeitado. No papel do criminoso, claro. Os outros, e em especial um deles, justificam a falta de jeito com características pouco abonatórias, e o bad boy vai-se exaltando cada vez mais, até que puxa por uma pistola. E depois, acontece o desfecho.

E é bom, o conto? Sim, creio que é. Está bastante bem escrito e há nele uma teatralidade e um artificialismo que me costumam desagradar profundamente mas que neste caso são fundamentais para o tom onírico de todo o conto e por isso não me desagradam por aí além. E a ironia fina que contém, pelo contrário, costuma agradar-me bastante e aqui não foi exceção, o que compensa.

Contos anteriores deste livro:

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