terça-feira, 19 de novembro de 2019

Ray Bradbury: O Pequeno Assassino

Diz-se muitas vezes que a ficção científica, ou mais propriamente a ficção especulativa em geral, é a literatura do "e se?" E se no futuro partilhássemos o mundo com androides, robôs ou extraterrestres? E se existissem fantasmas? E se os animais falassem? E essa é das coisas mais acertadas que se dizem sobre este tipo de literatura porque se é verdade que não é a única a conter esta pergunta (um enredo típico de telenovela, por exemplo, pode remontar à questão "e se a Maria se apaixonar pelo António, casado com a Ana?"), é aquela em que tal questão é mais central, porque determina em grande medida não só o enredo, mas as personagens e o ambiente.

Mas mesmo dentro da ficção especulativa, obras diferentes servem-se em grau diverso do "e se?". Algumas praticamente só têm essa questão e as ramificações que dela partem; outras contêm outras coisas. Os puristas da ficção especulativa tendem a considerar as primeiras melhores que as segundas, mas eu discordo: acho que há coisas boas e coisas más de ambos os lados. Mais: em algumas, essa questão é óbvia, noutras está mais oculta.

No caso deste O Pequeno Assassino, o "e se?" é bastante óbvio. Ray Bradbury deverá ter obtido de alguma forma informação sobre a depressão pós-parto e a subsequente rejeição dos filhos por parte de algumas mães, e terá feito a si próprio a pergunta "e se?" E se não fosse apenas depressão e paranoia? E se o bebé que a mãe rejeita fosse realmente demoníaco? E se tentasse matá-la? Mesmo matá-la?

E a partir daí desenvolveu um conto de terror psicológico (embora também tenha o seu quê de sobrenatural) bastante bom, ainda que pouco original no desenvolvimento do enredo, com a típica personagem paranoica que todos veem como louca mas que na realidade é quem se apercebe realmente da verdade e tenta sem sucesso convencer os outros da realidade. Há nesta história ecos d'O Papel de Parede Amarelo da Charlotte Perkins Gilman e de muitas outras histórias, mas Bradbury consegue mesmo assim torná-la bastante sua. Não só pela prosa, mas também pela prosa.

Contos anteriores deste livro:

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