domingo, 5 de janeiro de 2020

Leiturtugas da semana #48

Então bem-vindos a 2020... espera. Quê? Ainda há coisas de 2019 a falar? Oh pá. Vá, pronto.

OK, vejamos. Ah. Sim. Então isto nas Leiturtugas até ao lavar dos cestos foi vindima, e nos últimos dias do ano ainda apareceu mais uma opinião. Foi a Carla Ribeiro a encerrar a sua participação de 2019 e a cumprir os mínimos das Leiturtugas (depois de ter começado pelas leiturtuguinhas), falando de mais um livro de fantasia publicado pela Chiado: O Eleito da Luz, de Martinho da Rocha.

Pronto. Está? OK. Então vamos lá.

Então bem-vindos a 2020, e bem-vindos a mais um ano de Leiturtugas!

No ano passado, feitas as contas, acabámos por ter quatro participantes a não cumprir os objetivos. Dois deles nem chegaram a começar, e estão provisoriamente fora da lista que inicia o ano, porque vou partir do princípio de que não têm interesse em participar este ano. Se tiverem, basta avisar. Os outros são o Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction e o Ideias de Leitora. Quanto aos oito participantes restantes, cumpriram, e a maioria com grande folga.

Portanto a lista que inicia o ano é:

- A Lâmpada Mágica (Jorge Candeias);
- As Leituras do Corvo (Carla Ribeiro);
- Ideias de Leitora (Maria) - Leiturtuguinhas;- Intergalactic Robot (Artur Coelho);
- O Blog do Jauch (Eduardo Jauch);
- O Prazer das Coisas (Tita (Patrícia Rodrigues));
- O Senhor Luvas (Marco Lopes);
- Rascunhos (Cristina Alves);
- The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction (coletivo);
- Words à la Carte (Nights);

(Nota a mim próprio: não esquecer de atualizar a página do projeto)

E agora, NOVIDADES.

Estou a pensar fazer uns sorteios de livros portugueses pelos participantes. Ou por outra: vou fazer de certeza um; os outros dependerão da adesão de outras pessoas. No início de abril sortearei um exemplar do meu primeiro livro, Sally, entre quem estiver a participar na altura. Depois, a ver vamos. Se houver editoras e/ou autores interessados em participar em sorteios semelhantes, contactem-me. Parece-me que seria interessante termos um sorteio destes por semestre.

O sorteio será ponderado e não escolherá apenas um vencedor, mas terá como resultado uma lista ordenada de potenciais vencedores.

Explicando: cada participante terá a ponderação do número de meses de participação no projeto (quem estiver nas leiturtuguinhas conta por metade). Depois, será calculado um resultado segundo a fórmula:

nº meses * aleatório

Por fim, os participantes serão ordenados segundo o resultado, do mais elevado até ao mais baixo. Isto permite que os participantes mais antigos tenham vantagem (porque o nº de meses é maior) mas caso os números aleatórios (entre 0 e 1) que lhes calharem forem muito baixos e os dos participantes mais recentes forem bons, estes têm todas as hipótese de ganhar. Além disso, um vencedor pode recusar o prémio — se já tiver o livro, se não tiver interesse nele, etc. — e nesse caso transfere-se para o seguinte da lista, e desse para o seguinte e por aí fora.

Neste momento a ponderação da Lâmpada Mágica e do Intergalactic Robot é 13, do Words a la Carte é 9, do Ideias de Leitora 6, do Portuguese Portal 4 e a dos restantes é 12. Fiz agora um teste à coisa e deu a lista seguinte:

- O Prazer das Coisas (Tita (Patrícia Rodrigues)) - 11,15
- Rascunhos (Cristina Alves) - 8,92
- A Lâmpada Mágica (Jorge Candeias) - 8,18
- O Blog do Jauch (Eduardo Jauch) - 6,78
- Ideias de Leitora (Maria) - 4,87
- As Leituras do Corvo (Carla Ribeiro) - 4,86
- Intergalactic Robot (Artur Coelho) - 3,65
- O Senhor Luvas (Marco Lopes) - 3,35
- The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction (coletivo) - 1,89
- Words à la Carte (Nights) - 0,09

Ou seja: funciona. Se fosse a sério, o livro iria para a Tita, se ela não quisesse, para a Cristina, se ela não quisesse, para mim, eu não quereria de certeza portanto iria para o Jauch, e por aí fora. O Artur, que tem uma das ponderações mais elevadas, teve azar no número aleatório e ficou cá para baixo, portanto essa parte também funciona. No início de abril será a sério.

Pedro Maria d'Almeida: Maria da Porta

E de repente, um corpo estranho. Pedro Maria d'Almeida escreve muito melhor, mas muito melhor, do que a generalidade dos outros autores presentes neste livro. Não há aqui gafes, não há fragilidades, não há inconsistências entre a história que se quer contar e o espaço em que se quer contá-la... por outro lado também praticamente não há história.

Almeida não é ficcionista, é poeta. O seu interesse não reside em contar uma história, mas em brincar com as palavras. Está imbuído daquele conceito de literatura, tão caro a demasiada gente, que a vê pela metade, reduzindo-a ao mero artifício linguístico. E assim, este Maria da Porta (bibliografia) serve sobretudo para criar frases como «O tempo ia passando e o rio fluindo como a vida sem porta nem comporta, e não importa porque não importa a alquimia do jogo das palavras.» Tudo o resto é secundário ao ponto de se tornar irrelevante. E eu detesto esta abordagem à ficção.

Mas por outro lado, a média desta antologia é tão fraquinha que apesar do que ficou dito acima este conto que não é bem um conto é capaz de se contar entre os melhores.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 4 de janeiro de 2020

Neil Gaiman: Crupe dos Doenceiros

Falei aqui há muito pouco tempo do conto Crupe dos Doenceiros (bibliografia), de Neil Gaiman. Menos de um ano de separação entre leituras não é suficiente para ver as histórias com olhos substancialmente diferentes, ainda que uma história como esta, que vive muito do impacto da surpresa, perca sempre qualquer coisa quando essa surpresa já não existe, quando já sabemos o que vamos encontrar. Mas a admiração pela perícia literária que fazer algo como isto exige continua toda lá. É mesmo um conto excelente, como dizia em abril último.

Textos anteriores deste livro:

Escrita de dezembro e de 2019


Em dezembro de 2018 resolvi fazer uma experiência: e se em vez de só escrever ficção quando tivesse algum tempo disponível e estivesse mentalmente repousado, que era o meu hábito e nos últimos anos vinha significando que quase nunca escrevia uma linha, eu passasse a enfiar uns 10 ou 15 minutos de ficção nas pausas que faço sempre nos trabalhos mais intensos e financeiramente recompensadores que me sustentam? Nesse mês, escrevi 2200 palavras, o equivalente a cerca de 7 páginas. Pouco, mas muito mais que em qualquer outro mês desde 2013. Um ano depois, em dezembro de 2019, escrevi quase 8800. Continua a não ser muito, e é menos que noutros meses, mas estas coisas somam-se...

... e como estas coisas se somam, acabei o ano de 2019 com um pouco mais de 79100 palavras de ficção escritas. Quase 230 páginas. Um livro, basicamente. Incluem-se nesse número cinco contos, uns mais extensos, outros mais curtos, mas não é a eles que cabe a parte de leão da produção.

Em 2012 comecei a escrever uma história. A princípio queria que se ficasse por noveleta, porque a ideia era apresentá-la a uma antologia de uma série que já levava duas publicadas, tendo eu participado em ambas com outras histórias integradas no mesmo universo ficcional, mas depressa se tornou claro que aquela história estava a tomar uma forma mais extensa (e não muito adequada ao tema da antologia, ainda por cima). Desisti da participação na antologia e continuei a escrever... mas por pouco tempo. Cheguei a cerca de 13 mil palavras, ainda no território da noveleta, e abandonei-a.

Na verdade, deixei de escrever quase por completo.

Foi nessa história que peguei em dezembro de 2018.

E foi essa história que finalmente acabei um ano depois, em dezembro de 2019.

Sim, o romance está terminado. Ou pelo menos o primeiro rascunho do romance está terminado. Tem cerca de 84 mil palavras, o que dá umas 250 páginas, mais coisa, menos coisa, e já vai a caminho da gaveta, onde terá de marinar durante algum tempo. Não muito tempo, porque só me conseguirei livrar daquela história quando a tiver contada a meu gosto — ainda continuo a dar voltas mentais à história mesmo depois de acabar o rascunho —, mas algum. Entretanto...

Entretanto hei de ir escrevendo outras coisas. Ainda não sei ao certo quais. No fim de janeiro cá estarei para dizer qualquer coisa sobre elas. Até lá.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Carla Ribeiro: Para Longe do Céu

Mais um conto de fundo cristão, ainda que talvez algo blasfemo, este Para Longe do Céu (bibliografia) passa-se no inferno e tem por tema a relação entre Deus e o Diabo. O pretexto para essa troca de ideias teológicas com o leitor é uma conversa ente o Diabo e um poeta daqueles bem soturnos, que vai parar ao inferno e se apresenta ao "mestre".

Este conto, todo ele muito gótico, é bastante melhor que a média desta antologia — pelo menos até onde ela está lida. Para começar, o texto em si, não sendo nada de extraordinário, é de uma qualidade significativamente superior à de muitos outros. Não há aqui erros de palmatória nem nenhuma sucessão de gralhas. E o conto está bem construído, não parecendo nem desconexo nem apressado.

É bom, então? Não, não creio que chegue a tanto. Mas está lá quase.

Textos anteriores deste livro:

Franz Kafka: Investigações de um Cão

Vê-se um título como Investigações de um Cão, especialmente se o virmos escrito por um autor como Franz Kafka, e fica-se imediatamente curioso com a abordagem e a história a que tal título levarão. Depois, começa-se a ler o texto propriamente dito e rapidamente a curiosidade dá lugar à confusão. É que há aqui coisas que não parecem bater certo, mesmo no contexto de uma história kafkiana.

O texto é um longo fluxo de consciência de um cão com queda para a filosofia e para as ideias abstratas. Talvez demasiado abstratas, pois não parece dar-se conta de que no seu mundo, que aparentemente é o nosso, existem uns símios grandes e ruidosos chamados seres humanos, e por isso se dedica a investigar mistérios transcendentes como por que motivo a comida parece ao mesmo tempo brotar do chão e cair do céu. Vinda aparentemente do nada.

Esta ausência humana causa alguma confusão até que se percebe que sim, os cães desta história estão mesmo inconscientes da nossa existência, o que é algo que está absolutamente à revelia da verdadeira natureza dos cães, basicamente lobos que aprenderam a descodificar as pistas sociais que nós fornecemos. Mas a fonte principal de confusão foi, parece-me, outra. Foi tentar decidir se esta história é uma sátira, um texto de humor, um divertimento, ou foi escrita para ser levada a sério.

Alinho mais pela primeira hipótese, mas sem desprezar a segunda. Ao colocar o seu cão filósofo a escrever, e com um ponto cego tão fulcral como o que apresenta, Kafka, parece-me, está acima de tudo a fazer uma longa troça com um certo tipo de intelectual (humano, não propriamente canino) que, na sua sisudez, na sua auto-importância, deixa passar coisas básicas que qualquer pessoa compreende. Está a gozar com torres de cristal. Está, talvez, a divertir-se à custa das filosofias vãs de tanta gente. Mas ao mesmo tempo está a fazer um comentário bastante sério sobre as nossas limitações e a relação que estabelecemos com elas (ou não), aceitando-as e tomando-as em conta (ou ignorando-as, fingindo que não existem).

E é boa, a história? É, mas não é para toda a gente. Quem goste de fluxos de consciência, de textos introspetivos, filosóficos, ou de humor ou ironia subtil, encontrará aqui um acepipe. Quem prefira ação é melhor que passe adiante, porque se há coisa que aqui praticamente não existe é ação. Eu estou algures no meio: prefiro a ação à introspeção, mas também me pelo por um bom texto irónico. E este está bastante bem escrito, portanto até gostei. Não é dos melhores textos de Kafka, mas é interessante.

Contos anteriores deste livro:

Shinichi Hoshi: Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora!

O japonês Shinichi Hoshi é bem capaz de ser responsável, pelo menos parcialmente, pelo título mais bizarro de uma história de ficção científica já publicada em português, seja original lusófono, seja tradução como no caso. Se conhecerem um título mais esquisito que Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora! (bibliografia), sou todo ouvidos.

O conto, curto, é daquelas FCs topológicas, em que uma descontinuidade qualquer do espaçotempo gera efeitos bizarros. E é uma FC tão soft que pode ser vista como um exercício de realismo mágico ou fantasia, talvez até com mais propriedade do que como FC. Conta a história de um buraco aparentemente sem fundo que um belo dia se descobre numa terra no Japão. A descoberta atrai a ciência, claro, mas depressa os cientistas ficam frustrados por não haver realmente nada que se consiga estudar. Como estudar um buraco sem fundo?

Impossível. Portanto, vão-se embora, deixando o buraco e a terra onde o buraco foi descoberto um tanto ou quanto órfãos de atenção e utilidade. Bem... utilidade até existe. Um buraco sem fundo é ótimo para atirar lá para dentro as coisas que ninguém quer, não é? Pois. Portanto, toca a despejar. Mas eis que as coisas dão uma reviravolta daquelas boas. No fim, obviamente.

É um conto engraçado, este. E bom, ainda que seja mais engraçado que bom.

Contos anteriores desta publicação:

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Maria Manuel Lopes: Pedras da Lua

É curioso como quando lemos publicações de contos de diversos autores as expetativas com que encaramos as histórias mais avançadas no decorrer do volume são afetadas pelas histórias que ficaram para trás. Curioso e natural. Mas pode pregar algumas partidas. Se, por exemplo, as expetativas com que se começa a ler um volume são elevadas e os primeiros contos se revelam maus, se calhar acabamos a avaliar melhor um conto razoável que nos surja a meio do que um conto igualmente razoável que apareça no princípio.

Maria Manuel Mateus Marques Claro Lopes (não faz por menos, seis nomes!) escreveu um conto razoável. Pedras da Lua (bibliografia), como de resto o título já começa a sugerir, é uma fantasia urbana movida a ciúme, traição e paranormalidade, escrita de uma forma algo frágil mas nem por sombras tão má como alguns dos contos que ficaram para trás. A situação, uma mulher desconfiada de que está a ser traída que procura a ajuda de uma astróloga para perceber se aquilo de que desconfia é real, é um chavão antigo, a verdade que se revela é um chavão ainda mais antigo e previsível desde o terceiro parágrafo, mas a história está razoavelmente bem contada e o português não sai propriamente maltratado da empreitada.

Textos anteriores deste livro:

Ana Paula Maia: A Pequena Fábrica de Sabão Artesanal do Senhor Chong

Para uma antologia que gira em volta do tema "cadeiras", o conto que a brasileira Ana Paula Maia apresenta tem pouco a ver com o tema. A Pequena Fábrica de Sabão Artesanal do Senhor Chong é uma história sobre um trabalhador, supõe-se que brasileiro, que se sente preso e infeliz no emprego que tem, a fazer sabão numa cave de um prédio, algures numa cidade brasileira, rodeado de chineses e coreanos, e dá voltas à cabeça para ver se consegue arranjar alguma maneira de se libertar daquilo.

A cadeira aparece apenas porque é a cadeira em que ele se empoleira para trabalhar, e que decide levar consigo quando é demitido do emprego, o que o leva a ser perseguido. Um adereço, nada mais. O resto é um relato de raiva surda e francamente racista (resta saber se o racismo é da autora, da personagem ou de ambos), com uma alusão a sexo com uma travesti, também ela asiática, que parece um bom bocado gratuita, servindo apenas para sublinhar a degradação pessoal do protagonista. Tudo somado, não foi conto que me tivesse agradado. Está escrito com competência, mas pouco mais de bom tenho a dizer sobre ele.

Conto anterior deste livro:

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Ray Bradbury: O Homem do Segundo Andar

Hoje em dia grita-se "plágio!" por tudo e por nada, ignorando-se com demasiada frequência que o conceito de plágio não se aplica a ideias mas sim à sua concretização. Não é plágio escrever uma história baseada num bruxo de óculos e com uma cicatriz na testa ou em elfos de orelhas pontiagudas, embora possa ser cliché e coisa derivativa e provavelmente pouco interessante; o que é plágio é repetir enredos, copiar excertos, usar as mesmas palavras, ou palavras muito semelhantes, para dizer as mesmas coisas. Por isso, se John Carpenter tivesse posto cá fora o filme They Live recentemente e não em 1988 provavelmente teria havido uma daquelas polémicas muito parvas e muito indignadas com acusações de plágio à mistura. É que o filme, que adapta um conto de Ray Nelson (Eight o'Clock in the Morning) de 1963, tem um detalhe fulcral de enredo que já tinha sido usado por Ray Bradbury neste conto. E O Homem do Segundo Andar (bibliografia) data de 1947.

Esse detalhe fulcral de enredo, e que me desculpem se acharem que o que se segue é spoiler, é o uso de uma superfície de material translúcido mas colorido para desvendar a verdadeira natureza de criaturas que de outra forma pareceriam inteiramente humanas. No filme de Carpenter, de ficção científica, essa superfície são uns óculos escuros cheios de estilo e as criaturas são invasores alienígenas; no conto de Bradbury, de horror, a superfície é um vitral e a criatura é um vampiro.

O protagonista é um miúdo, cujos pais gerem uma hospedaria, e que tem fascínio pelas vísceras, de ver a avó a preparar animais para cozinhar e faz, como qualquer miúdo curioso, o paralelismo entre os ossos e órgãos de uma galinha e os ossos e órgãos que sabe existirem dentro de si. E das outras pessoas. A história arranca no dia em que à hospedaria chega um homem com exigências estranhas, que aluga um quarto, e cujas exigências vão limitar a vida do miúdo, o que o leva a antipatizar intensamente com ele. O homem trabalha à noite e tem de dormir durante o dia, portanto não pode haver barulho. Ai o caraças, pá, já um miúdo não pode brincar?

E quando calha a espreitá-lo por uma janela de vidros coloridos que existe na casa e vê a sua verdadeira natureza, as coisas mudam de figura. Tornam-se perigosas. Mas o miúdo aprendeu algumas coisas com a avó, e o desfecho acontece. Bem. Este conto é muito bom, um daqueles contos de Bradbury que têm o ritmo certo, as personagens certas, o enredo certo e a forma de escrever certa para ficar na memória.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Fernando de Sousa Pereira: Na Terra Desaparecida

Existe em muita gente, e provavelmente também em muitos autores, a ideia de que literatura fantástica equivale a literatura infantil, ou no máximo juvenil, a formas imaturas de contar histórias a que pessoas sérias e adultas não devem dar qualquer importância. É um disparate, claro, pois a abordagem fantástica tanto serve para contar histórias a crianças como a analisar profundamente tendências e fenómenos do mundo adulto, mas o preconceito existe. Por isso, é com alguma surpresa que constato que são poucas as histórias decididamente infantis que se podem encontrar nesta antologia, ou pelo menos da sua primeira parte. Na Terra Desaparecida (bibliografia) é uma dessas histórias.

O conto pertence àquele subgénero da fantasia a que se dá o nome de maravilhoso. Fernando de Sousa Pereira tem piada a dar nomes às suas personagens e territórios e constrói uma história em que um grupo de criaturas se vê forçada a fazer de cupido porque a última fada da Terra Desaparecida (chamada Solstícia) se foi embora com medo de um monstro que acabou por não aparecer, deixando-a mergulhada na escuridão porque precisa de amor. E claro que conseguem, ou não fosse a história infantil, e o seu amante platónico, um gigante chamado Troféu que ainda por cima é poeta, deixa de ser platónico. E viveram felizes para sempre.

É um continho simpático e bem intencionado, este, e razoavelmente bem escrito. Muito melhor que outros contos deste livro, ainda que esteja nele algo deslocado. Não por não ser fantástico, que é, mas porque o seu público-alvo dificilmente pegará nele para o ler, pois a maioria dos outros contos não são para crianças.

Textos anteriores deste livro:

Maria Velho da Costa: Ó da Barca!

Como que para ilustrar o que disse quando falei de Alma, segue-se imediatamente na sequência desta antologia um excerto de romance que decididamente não funciona de todo como conto. Em parte, suponho, isso deve-se à forma de escrever adotada por Maria Velho da Costa, uma escrita algo saramaguiana na ausência de sinais identificativos de discurso direto, mas bastante mais intensa no uso que faz da linguagem popular do que qualquer coisa que Saramago tenha escrito. É também possível que o romance de Maria Velho da Costa de onde este Ó da Barca! é extraído (Casas Pardas) seja todo ele assim, um conjunto episódico de retalhos, sem um fio condutor óbvio, o qual só acabará possivelmente por ficar claro com o decorrer da narrativa, um pouco como quem pinta um quadro impressionista. Certo é que este texto assim isolado simplesmente não funciona.

Mas funcionará como chamariz para o romance? Provavelmente funcionará para alguns leitores, sim. Maria Velho da Costa escreve muitíssimo bem, especialmente — pelo menos aqui — na forma como integra literariamente os oralismos, e há neste excerto um experimentalismo que sugere que todo o romance seja igualmente experimental. Isso deve ser o bastante para muita gente. Para mim não foi. Apesar de ter lido o excerto com agrado, ele não me deixou curioso o suficiente para ir à procura do resto. É interessante, mas não me puxa muito.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

João: Apocalipse

É uma forma curiosa de dar o pontapé de partida a uma antologia de contos fantásticos, esta. Apocalipse, neste contexto, é um conjunto razoavelmente extenso de excertos do texto bíblico do Apocalipse, escritos por um autor que assina apenas como João e selecionados pelas suas qualidades literárias, porque, à sua maneira, contam uma história, e não pelas conotações religiosas que poderão ter.

Na verdade, a Bíblia é há muito usada como inspiração para ficções dos mais variados estilos, abordagens e matizes, mas só muito raramente é analisada ela própria como uma obra de ficção. Em parte, suponho, por preconceito — muitos dos que o poderiam fazer ou são religiosos e tendem a encarar aprioristicamente aquelas histórias como sagradas, e portanto inerentemente não ficcionais, ou não o são e tendem a ignorar o texto bíblico como um mero texto religioso, logo com pouco ou nenhum interesse para estudos literários. Fazer o contrário não é inaudito, obviamente, mas também está longe de ser comum. E isso reflete-se na raridade de se encontrar trechos bíblicos, mais ou menos selecionados, em publicações de ficção fantástica.

Daí que quando se encontra um texto como este numa antologia como esta, a primeira reação será quase inevitavelmente de estranheza. Mas se aceitarmos a premissa do antologista e desfrutarmos da leitura como desfrutaríamos de qualquer outra obra de ficção, não é difícil chegarmos à conclusão de que pelo menos estes excertos do Apocalipse formam uma espécie de noveleta de ficção fantástica bastante boa, em especial se tivermos em conta há quanto tempo a obra foi produzida.

O problema é quando as pessoas, em vez de lerem esta história como a ficção que é, a aceitam como verdade literal e surge todo o tipo de seitas, cada uma mais destrambelhada que a outra, todas convencidas de que o fim do mundo está aí ao virar da esquina ou, bastante pior, decididas a fazer tudo o que lhes for possível para o anteciparem porque eles, obviamente, são os escolhidos, aqueles para os quais há sobrevida ao fim do mundo, cometam os crimes que cometerem, e os outros que se lixem. Isso é que estraga tudo. As milhares de vidas que se perderam e continuam a perder-se por haver quem não saiba ler ficção como ficção!

À conta desta história e do que os outros dela fizeram, este João, seja ele quem for (há debates quanto à sua verdadeira identidade) e tenha sido essa a sua intenção ou não, ficará na História da humanidade como um assassino em série. É um destino terrível para um ficcionista. Absolutamente terrível.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Leiturtugas da semana #47

Eis que a última semana do ano (completa; ainda sobram uns dias) foi muito movimentada no capítulo Leiturtugas e começou, como tem sido frequente nos últimos tempos, com o Artur Coelho e mais uma das suas opiniões sobre BD, resumidas no seu blogue e mais desenvolvidas noutro sítio. Desta vez fala sobre uma pequena revista de banda desenhada com título em inglês: Beep Boop: Monster Hunters #01. O autor é Daniel Lopes e foi publicada pela Gorila Sentado.

Depois fui eu, Jorge Candeias, a publicar mais uma opinião leiturtuga, desta vez a um continho fantástico e bem-humorado do João Ventura, intitulado O Teclado Paranóico e publicado em PDF pelas Brigadas FC na pré-história da publicação de ebooks de género em Portugal.

Quase ao mesmo tempo, a Carla Ribeiro publicava mais uma das suas opiniões de fim de ano, tendo desta vez como alvo O Dia da Tempestade de Afonso Azevedo, primeiro volume de uma série de fantasia, publicado pela Chiado. Esta opinião não tem FC, pelo que a Carla sobe a 6c4s.

De seguida, foi a Cristina Alves a surgir com mais uma opinião sobre uma das coletâneas de contos de António Bizarro publicadas pela Coolbooks. O livro lido desta vez foi O Longo Caminho de Regresso.

Por fim, já mesmo a fechar o pano da semana, a Carla Ribeiro voltou com mais uma opinião sobre outro livro de fantasia, também publicado pela Chiado. Intitula-se Espada que Sangra, também é o primeiro volume de uma série, e foi escrito pelo Nuno Ferreira. E a Carla sobe a 6c5s e só lhe falta uma opinião para cumprir os objetivos das Leiturtugas.

Para a semana teremos o encerramento do ano e a abertura do novo ano. Não se esqueçam: eu vou partir do princípio de que quem participou vai continuar a participar (e na mesma categoria, leiturtugas ou leiturtuguinhas). Se não for o caso, peço que me avisem.

E convido desde já todos os outros leitores de FC e fantástico português a juntarem-se também à malta. Como veem, isto não é nada difícil de realizar.

Diana Pereira: Em Busca da Felicidade

Era de esperar, mas é na mesma digno de menção: está a ficar claro que a fantasia domina por completo as ficções presentes neste livro. E este conto de mais um nome completo, Diana Rute Cardoso Pereira, é um conto de fantasia. Mais um.

«Surge pela parda encosta, o olhar da enigmática criatura» é como começa este Em Busca da Felicidade (bibliografia), e não desmente o que vem a seguir: um texto demasiado adjetivado, com pretensões a ser muito mais do que é, e muito, muito cliché, cheio dos chavões das fantasias derivadas de Tolkien. Um grupo heterogéneo parte numa demanda; tem de encontrar um mago para devolver a felicidade a um país mergulhado em trevas mágicas. E encontra e devolve, num enredo fraquinho, com uma escrita fraquinha e uma história sem grande interesse. Há neste livro histórias piores, até há estórias muito piores, mas mesmo assim esta deixa bastante a desejar.

Textos anteriores deste livro:

Rhys Hughes: Cronochoque do Século XX

Já se tinha percebido que diferentes autores tinham abordado a proposta desta antologia de formas muito diferentes, com a seriedade clínica de alguns a levá-la mais para o lado dos pseudofactuais borgesianos, e a ironia de outros (apesar de Borges não ser de todo alheio à ironia, sublinhe-se) a trazê-la mais claramente para o lado do humor, umas vezes a atirar para o surrealista, de outras vezes a pender mais para o horror ou até a ficção científica. Rhys Hughes é surrealismo praticamente puro.

Cronochoque do Século XX (bibliografia), a doença que ele apresenta, é uma alergia. Peculiar, como todas as doenças aqui apresentadas. É uma alergia a um ano do século XX, a um período do século XX ou ao século XX como um todo, apresentando sintomas típicos das alergias. Hughes, longe, muito longe do sisudismo pelo menos aparente de outros autores, serve-se de trocadilhos e jogos de palavras e de uma informalidade que pode parecer algo deslocada, mas que a edição portuguesa resolve particularmente bem, com uma "nota do dr. Calamar Trindade" (o equivalente português do Thackery T. Lambshead, como se verá adiante) a... bem, a desancá-lo.

Este não é dos textos mais impressionantes que se poderão encontrar aqui, mas é divertido, o que no fundo é precisamente o que pretende ser.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O Gerson leu o "Embaixadores"

Como sabe quem olhar para a notazinha de copyright aqui na Lâmpada, ao topo e à esquerda de cada página, eu ando nestas coisas dos blogues desde 2003. Há uma porrada de anos, portanto. Nesse interim, fui criando blogues, sobre isto e sobre aquilo, com os objetivos mais diversos, e a maioria acabou abandonada ou semiabandonada. Um dos blogues que hoje em dia estão semiabandonados é aquele onde fiz a publicação inicial do meu primeiro romance, Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, e que hoje serve basicamente como sítio de divulgação da sua edição revista em papel. Ora, como não o divulgo muito, raramente alguém lá vai — no último ano houve 449 visitas, o que é o que nos dias que correm a Lâmpada recebe em dois dias... ou às vezes em um — e como raramente alguém lá vai nunca ninguém lá comenta... e como nunca ninguém lá comenta, eu só muuuuuito de onde em onde vou ver como param as modas por lá.

E foi esse o motivo de só agora ter dado por o Gerson Lodi-Ribeiro lá ter deixado um comentário... a 22 de maio último.

O Gerson gosta de me oferecer os seus livros. Sempre que publica um, lá vem um pacote Atlântico acima com um livrinho dentro, e às vezes com dois. Tenho vindo a lê-los, como quem acompanha a Lâmpada tem reparado, mas ele teve uma fase em que publicou bastantes, e ainda cá está um numa das pilhas. Lá chegaremos, mais tarde ou mais cedo. Mas claro que quando publiquei o Embaixadores em papel tive de retribuir, e lá foi um pacotinho com livro dentro, desta vez Atlântico abaixo. O livro é de 2013. Isto é, o livro é de 2008, mas só saiu em papel em 2013. Não me lembro se lho enviei logo nesse ano ou no seguinte, mas foi por aí.

E enviei-lhe o livro com uma dedicatória, onde expressava a dúvida sobre se a sátira que o livro contém, de olhos muito postos na política e nos políticos portugueses, funcionaria ou seria compreendida por um brasileiro, que em princípio não os conhece (e felizmente para ele, tantas vezes).

Agora ou, melhor dizendo, há mais de meio ano, o Gerson leu-o, e eis explicado o tal comentário. Suponho que ele não se importe que o transcreva para aqui:
Li o livro, afinal. Desculpe a demora. Hilário e, ao contrário do que temeste em tua dedicatória, plenamente compreensível aos leitores brazucas, exceto, talvez, quanto às "supostas" semelhanças entre personagens literários e figuras políticas de Portugal.

Além disso, encontrei alguns paralelos notáveis (ou nem tanto), com figuraças da política brasileira atual, mais de uma década após a gênese do livro, o que prova que algumas coisas não mudam...

Parabéns!
Gerson.
É o que eu digo: um só povo com um oceano no meio. Para o bem e para o mal.

Obrigado, pá.

E os Estranhos não estão esquecidos no Paraíso. Hei de resgatá-los, mais cedo que tarde.


Ray Bradbury: O Vento

É um cliché do género, bem sei, mas é eficaz. E é por isso, desconfio, que já não é a primeira vez neste livro que surge um conto de terror em que o envolvido tenta fazer os demais acreditar em algo de terrível que está prestes a acontecer, ou já aconteceu e pode acontecer de novo, e ninguém acredita nele. Esta é ideia tão comum no terror que tem milhares de variações, e aqui Ray Bradbury apresenta várias. No caso de O Vento (bibliografia), estamos perante uma história de terror sobrenatural centrada num vento maligno.

Uma das características deste conto que mais me agradaram é mostrar uma certa indefinição quanto a quem é o protagonista. A narração segue uma pessoa, um tal Herb Thompson; é ele, o que faz e o que pensa que funciona como fio narrativo, o que na esmagadora maioria dos contos o transformaria automaticamente em protagonista. Mas não é a ele que as coisas acontecem; é a um seu amigo, que lhe telefona, assustado, e já não pela primeira vez, convicto de que o vento o vai apanhar.

E é esse amigo que depara com a incompreensão e ceticismo dos demais. Não tanto do amigo, que tende a crer nele, pelo menos até certo ponto, mas da mulher deste, que acha o homem doido varrido e encara com severidade todas as tentativas ou até ideias do marido para ajudar o amigo. Como é de norma em histórias destas, no fim quem tem razão é o "maluco". E a história termina em tragédia e ameaça.

Não trazendo grande novidade, este é dos tais contos de Bradbury que estão muito bem construídos e bastante bem escritos.

Contos anteriores deste livro:

Sónia de Carvalho: A Velha Senhora

Sabem, como é, quando os, tipos que, escrevem coisas, acham, boa ideia, distribuir vírgulas a, esmo e sem pés, nem, cabeça? Pois Sónia de Carvalho é assim. Duvidam? OK. Então tomem lá uma citação, o segundo parágrafo de A Velha Senhora (bibliografia), e só não uso o primeiro porque é um parágrafo de cinco palavras, que não dá muito para fazer coisas destas.
A porta ficava à face da rua mas, o acesso à casa, propriamente dita, fazia-se, subindo um lanço grande de escadas.
Ora, a vírgula é uma sinalefa que serve, entre outras coisas, para tornar o texto compreensível. Quando mal utilizada, e Sónia de Carvalho utiliza-a pessimamente, pode deixar a compreensão difícil ou mesmo impossível. Consequência? Um conto assim escrito torna-se automaticamente mau. Não há características redentoras que lhe valham.

E este até teria algumas. É um conto de fantasmas razoavelmente bem construído, sobre uma mulher jovem que vai para Lisboa trabalhar e se hospeda em casa da velha senhora do título, onde depressa começa a ver coisas estranhas. Escrito capazmente, e editado por uma editora a sério capaz de lhe dar uma revisão decente, podia ser um conto interessante. Assim... assim é apenas o que é.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Abraão Vicente: Moxim

Uma das características básicas das fábulas é a antropomorfização dos animais, mas nem só de animais vivem as fábulas e nem só de fábulas vive a antropomorfização. Não só existem fábulas, e histórias populares em geral, em que o que é antropomorfizado são objetos inanimados, como esta tendência para atribuir a objetos inanimados ideias, motivações e linguagem humanas vai muito para além das fábulas, encontrando-se em todas as vertentes das literaturas do imaginário, e sim, isto inclui a ficção científica; o género está cheio de coisas robotizadas, muitas das quais conversam com gente e/ou entre si.

Pois aqui, neste conto de Abraão Vicente, autor caboverdiano que é a primeira vez que me passa pelos olhos, o objeto inanimado que é antropomorfizado é uma cadeira, como de resto seria de esperar a partir do momento em que se sabe que o tema desta antologia é precisamente esse: cadeiras. E esta até tem nome: Moxim, precisamente.

É um conto literário até ao cúmulo, com o que isso tem de bom — está bastante bem escrito, na perspetiva estrita do domínio da língua — mas também com o que tem de mau. O tema básico, além da superficialidade da cadeira, é a forma como descartamos (ou não) aquilo que nos foi útil, aquilo que talvez até tenhamos amado, de certa forma, mas chegou a um limite qualquer em que se transforma em transtorno. Para o fazer, Vicente dá sentimentos à sua cadeira, e por extensão às coisas que tendemos a descartar, e dá-lhe também o dom da palavra, pondo o conto inteiro na sua consciência. É a cadeira a narradora, é a perspetiva da cadeira que é apresentada. É giro? É giro. Mas...

... mas Vicente parece ter mais desejo de ser poeta do que ficcionista. Talvez por isso tenha enchido o conto com uma tão omnipresente camada de frases e ideias repetidas que ele se torna muito depressa cansativo. À quinta repetição, o leitor já está mais a pensar "sim, pá, já percebi" do que na questão que o autor quer colocar. À décima está a folhear o livro para ver quantas páginas faltam, enquanto pensa "mas isto nunca mais acaba?"

Acaba. São 14 páginas. Mas poderiam perfeitamente ser só umas 7. O conto ficaria melhor, parece-me. Ficaria realmente bom. Assim, é sobretudo chato.

João Ventura: O Teclado Paranóico (#leiturtugas)

Parece que já foi no tempo em que os animais falavam. Mas houve uma altura em que se começava por aí a fazer ebooks, quase sempre sem se ter ideia alguma do que se estava realmente a fazer (culpado!), e quase invariavelmente em PDF (culpado!). Não através de programas especificamente criados para produzir PDFs, que sempre foram caros até começarem a aparecer os gratuitos, mas usando o word e conversores (culpado!).

Pois este continho de João Ventura é desse tempo, tendo sido publicado por um site/fórum há muito desaparecido, o Brigadas FC, em 2005. O Teclado Paranóico é basicamente uma vinheta de duas páginas, apesar do PDF ter três e de parecer só conter verdadeiramente uma. Confusos? Bem, é que uma das páginas do PDF é este arremedo de capa que aqui veem ao lado, a terceira contém apenas uma nota de copyright e a página de texto está formatada "à word", sem levar grandemente em consideração a facilidade da leitura, que a malta daqueles tempos produzia PDFs, basicamente, para imprimir, não para ler em écran. Devidamente paginado, o texto ocuparia provavelmente duas páginas incompletas.

Mas a prosa do João compensa largamente a fraca edição. Este é um conto "à João Ventura", com aquele humor e aquele brincar com as palavras que lhe são característicos. Trata-se, basicamente de uma reclamação de um cliente dirigida à firma que lhe vendeu um computador, porque o teclado tem vida e ideias próprias e parece ter decidido adulterar tudo o que escreve. Detalhe: a reclamação também é escrita por esse teclado. Isso ou então o teclado está ótimo e é o reclamante que é maluco. O resultado é uma historiazinha francamente divertida, fantástica de um modo bastante todoroviano porque fica a pairar a dúvida sobre o que é verdade e o que é imaginação, e totalmente eficaz naquilo que se propõe fazer.

Este é dos tais contos que descarreguei na altura em que saiu e têm ficado no meu computador à espera de serem lidos. Creio que já não se consegue apanhar em lado nenhum. O que é pena.

O meu pai tem novo livro

O meu pai era poeta.

Morreu em 2011, aos 75 anos, graças a quilos de cigarros e às consequências que eles tiveram. Deixou por cá a família, uma série de publicações (poemas, sim, mas também contos e crónicas) dispersas por jornais, revistas e uma ou outra antologia e dois livros de poemas. Fininhos, como era norma no seu tempo e em grande medida continua a ser ainda hoje.

Agora saiu o terceiro.

Não começou com um telefonema mas, pela parte que me toca, foi assim que começou. Que conheciam a poesia do meu pai e gostavam muito dela, que era uma pena que poucos a conhecessem hoje em dia porque já há décadas anda fora de mercado, se eu estaria de acordo que se publicasse um livro novo com os poemas dele, e por aí fora.

E eu, sem saber bem o que ele diria (tanto podia recusar como ficar contente e dizer que sim), e sem lhe poder perguntar, aceitei. E ao aceitar passei a ter um problema.

É que me queriam envolvido. Queriam-me a colaborar na escolha dos poemas, no delinear da edição, nessas coisas miúdas de que são feitos os livros. Só que eu, como quem costuma ler o que vou pondo aqui já está farto de saber, me tenho na conta de um gajo que pouco percebe de poesia. Escolher poemas? Que sei eu sobre poemas para poder escolhê-los? Especialmente inéditos e dispersos?

E depois apareceram outros problemas. Falta de tempo, emails perdidos, um arquivo paterno muito mal organizado, onde estão poemas dispersos publicados em vários sítios mas quase sempre sem qualquer indicação de onde e quando, e etc., e etc., e etc. Com tudo isso, o tempo foi-se arrastando e por fim acabou por ficar decidido que para a publicação avançar teria de ser reduzida a uma compilação dos dois livros publicados em vida.

E a um prefácio.

Escrito por mim.

Mas têm a certeza? Eu pouco percebo de poesia, e patati, e patata. Que sim, que sim, escreva lá isso.

E eu suspirei, escrevi, apaguei, voltei a escrever, voltei a apagar, reescrevi. Por fim, lá saiu qualquer coisa razoável. E por fim o livro saiu. Não sou daqui: eu vim num dorso de vaga, o título, é também um verso de um dos poemas (e não, não fui eu que o escolhi). Candeias Nunes, o autor, veio mais tarde a assinar também como António Candeias, mas coisas diferentes, possivelmente mais conhecidas por quem frequenta este blogue. Douda Correria, a editora, está presente na internet aqui, e a página relativa ao livro, onde se encontra um link para contactos e pedidos, é esta.

E assim, quase nove anos depois de nos ter deixado e uns sessenta depois de ter escrito estes versos, o meu velhote volta a poder ser lido por quem tiver curiosidade.

É a magia da palavra escrita.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Robert Thurston: Debaixo de Cerco

Falei aqui há dias de relevância no contexto da ficção científica portuguesa e, num daqueles exercícios de sincronicidade que o acaso teima em fornecer a quem está atento, eis que dias depois leio uma noveleta que poderia perfeitamente funcionar como ilustração do terceiro tipo de relevância que aí mencionei.

Publicada em 1974, num período de grande agitação social na América, durante o qual a contestação à Guerra do Vietname se fundiu com ramificações tardias do movimento pelos direitos civis, nas quais o movimento Black Power teve a sua maior visibilidade, Debaixo de Cerco (bibliografia) é uma noveleta corajosa sobre racismo. O protagonista-narrador de Robert Thurston é um intelectual branco, casado com uma negra, e defensor de relações harmoniosas entre as raças numa sociedade americana de futuro próximo, distópica, na qual os movimentos de libertação (ou até de supremacia) negra parecem ter tido sucesso.

E também é uma história problemática em outros níveis pois recorre à velha e batida técnica da violação para desencadear ou fazer avançar a narrativa. Não a narrativa centrada na mulher violada, a qual pouco mais acaba por ser que cenário, mas a narrativa centrada na relação entre o homem violador e o homem marido da mulher violada. Aquele é um negro, retratado como uma espécie de chefe de gangue que na realidade distópica que Thurston cria é livre para fazer impunemente tudo o que lhe der na veneta. E esta, claro, é o intelectual branco, que se vê não só na posição de vítima — apesar da verdadeira vítima ser outra — mas também na de minoria oprimida.

O que Thurston quer fazer com isto, julgo eu, é discutir a forma como as relações raciais na América, desde sempre violentas, podem ou não perpetuar a violência se e quando o centro de poder mudar de mãos, da minoria branca para a minoria negra (sim, são ambas minorias; há a tendência de tratar como minorias apenas as não hegemónicas, mas todas o são). É dizer que, talvez, só violentando os violentadores será possível fazê-los realmente compreender o que sentem desde há séculos os violentados. Por vezes, o conto parece bastante racista porque parece dar como adquirido que a raça terá sempre centralidade na vida americana, mesmo que a minoria branca perca as rédeas do poder. Mas não creio que fosse essa a intenção do autor. Parece-me que a intenção é tentar compreender o ponto de vista do movimento negro, particularmente do mais radical: os Black Panthers e grupos semelhantes, que na altura tinham bastante proeminência em certos círculos. Numa perspetiva essencialmente antirracista.

Seja como for, este é um bom conto de ficção científica social, completamente carregado de conteúdo, nos antípodas do escapismo que demasiada gente associa com demasiada frequência ao género. Com os seus problemas, certamente, e aberto a que pessoas diferentes nele encontrem coisas diferentes, como de resto é hábito, mas bom.

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 22 de dezembro de 2019

Ray Bradbury: Tio Einar

Muitos autores, particularmente os bons, têm histórias que tendem a ser republicadas em vários livros, tanto deles como antológicos, e Ray Bradbury não é exceção. Pela sua relativa ubiquidade, essas são histórias que correm sempre o risco de reaparecer nas leituras de quem aprecia ler contos, como eu. E no caso de Bradbury uma dessas histórias é este doce conto intitulado Tio Einar (bibliografia). Resultado: não só já o tinha lido noutra publicação como já o tinha comentado de forma razoavelmente extensa, há praticamente dois anos. Dois anos não são quase nada, e a opinião com que fiquei nesta leitura que agora fiz é em essência a mesma com que tinha ficado em janeiro de 2018.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana #46

E mais uma vez é o Artur Coelho quem avança com as primeiras Leiturtugas da semana, por intermédio de mais uma brevíssima opinião sobre um livro de BD, expandida noutro lado. Cabe a vez ao número 1 da revista Umbra, um conjunto de bandas desemnhadas de João Chambel, João Sequeira, Pedro Moura, Filipe Abranches, Sama, Sérgio Sequeira, José Carlos Joaquim e Hugo Maciel, publicado pela Umbra.

Depois apareceu o gajo que escreve aqui na Lâmpada, com a sua opinião sobre mais uma antologia. Trata-se desta vez da antologia Avenidas sem Sentido, organizada por Pedro Sena-Lino e publicada pela QuidNovi, onde não existe ficção científica mas existem outras vertentes de ficção especulativa.

De seguida, a Nights publicou mais um vídeo onde fala das suas leituras de outono, incluindo muita leiturtuga. O Despertar, de Iria Alexandra Cardoso, é um romance juvenil publicado pela Chiado, o qual parece ser fantasia científica, ou seja, entra na coluna "com FC". Micaela é um conto de fantasia paranormal de Nádia Batista, autopublicado via Wattpad. Nobody Tricks the Trickster é também um conto autopublicado e divulgado pela própria autora, Ana C. Reis, no seu blogue. Trata-se de uma fantasia escrita em inglês. Contos de Terror do Homem-Peixe, uma antologia organizada por Miguel Neto e Pedro Souto, é um livro de terror mas com alguma FC publicado pela Chimpanzé Intelectual. Corações de Corda, de Carina Portugal, é uma noveleta (?) steampunk publicada via Smashwords. Despojos de Guerra, de Carlos Silva, é um conto de FC integrado no universo do Comandante Serralves e foi publicado pela Imaginauta. Por fim, As Cordas de Itz'mucan é um conto de FC de Anton Stark, também publicado via Smashwords. Puff... Sempre que a Nights faz um vídeo lá vem lençol. Os tais problemas bons da vida. São cinco obras com FC e duas sem, o que leva a Nights a saltar para 6c8s... e cumprir os objetivos. E com folga!

Por fim, já hoje, a Carla Ribeiro também publicou mais uma opinião sua integrada no projeto. Refere-se essa opinião ao mais recente romance de João Nuno Azambuja, a distopia Autópsia, publicada há três meses pela Guerra e Paz. Tem FC, claro, pelo que a Carla sobe a 6c3s. Só faltam 3!

E por esta semana é só e não é pouco. Venha a próxima.