quarta-feira, 19 de junho de 2019

História alternativa: toda a gente a faz, ninguém a lê

Bandeira da República Socialista Soviética de Portugal e Adjacências

É para mim cada vez mais espantoso o facto de Portugal não ter um sólido e pujante mercado de literatura de história alternativa, porque se há coisa que cada vez falta menos é gente a fazer história alternativa a cada oportunidade que lhe apareça. Ou a cada meia oportunidade. Já me lembrei de uma explicação provável, a de que a pulsão para a história alternativa poderá estar inversamente relacionada com a quantidade de livros lidos ao longo da vida, mas mesmo assim continua a parecer-me estranho. Mesmo uma relação inversa dessas deixaria uma margem suficiente para se publicarem por ano vários sucessos de vendas baseados em alguma espécie de ucronia.

Há outra explicação; pode ser doença. Se calhar é doença. Chamemos-lhe ucronite para simplificar.

O último ataque generalizado de ucronite aconteceu a propósito das comemorações do Dia D, o desembarque aliado na Normandia. É um dia muito importante para o desenrolar da II Guerra Mundial e para a história subsequente do planeta e detém recordes que provavelmente nunca mais serão ultrapassados. Isto só por si basta e sobra para lhe garantir um lugar de destaque na história universal... mas há quem não se contente com isso, se deixe contaminar pela ucronite (ou pela ignorância) e debite disparates sobre ter "inaugurado a libertação da Europa" e asneiras do género. Ouvi esta num noticiário da RTP e reagi, no facebook, assim:
Eu cá acho excelente que se comemore o desembarque na Normandia.

Agora que se diga que "inaugura a libertação da Europa", sem ser numa peça de propaganda pura e simples, convenhamos que é tosco.

O dia D foi 6 de junho de 1944.

Nesse dia, já o Exército Vermelho tinha corrido com os alemães da Rússia e da Ucrânia e combatia na Polónia oriental, na Belorrússia e nos bálticos.

Nesse dia, a libertação de Itália ia já tão avançada que os alemães tinham perdido Roma dois dias antes. Também as grandes ilhas mediterrânicas estavam já todas libertadas, incluindo a Córsega.

E isto são os factos históricos, não é a propaganda. Factos históricos esses que todos, e muito em especial os jornalistas, temos obrigação de reportar.

Em vez disso, a RTP papagueia a baboseira da libertação da Europa ter começado no Dia D.

Depois dizem-se muito preocupados com as notícias falsas, enquanto dão "notícias" como quem só aprendeu história nos filmes de Hollywood.

Raio que os parta, pá.
(Alguns dias mais tarde, o Miguel do Vento Sueste foi mais longe, publicando também no facebook uma longa lista de momentos em que as forças do Eixo foram travadas ou forçadas a recuar, começando com a batalha aérea de setembro de 1940 em que a força aérea britânica abateu mais de 50 aviões alemães e que terá levado à suspensão da invasão de Inglaterra, passando pelas grandes batalhas em que o exército vermelho trava os alemães, entre 1941 e 1943, pelas sucessivas derrotas do Eixo no norte de África em 1942 e início de 1943, pela invasão da Sicília em julho de 1943, pelo início da libertação de França com a recuperação da Córsega no outono de 1943 e por vários outros momentos até finalmente se chegar ao tal "momento decisivo" do Dia D em junho de 44.)

Não reparei se o post do Miguel viralizou, mas o meu sim, embora não muito, tendo sido partilhado duas dezenas de vezes e recebido mais de meia centena de polegarzinhos para cima. E, claro, em algumas das partilhas gerou discussão, na qual não podia faltar mais história alternativa.

Alguns apoiam a baboseira, fazendo a história alternativa de que sim senhor, foram os EUA a começar a libertar a Europa no Dia D, fazendo de conta que nenhuma das vitórias aliadas anteriores ao desembarque na Normandia existiu. Nada de Frente Leste, nenhuma frente italiana, népia de derrota nazi em África, nada de nada. E naturalmente, nesta história alternativa as tropas que desembarcaram em França a 6 de junho de 1944 eram todas americanas, sem exceção, ou, vá lá, quando admitem alguma exceção, os americanos teriam tido de andar a salvar os ingleses ou os canadianos, que só teriam conseguido acobardar-se assim que chegaram à praia.

Outros vão ainda mais longe na história alternativa, reconhecendo que, sim, existia uma frente leste e, sim, os russos já estavam a ter vitórias sobre vitórias contra os nazis, mas dizendo que por isso mesmo é que o Dia D corresponde à libertação da Europa, porque sem ele os russos viriam por aí fora, levando tudo à frente até Lisboa. Esquecem a frente italiana, porque não convém ao enredo que arranjam, fazem de conta que não percebem que estão a defender o salazarismo e o franquismo, e se alguém lhes apresenta argumentos contra um tal cenário enfiam os dedos nos ouvidos e cantarolam lalalala-lalalala-lalala.

E por aí fora, numa série de variedades e variações.

Há sobretudo duas coisas que me incomodam nesta pulsão pela história alternativa por parte de gente que não lê história alternativa.

Uma é a falta de qualidade do cenário ucrónico que arranjam. Um bom cenário de história alternativa procura ser sólido, procura analisar as consequências lógicas e prováveis de um determinado acontecimento se ter dado de forma diferente. De um atentado falhado ter tido sucesso ou vice-versa, de uma batalha renhida ter tido outro vencedor, de uma inovação ignorada ter tido reconhecimento ou de uma inovação reconhecida ter sido ignorada. Ou até de um viajante no tempo ter pisado uma borboleta. Mas estas ucronias tiradas da cartola por quem não lê história alternativa são invariavelmente de más a péssimas.

Os Estados Unidos salvam a Europa sozinhos, derrotando sozinhos o poderio militar alemão, apesar de travarem simultaneamente outra guerra no Pacífico, de terem uma logística incomparavelmente mais complexa para porem homens e armas no teatro de guerra e até inferioridade em material durante a maior parte da guerra, tanto em quantidade como em qualidade. É estúpido. No mundo real, o desembarque na Normandia foi das batalhas mais violentas e mortíferas de toda a II Guerra Mundial, apesar dos nazis estarem a combater em outras duas frentes, uma das quais muito extensa, e muitíssimo dispendiosa em homens e material durante os anos que antecederam o Dia D, e não nos esqueçamos dos atos de sabotagem da Resistência francesa (e não só) nas vias de abastecimento. Sem o desgaste provocado pela Frente Leste e, em menor escala, pela frente italiana, o desembarque na Normandia teria sido basicamente impossível, mas isso não detém a fantasia destes americanófilos de pacotilha.

Segundo outros, o desembarque na Normandia foi a forma de evitar outra história alternativa ligeiramente melhor, mas ainda bastante má. Dizem eles que sem o Dia D os russos vinham por aí fora e cobriam a Europa inteira com uma imparável maré vermelha, levando tudo à frente. É o disparate oposto ao primeiro, porque mais uma vez ignora as necessidades e limitações da logística militar, já para não falar da tolice de pensarem que durante a II Guerra havia três forças em confronto e não duas. A verdade é outra: os aliados eram mesmo aliados, russos incluídos, e houve quase desde o início cooperação ao mais alto nível entre Moscovo e as capitais ocidentais, incluindo fornecimento de material enquanto a União Soviética montava (e deslocava) à pressa a sua estrutura industrial.

E como bem se viu no Iraque pós invasão americana, conquistar território é bem diferente de mantê-lo ocupado. Ora, para chegarem à Península Ibérica os russos teriam primeiro de passar pela Alemanha cheia de uma população em grande medida intoxicada pela propaganda nazi, onde certamente enfrentariam resistência suficiente para terem de lá estacionar uma quantidade significativa de efetivos. Foi o que as quatro potências aliadas fizeram no fim da guerra, de resto, e se esse esforço tivesse caído apenas sobre os russos pura e simplesmente não haveria capacidade para invadir a Península Ibérica, até porque atravessar uma Europa inteira destruída pela guerra para trazer material, combustível e mantimentos até à Península seria um esforço hercúleo.

Mas a verdade é que esta pulsão pela história alternativa movida a americanofilia primária ou a anticomunismo igualmente primário também me diverte. É que, sabem?, esta queda direitola pela falsificação da história escorre ironia por todo o lado:

É tão profundamente... estalinista!

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