segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Lançamentos de FC de 2018 (segundo o FCL)

Pela segunda vez, trago-vos aqui o que foi aparecendo de lançamentos no Ficção Científica Literária ao longo do ano de 2018. Os critérios e notas são idênticos aos do ano passado, pelo que provavelmente escuso de os repetir aqui, pelo menos por extenso. Basta, talvez, que faça uma versão resumida, remetendo os interessados para o post do ano passado para uma versão mais extensa, apesar de ser necessário particularizar melhor certas questões. Olhem, o melhor é mesmo lerem as notas prévias do post do ano passado e aquilo que se segue.

Rapidamente, o FCL adota uma definição bastante lata de "FC", incluindo não só aquilo que o é indubitavelmente como aquilo que só roça o género e até algumas obras que se limitam a sugerir potencial para roçar por ele. Estas listas também são pouco rigorosas cronologicamente porque, por dependerem do que se publica na web, estão dependentes do momento em que é feito o anúncio dos lançamentos, o que leva à probabilidade de algumas obras lançadas no ano anterior só aparecerem nas listas do ano seguinte e vice-versa (se bem que eu este ano não tenha incluído aqui anúncios de longo prazo, ao contrário do que fiz no ano passado; as listas incluem provavelmente alguns livros que só sairão em janeiro ou fevereiro de 2019 mas não incluem livros planeados para mais tarde). A dependência do FCL dos anúncios de lançamentos feitos noutros sites e blogues significa também que é provável que nem todos os lançamentos realmente existentes estejam aqui espelhados. E também podem existir casos de obras que seriam englobáveis nestas listas, e até foram anunciadas, mas foram-no de uma forma que me passou despercebida, ou por terem sido anunciadas em publicações que desconheço, ou porque os textos de apresentação ocultam, deliberadamente ou não, a relação da obra com a ficção científica.

Por vários dos motivos expressos acima, uma comparação da lista deste ano com a do ano anterior irá encontrar algumas obras repetidas. Por vezes trata-se de reedições, pois eu não faço distinção entre primeiras edições e edições subsequentes, mas na maior parte dos casos é simplesmente resultado da mesma edição ter sido anunciada em ambos os anos. Isso tem impacto óbvio no número de obras que consta de cada lista. O facto de a lista de lançamentos de ficção portuguesa deste ano incluir 32 títulos ao passo que a do ano passado incluiu apenas 25 não significa necessariamente, portanto, que a subida foi assim tão relevante. Significa que uma série de fatores, entre mais edições, edições repetidas, o surgimento de mais veículos de divulgação, com a divulgação de diferentes tipos de material e o aperfeiçoamento das ferramentas que uso para apanhar o que vai sendo publicado por aí sobre edições, contribuíram para ampliar esse número. Mesmo sendo uma subida de 25 para 32 (i.e., 28%) bastante interessante.

Outras variações: a ficção brasileira subiu de 49 títulos para 96, quase o dobro. De novo, isto não quer dizer que a edição tenha aumentado assim tanto; quer dizer que talvez tenha havido um aumento na edição mas houve de certeza um significativo aumento no número de fontes brasileiras que uso para recolher informação (de resto, a página sobre as fontes do FCL começa a ficar enorme e isso tem impactos óbvios) e o aparecimento, nas pesquisas que faço no Google, de edições por empresas de autoedição, como a Agbook ou o Clube de Autores, que provavelmente ninguém lê. Mas existem. E existem também em Portugal mas, curiosamente, nunca as vejo nos resultados do Google.

Quanto a ficção traduzida, a edição portuguesa permaneceu basicamente estável (subiu de 64 para 68 títulos) mas a edição brasileira deu também um enorme pulo, de 114 títulos para 183. Aqui, no entanto, e embora também se tenha feito sentir o efeito do aumento no número de fontes brasileiras, o principal motivo do aumento é terem recomeçado a ser divulgadas as edições de Perry Rhodan, que somaram largas dezenas.

E quanto às outras categorias em que dividi estas listas, a edição de periódicos relevantes continua saudável no Brasil e praticamente inexistente (ou invisível) em Portugal, e o resto é tão rarefeito que não faz grande sentido tentar analisar variações entre um ano e outro.

Aqui ficam as listas:

Ficção portuguesa:
  1. A Expansão, de Gonçalo J. N. Dias (ebook)
  2. A Profecia: Asura, de António Costeira
  3. A Terra de Naumãn, de H. G. Cancela
  4. Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, de João Barreiros
  5. Contos de Mundos Anexos, de Nuno Bastos
  6. Crazy Equóides, de João Barreiros 
  7. Deste Mundo e do Outro, de José Saramago 
  8. Diz Não!, de Alberto João Jardim
  9. E se Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?, de Jonuel Gonçalves
  10. Ecologia, de Joana Bértholo
  11. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (editado no Brasil) 
  12. EuroNovela, de Miguel Vale de Almeida (ebook)
  13. Expansão, org. Carlos Silva (?)
  14. Frankenstein Contado Tipo aos Jovens, de Mary Shelley, Raquel Palermo e João Lacerda Matos 
  15. História do Cerco de Lisboa, de José Saramago (editado no Brasil) 
  16. Lisboa Oculta, org. Carlos Silva (?)
  17. Máquina Genial, de Nuno Caravela
  18. Meio Homem Metade Baleia, de José Gardeazabal 
  19. Mythos da Lua Nova, de Jorge Ferreira
  20. Novos Tempos, de João Bernardo Silva 
  21. O Desejo e Outros Demónios, de António Bizarro
  22. O Coração é um Predador Solitário, de João Barreiros (conto em ebook) 
  23. O Encantador de Bombas, de João Barreiros (conto em ebook) 
  24. O Farol Intergaláctico, de João Pedro Oliveira (conto)
  25. O Futuro à Janela, de Luís Filipe Silva 
  26. O Jogo, de Carmo Cardoso e José Machado (conto)
  27. O Saque de Lampedusa, de João Barreiros (conto em ebook) 
  28. Os Monociclistas e Outras Histórias do Ano 2045, de António Ladeira 
  29. Quem Chama Pelo Senhor Aventura?, de Rita Garcia Fernandes
  30. Seis Drones, de António Ladeira 
  31. Sentimentos sem Rosto, vol. II, de Joaquim Jorge Costa
  32. Tudo Isto Existe, de João Ventura

Ficção portuguesa e traduzida:
  1. Steampunk Internacional, org. ??

Ficção brasileira:
  1. 2084: Mundos Cyberpunks, org. Lidia Zuin
  2. A Era dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira
  3. A Jornada da Morte, de José M. S. Freire (ebook)
  4. A Libertação, de Victor Pereira 
  5. A Lince e a Raposa, de Cristiane Schwinden
  6. A Lucidez da Lenda, de Raul de Taunay 
  7. A Origem, de Marcos L. Rockenbach
  8. A Ponte, de Carol Peace
  9. A Quarta Dimensão, de Eduardo Capristrano 
  10. A Selva do Leão, de Esther Lya 
  11. Absolutos, de Rodolfo Salles
  12. Água, de Hilber Cunha 
  13. Alba, de Matheus Sperafico
  14. Am Timan, de Michele Viviane Vasconcelos 
  15. Areia Fugaz, de Miguel Carqueija e Jorge Luiz Calife (conto em ebook)
  16. Arquidata: A Dama da Espada e o Segredo do Medalhão, de Raquel Cassiano 
  17. As Histórias que Ninguém te Contou, de Renan Xavier
  18. Audaz, de Maurício Benvenutti 
  19. Caos, de Melissa de Sá 
  20. Carruagens de Fogo, de Rogério Amaral de Vasconcellos
  21. Chagas: Uma Ficção Científica, de Antonio Teixeira 
  22. Cidades do Futuro, de Jamila Mafra 
  23. Contos de Terror e Ficção Científica, de Sandro Barbosa
  24. Contos de um Passado Distante, de Adrian Akar 
  25. Cosmo Distante, de Lucas Victor de Freitas
  26. Cratera, de Giorgio Xenofonte (ebook) 
  27. Cúpulas do Diabo, de Wilson Barroso Freire (ebook)
  28. Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão
  29. Diário 2116, de Bruno H. S.
  30. Em um Mundo Diferente, de Rayume Araujo
  31. Equipe Avanço, de Lydia Ellen Tonani
  32. Eros Ex Machina, org. Luiz Bras 
  33. Estranha Bahia, org. Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares
  34. Ex-Cravo, de Alex Oliveira 
  35. Fractais Tropicais, org. Nelson de Oliveira
  36. Futuro!, de Roberto Fiori 
  37. Glória Sombria, de Roberto de Sousa Causo
  38. Herdeiros de Dagon, org. ??
  39. Hocus Pocus High Tech, org. Luiz Bras (ebook; contém também ficção portuguesa)
  40. Homo Tempus, de F. E. Jacob
  41. Hybris, de Alessandro Candeas
  42. In Tractu, de Alessandro de Paula Moura
  43. King, Poe, Lovecraft, org. Rô Mierling 
  44. Lázaro: A Maldição dos Mortos, de A. Wood
  45. Legados de Lyræh, de Willer Jones
  46. Lovecraftiano, vol. 1, de Marcelo A. Galvão (ebook)
  47. Mantenha a Calma, não Há Rinocerontes Neste Livro, de Daniel Matos
  48. Memórias Pós-Humanas de Quincas Borba, de Sid Castro (ebook)
  49. Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo
  50. Morando no Espaço, de João Paulo Guerra Barrera 
  51. Mundo Invertido, org. Bruno Godoi e Stêfano Volp
  52. Narrativas do Medo 2, org. Vitor Abdala 
  53. No Coração de Plutão, de Erick Figueiredo
  54. O Astronauta do Século XXX, de Jamila Mafra 
  55. O Brado da Alma, de Bruno L. Freitas
  56. O Chamado de Úlion, de José M. S. Freire 
  57. O Dia da Caça, org. Marcus Souza e Lorhan Rocha
  58. O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou, de Guigo Ribeiro
  59. O Ditador Honesto, de Matheus Peleteiro
  60. O Dom da Lágrima, de Thomas Oden 
  61. O Esforço Abnegado, de T. Anderson
  62. O Fator Camaleônico, de Davidson Capilla
  63. O Fator Caos, de Miguel Carqueija (ebook)
  64. O Início, de Ricardo Quartim
  65. O Inominável, de Gustavo Lopes
  66. O Laço do Enforcado, de Alex Mandarino 
  67. O Mal de Lázaro, de Krishna Monteiro 
  68. O Mistério da Guardiã, de Gabriel Alves Pereira
  69. O Mistério do Sr. Gratus, de Carlos Orsi (conto em ebook)
  70. O Mistério dos Planos Roubados, de A. Z. Cordenonsi
  71. O Mundo Fantástico de R. F. Lucchetti, org. C. B. Kaihatsu
  72. O Orangotango Marxista, de Marcelo Rubens Paiva 
  73. O Passageiro das Estrelas, de Jamila Mafra (conto em ebook)
  74. O Sangue dos Monstros, org. Adriano Siqueira e Dione M. S. Rosa 
  75. O Velocista, de Walter Cavalcanti Costa 
  76. O Viajante do Céu, de Bruno Capellano 
  77. Os 30 Melhores Contos, de Gerson Machado de Avillez
  78. Os Cavaleiros Elementares, de Guilherme Massena 
  79. Os Contos, de Lygia Fagundes Telles
  80. Os Fantasmas de Vênus, de Roberto Schima (ebook)
  81. Os Supremos, org. Raphael Miguel 
  82. Planeta Errante, de Paulo Boaventura 
  83. Possessão Alienígena, org. Ademir Pascale
  84. Profundezas - Cavaleiros Elementares, de Guilherme Messena 
  85. Projeto 94, de Rodrigo Fonseca 
  86. Quãm, de Tadeu Loppara
  87. Quem é Josenildo?, de Ana Maria Gonçalves
  88. Realidades Cabulosas: Ano 1, org. Lucas Rafael Ferraz e Rodrigo Rahmati (ebook; contém também ficção portuguesa)
  89. Relatório da Terceira Órbita, de Pedroom Lanne
  90. Sob a Luz da Escuridão, de Ana Beatriz Brandão 
  91. Super-Humano, de Douglas de Oliveira
  92. T30 - O Menino-Robô, de Saulo Ribas e Dagomir Marquezi
  93. Todo o Tempo do Mundo, de Maurício Gomyde
  94. Vanguardia, de Joe de Lima (conto em ebook)
  95. Vermelhos Varridos, de Flávio Komatsu
  96. Wonder, de Ricardo Santos (conto em ebook)

Ficção angolana:
  1. Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (editado em Portugal)

Ficção traduzida:

Edições portuguesas
  1. A Chave Maldita, de James Rollins
  2. A Coroa do Demónio, de James Rollins 
  3. A Felicidade é para os Humanos, de P. Z. Reizin 
  4. A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek 
  5. A Herança de Judas, de James Rollins 
  6. A Mão Esquerda das Trevas, de Ursula K. LeGuin
  7. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  8. A Mulher de Ferro, de Ted Hughes
  9. A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Jules Verne
  10. Aceitação, de Jeff VanderMeer
  11. Amatka, de Karin Tidbeck 
  12. Artemis, de Andy Weir
  13. Às Cegas, de Josh Malerman 
  14. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  15. Carbono Alterado, de Richard Morgan 
  16. Catwoman: Almas Roubadas, de Sarah J. Maas
  17. Cell: Chamada Para a Morte, de Stephen King
  18. Cura Mortal, de James Dashner 
  19. Destinos Divididos, de Veronica Roth 
  20. Engenhos Mortíferos, de Philip Reeve
  21. Farenheit 451, de Ray Bradbury 
  22. Felizes para Sempre, de Kiera Cass
  23. Frankenstein, de Mary Shelley 
  24. Fundação, de Isaac Asimov
  25. Guerra: E se Fosse Aqui?, de Jane Teller
  26. Guerra Americana, de Omar El Akkad
  27. Guerracivilândia em Mau Declínio, de George Saunders 
  28. Herança de Judas, de James Rollins
  29. LoveStar, de Andri Snær Magnason 
  30. Light Years, de Kass Morgan
  31. Matar o Presidente, de Sam Bourne
  32. Mentes Poderosas, de Alexandra Bracken 
  33. Nada Enfurece Mais uma Mulher, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois 
  34. O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado
  35. O Duque, de Katharine Ashe 
  36. O Elmo do Horror, de Victor Pelevin
  37. O Falcão da Noite, de Clive Cussler e Graham Brown 
  38. O Gene da Atlântida, de A. G. Riddle 
  39. O Homem de Ferro, de Ted Hughes 
  40. O Navio Fantasma, de Clive Cussler e Graham Brown
  41. O Poder, de Naomi Alderman
  42. O que Serão os Homens no Ano 3000, de Gustave Guitton (ebook)
  43. O Segredo de Nebula, de Trudi Trueit
  44. O Silêncio das Filhas, de Jennie Melamed
  45. O Tacão de Ferro, de Jack London
  46. Os Contos Mais Arrepiantes de H. P. Lovecraft, de H. P. Lovecraft
  47. Os Humanos, de Matt Haig
  48. Os Últimos Jedi: Livro do Filme, de Elizabeth Schaefer
  49. Os Viajantes, de Alexandra Bracken 
  50. Quando a Luz se Apaga, de Nick Clark Windo
  51. Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor 
  52. Quente e Frio, de Susannah McFarlane 
  53. Quinta Estação, de N. K. Jemisin 
  54. Robot Selvagem, de Peter Brown
  55. Salto para as Estrelas, de Susannah McFarlane 
  56. Sobrevivência Mortal, de J. D. Robb
  57. Solaris, de Stanislaw Lem 
  58. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick 
  59. Spark - Uma Centelha na Escuridão, de John Twelve Hawks 
  60. Ubik, de Philip K. Dick 
  61. Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein 
  62. Um Sopro de Neve e Cinzas, de Diana Gabaldon 
  63. Uma Coisa Absolutamente Incrível, de Hank Green 
  64. Valis, de Philip K. Dick
  65. Vigilante Noturno, de Marie Lu 
  66. Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne 
  67. Visão Mortal, de J. D. Robb
  68. Zombies & Cálculo, de Colin Adams

Edições brasileiras
  1. 4 3 2 1, de Paul Auster
  2. 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne
  3. 1984, de George Orwell
  4. A América de Philip Roth, de Philip Roth
  5. A Cabeça da Serpente, de Kai Hirdt
  6. A Criatura, de Andrew Pyper
  7. A Cruz de Fogo, de Diana Gabaldon
  8. A Balada do Black Tom, de Victor LaValle
  9. A Elite, de Kiera Cass 
  10. A Escolha, de Kiera Cass 
  11. A Fila, de Basma Abdel Aziz
  12. A Fúria da Besta-Fera, de Kai Hirdt
  13. A Guerra do Óxido, de Rüdiger Schäfer
  14. A Herdeira, de Kiera Cass 
  15. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  16. A Ilha Misteriosa, de Jules Verne
  17. A Incendiária, de Stephen King
  18. A Ira do Reekha, de Michael H. Buchholz
  19. A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon
  20. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  21. A Máquina Pára, de E. M. Forster (conto em ebook)
  22. A Nave-Concha, de Arndt Ellmer 
  23. A Nova Determinação, de Marianne Sydow
  24. A Nuvem, de Neal Shusterman 
  25. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler 
  26. A Praga, de A. G. Riddle
  27. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin 
  28. A Roleta dos Escolhidos, de K. H. Scheer
  29. A Sabedoria dos Mortos, de Rodolfo Martínez
  30. A Seleção, de Kiera Cass 
  31. A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein, de Kiersten White
  32. A Terra da Noite, de William Hope Hodgson
  33. A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter
  34. A Viajante, de Arwen Elys Dayton
  35. A Viajante do Tempo, de Diana Gabaldon 
  36. A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers
  37. A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
  38. Alarme de Nocturni, de Marianne Sidow
  39. Anjos Partidos, de Richard Morgan
  40. Ao Redor da Lua, de Jules Verne
  41. As Crônicas de Marte, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  42. As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
  43. As Sereias de Titã, de Kurt Vonnegut
  44. As Vozes da Agonia, de Ernst Vlcek
  45. Asseclas da Aliança, de Rüdiger Schäfer 
  46. Ataque a Camelot, de Ralf König e Nils Hirseland
  47. Batalha em Derogwanien, de Michelle Stern 
  48. Calamidade, de Brandon Sanderson
  49. Canalhas, de Timothy Zahn
  50. Caos no Humanidrom, de Kurt Mahr
  51. Carbono Alterado, de Richard Morgan
  52. Celular, de Stephen King 
  53. Cidade de Selvagens, de Lee Kelly 
  54. Cinco Semanas num Balão, de Jules Verne 
  55. Complô Contra a América, de Philip Roth
  56. Contato, de Carl Sagan
  57. Criaturas da Noite, de Marie Lu 
  58. Da Terra à Lua, de Jules Verne 
  59. Dança dos Nocturni, de Ernst Vlacek 
  60. Desafiando as Estrelas, de Claudia Gray
  61. Desfecho sobre London's Grave, de Nils Hirseland 
  62. Despertar, de Octavia E. Butler
  63. Duelo dos Arcônidas, de Nils Hirseland
  64. Ele Veio do Nada, de Michael H. Buchholz
  65. Em Nome dos SdG, de William Voltz
  66. Encarcerados, de John Scalzi 
  67. Encontro em Jimmerin, de H. G. Francis 
  68. Espere Agora Pelo Ano Passado, de Philip K. Dick
  69. Estado Zero, de Cam Rogers
  70. Exo, de Fonda Lee 
  71. Felicidade Para Humanos, de P. Z. Reizin
  72. Ficções, de Jorge Luis Borges 
  73. Fim do Império, de Chuck Wendig
  74. Fim do Tempo do Sol, de H. G. Francis 
  75. Flores Para Algernon, de Daniel Keyes 
  76. Fundação e Terra, de Isaac Asimov
  77. Galáxia dos Condenados, de H. G. Ewers
  78. Gesil e o Emissário, de H. G. Ewers 
  79. Grandes Contos, de H. P. Lovecraft
  80. Grandes Obras de Júlio Verne, de Jules Verne 
  81. Guerra aos Curingas, org. George R. R. Martin
  82. Guerreiros Para o Faraó, de Hans Kneifel
  83. H. P. Lovecraft: Medo Clássico, de H. P. Lovecraft 
  84. Herland: A Terra das Mulheres / Terra das Mulheres, de Charlotte Perkins Gilman
  85. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe 
  86. Iluminador do Céu, de Susan Schwartz 
  87. Indecifrável, de Jessica Brody
  88. Interferências, de Connie Willis 
  89. Jogador nº 1, de Ernest Cline 
  90. Jurassic Park, de Michael Crichton
  91. Justiça Ancilar, de Ann Leckie 
  92. Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler 
  93. Limites da Fundação, de Isaac Asimov
  94. Limites do Tempo, de Rysa Walker
  95. Love Star, de Andri Snær Magnason
  96. Máquinas Mortais, de Philip Reeve
  97. Matem o Presidente, de Sam Bourne 
  98. Medo Clássico, vol. 2, de Edgar Allan Poe 
  99. Mensagem das Estrelas, de Rüdiger Schäfer
  100. Mentes Sombrias, de Alexandra Bracken
  101. Metálise, de Arndt Ellmer 
  102. Metamorfoses do Espírito, de Marianne Sydow 
  103. Missão em Vaar, de H. G. Ewers
  104. Muitas Águas, de Madeleine l'Engle
  105. Mundo de Metano Antau I, de H. G. Francis 
  106. Não me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro
  107. Negócios com Topsid, de Marianne Sydow
  108. No Reino dos Respiradores de Hidrogênio, de Rainer Shorm
  109. No Rio de Chamas, de Rainer Schorm
  110. Noite dos Mortos-Vivos, de John Russo 
  111. Novembro de 63, de Stephen King
  112. Nyxia, de Scott Reintgen 
  113. O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood
  114. O Arquivo Rebelde, de Daniel Wallace 
  115. O Caminho para Achantur, de Rainer Schorm
  116. O Ciclo de Yig, de H. P. Lovecraft 
  117. O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado
  118. O Enigma de Andrômeda, de Michael Crichton 
  119. O Esconderijo da Guarda Estelar, de Rainer Castor
  120. O Herói de Sigris, de Arndt Ellmer
  121. O Jogo das Sombras, de Christine Feehan
  122. O Mapa do Tempo, de Heidi Heilig 
  123. O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson 
  124. O Milésimo Andar, de Katharine McGee 
  125. O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle 
  126. O Mundo Perdido, de Michael Crichton 
  127. O Pedaço do Céu, de Robert Feldhoff
  128. O Poder, de Naomi Alderman
  129. O Poder do Dourado, de Rainer Castor 
  130. O Portão do Obelisco, de N. K. Jemisin
  131. O Projeto, de Kurt Mahr 
  132. O que os Deuses Dão, de H. G. Francis
  133. O Rebelde Secreto, de Robert Feldhoff
  134. O Resgate no Mar, de Diana Gabaldon 
  135. O Sábio de Fornalha, de Ernst Vlcek
  136. O Segredo dos Nakks, de Peter Griese 
  137. O Símbolo do Pombo, de Robert Feldhoff
  138. O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick 
  139. Oceano da Determinação, de Susan Schwartz
  140. Opostos, de Jennifer L. Armentrout 
  141. Órbita no Nada, de Kurt Mahr
  142. Origens da Fundação, de Isaac Asimov
  143. Oryx e Crake, de Margaret Atwood
  144. Os Lutadores de Efrem, de Peter Griese 
  145. Os Mundos de Truillau, de Peter Griese
  146. Os Relógios de Peregrino, de Ernst Vlcek 
  147. Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir 
  148. Os Tambores do Outono, de Diana Gabaldon
  149. Os Últimos Jedi, de Jason Fry
  150. Perseguição ao Jedi, de Michael Reaves e Maya Kaathrynn Bohnhoff
  151. Poeira Lunar, de Arthur C. Clarke 
  152. Ponto Focal: Peregrino, de Ernst Vlcek
  153. Prelúdio à Fundação, de Isaac Asimov
  154. Quando as Estrelas Caem, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  155. Regra de Dois, de Drew Karpyshyn 
  156. Renascer, de Anna Carey 
  157. Restaura-me, de Tahereh Mafi 
  158. Retorno ao Punho de Provcon, de Robert Feldhoff 
  159. Retorno Para Woodbury, de Jay Bonansinga 
  160. Sabotagem na Terra, de Arndt Ellmer
  161. Santuário dos Ventos, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle 
  162. Simsi e Paranakk, de Erndt Ellmer 
  163. Skyward, de Brandon Sanderson
  164. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick 
  165. Tempestade na Nebulosa Escura, de Robert Feldhoff
  166. Trilha Através dos Milênios, de Kai Hirdt
  167. Um Amigo dos Linguides, de Peter Griese
  168. Um Planeta em seu Giro Veloz, de Madeleine l'Engle 
  169. Um Sopro de Neve e Cinzas, de Diana Gabaldon
  170. Um Vento à Porta, de Madeleine l'Engle 
  171. Uma Coisa Absolutamente Fantástica, de Hank Green
  172. Uma Dobra no Tempo, de Madeleine l'Engle 
  173. Uma Longa Viagem a um Planeta Hostil, de Becky Chambers
  174. Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade, de Colson Whitehead 
  175. Utopia, de Thomas More
  176. Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne 
  177. Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift 
  178. Visita à Terra, de Peter Griese 
  179. Vocês são Vida Verdadeira?, de Oliver Fröhlich
  180. Voltago, o Servo, de Robert Feldhoff
  181. Vox, de Christina Dalcher
  182. Warcross, de Marie Lu
  183. Zero K, de Don DeLillo 

Poesia portuguesa:
  1. O Ano de 1993, de José Saramago
  2. Poesia, de Mário-Henrique Leiria

Poesia brasileira:
  1. Estuário, de Guilherme Scalzili

Não-ficção portuguesa:
  1. Gótico Americano, org. Maria Antónia Lima (ebook)
  2. José Saramago: Rota de Vida, de Joaquim Vieira

Não-ficção brasileira:
  1. Almanaque da Arte Fantástica Brasileira - Lançamentos 2017, de César Silva (ebook)
  2. Blue Drop, de Miguel Carqueija (ebook)
  3. Coletânea, de Guilherme A. D. Pereira 
  4. Literatura, de Marisa Lajolo
  5. O Horror Cósmico de H. P. Lovecraft, de Daniel I. Dutra
  6. Resenhas de Livros, vol. I, de Miguel Carqueija (ebook)

Não-ficção traduzida:

Edições portuguesas
  1. 21 Lições para o Século XXI, de Yuval Noah Harari
  2. Churchill e Orwell: A Luta Pela Liberdade, de Thomas E. Ricks
  3. O Futuro da Humanidade, de Michio Kaku
  4. O Mito da Singularidade, de Juan-Gabriel Ganascia
  5. O Século da Ciência, de ??

Edições brasileiras
  1. 21 Lições para o Século 21, de Yuval Noah Harari
  2. 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Michael Benson
  3. A Cruzada Mascarada, de Glen Weldon
  4. A Verdadeira História da Ficção Científica, de Adam Roberts

Periódicos:

Edições portuguesas
  1. As Viagens do Feiticeiro, nº 0
  2. Bang!, nº 25
  3. NdZ
  4. Orion, nº 0 (ebook)
  5. Orion, nº 1 (ebook) 
  6. Orion, nº 2 (ebook)
  7. Revista de Estudos Saramaguianos, nº 7 (ebook)

Edições brasileiras
  1. Anuário Todavia, nº 1
  2. Cândido, nº 81
  3. Cândido, nº 86 
  4. Cândido, nº 87
  5. Conexão Literatura, nº 31 (ebook)
  6. Conexão Literatura, nº 32 (ebook)
  7. Conexão Literatura, nº 33 (ebook) 
  8. Conexão Literatura, nº 34 (ebook) 
  9. Conexão Literatura, nº 35 (ebook) 
  10. Conexão Literatura, nº 36 (ebook) 
  11. Conexão Literatura, nº 37 (ebook) 
  12. Conexão Literatura, nº 38 (ebook) 
  13. Conexão Literatura, nº 39 (ebook) 
  14. Conexão Literatura, nº 40 (ebook) 
  15. Conexão Literatura, nº 41 (ebook) 
  16. Conexão Literatura, nº 42 (ebook)
  17. Cósmico, nº 1
  18. ]Cultura[, nº 1
  19. Mafagafo, nº 1.1 (ebook) 
  20. Mafagafo, nº 1.2 (ebook) 
  21. Mafagafo, nº 1.3 (ebook) 
  22. Mafagafo, nº 1.4 (ebook)
  23. Mafagafo, nº 2.1 (ebook) 
  24. Mafagafo, nº 2.2 (ebook) 
  25. Mafagafo, nº 2.3 (ebook)
  26. Revistinha Pulp, nº 3
  27. Somnium, nº 114 (ebook)
  28. Trasgo, nº 17 (ebook)
  29. Trasgo, nº 18 (ebook)
  30. Zzzumbido, edição final (ebook)

Lido: Caminhos do Espaço

O leitor que já tenha alguma experiência destas coisas, já sabe de antemão parte do que vai encontrar sempre que pega num livro de ficção científica publicado nos anos 50 ou 40, especialmente os que foram escritos por homens brancos e anglos — ou seja, quase todos os que eram publicados na época. Por isso não foi nenhuma surpresa encontrar neste Caminhos do Espaço (bibliografia) do inglês Charles Eric Maine a habitual combinação de misoginia e conservadorismo social tão típicos da época e do género. Mas foi surpresa, e não das agradáveis, encontrar aqui um enredo de telenovela.

Trata-se de um livro de FC de futuro próximo, não o nosso, mas o do autor na época em que escreveu. Imagina como se realizariam os primeiros passos humanos no espaço e, sendo o autor inglês, situa com toda a naturalidade a ação nos EUA. A realidade trocou-lhe as voltas, tendo os primeiros passos sido dados pouco mais tarde na URSS, tanto os não tripulados como os tripulados. Mas há bastantes aspetos em que Maine até acerta na antecipação ou pelo menos na verosimilhança: o foguetão da (boa) capa corresponde aos foguetões que o texto nos traz, claramente descendentes dos mísseis alemães do tempo da II Guerra Mundial, e frutos de um projeto de investigação liderado por um cientista alemão fugido para os EUA, a investigação e o lançamento, secretos e militarizados, têm lugar no deserto do Nevada, na mesma zona em que têm lugar os ensaios nucleares e outras atividades secretas das forças armadas norte-americanas, e por aí fora.

Infelizmente, pouco mais há neste livro de bem conseguido. O que faz mover a história é quase por inteiro um enredo telenovelístico de amores cruzados, completados com crimes (reais ou suspeitados) e tragédias de faca e alguidar, muitíssimo desinteressante, e a prosa não passa de razoavelmente competente, muito prejudicada por uma tradução horrenda, cheia de erros e calinadas, até mesmo ortográficos.

O protagonista é um oficial de segurança que acaba como que desterrado para o Nevada, completamente a contragosto, porque... teve uma relação com uma mulher casada, e se calhar vermelhusca, e andava doente de amores. Aí chegado, depara com uma comunidadezinha de técnicos e cientistas que se dedicam a construir o primeiro foguetão orbital da humanidade e... é sucessivamente apanhado de surpresa por tudo o que vai acontecendo. Não, o que acontece nada tem a ver com a construção ou operação do foguetão. Tem a ver com uma secretária que se embeiça por ele e com um triângulo amoroso entre dois dos técnicos e a caprichosa e egoísta mulher de um deles. E depois acontece o lançamento e os amantes desaparecem e o marido chifrudo é suspeito de assassínio. E o drama, e o horror... e a patetice de tudo isto é qualquer coisa de superlativo.

No meio de toda esta telenovela, a ficção científica é secundária. O foguetão é lançado, mas aparentemente esse facto não provoca nenhum impacto na sociedade, apesar do lançamento ter sido difundido. O que tem impacto na sociedade é o julgamento do marido chifrudo suspeito de homicídio. Vá que o homicídio, a ser real, tem algo de insólito, pois as suspeitas — completas com cálculos matemáticos e uma trajetória diferente da antecipada — apontam para ele ter enviado os cadáveres do casal assassinado para órbita dentro do foguetão, o que será a parte mais interessante de toda fração telenovelística do enredo. Por isso, ele só se defende pedindo para ser enviado num segundo foguetão que possa ir recuperar o primeiro e demonstrar que não há nenhum cadáver lá dentro. O que não tem grande lógica, mas enfim. E realmente acaba por não correr bem.

Resumindo e concluindo: este é um livro bastante fracote, e só não o acho realmente mau porque o ramalhete que o compõe contém dois ou três elementos bem concebidos. E porque lhe faço o favor de dar o desconto devido à edição portuguesa, que consegue piorá-lo ainda mais.

Este livro foi comprado.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Lido: Patranha

À medida que este livro se aproxima do fim, parecem tornar-se mais comuns os contos mais mundanos, mais desprovidos de elementos fantásticos, contos que parecem mais histórias realmente acontecidas (e há relativamente pouco tempo) do que velhas ou velhíssimas lendas ou contos exemplares, mais ou menos adulteradas pelo tempo. É o caso deste Patranha.

Recolhido por Adolfo Coelho em Ourilhe, mais uma, esta é uma história divertida sobre um caseiro de fidalgo que não tinha como pagar ao fidalgo o que lhe devia, o que o levou a ser desafiado pelo fidalgo: se conseguisse contar-lhe uma patranha "do tamanho do pai-nosso" a dívida seria perdoada. A sorte do caseiro era ter um "filho tolo" (que não me parece nada tolo, na verdade), o qual foi contar uma tal patranha ao fidalgo que conseguiu livrar o pai da dívida. A patranha é divertida e cheia de fantasia. O "filho tolo", se fosse alfabetizado e vivesse nos dias de hoje, seria certamente um dos nossos.

Um continho de menos de página e meia divertido e interessante.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana

Voltou a haver leiturtugas esta semana, com o Artur Coelho a inaugurar o ano, logo no dia 1, publicando a sua opinião sobre a Antologia de Ficção Científica Fantasporto, organizada pelo Rogério Ribeiro. Só farei as contas ao deve e haver do projeto em julho, mas para já o Artur vai bem lançado (1c0s).

Mas não foi só o Artur a contribuir esta semana: eu também o fiz, com as minhas ideias sobre o conto Yazik, de Emanuel R. Marques. Não vou incluir no projeto os contos que for lendo, um a um, mas incluirei todos os que tenham sido publicados em publicação autónoma, como neste caso. Trata-se fundamentalmente de um conto de horror, mas como contém alguns vestígios de FC conta como leturtuga com FC, o que me põe também em 1c0s.

E também já está na página do projeto mais um blogue aderente. Já somos sete, embora para já só dois tenhamos realmente começado (a menos que haja por aí publicações que eu não tenha detetado; não me surpreenderia. Se vos acontecer avisem, sim?). E não, muitos não são os suspeitos do costume, o que é ótimo.

E tu? De que estás à espera para te juntares também ao pessoal?

sábado, 5 de janeiro de 2019

Escritas de dezembro

imagem de Drew Coffmann
Havia bastante tempo que, apesar de me julgar totalmente seco, ou quase, o bichinho da escrita não me largava. Mas por um motivo ou por outro, achava eu, as coisas não saíam.

Este dezembro percebi que esses "um motivo ou outro" eram apenas um: uma atitude errada relativamente ao que é necessário para criar.

Antes, procurava sossego, cabeça limpa, calma e tempo livre antes de me sentar a escrever qualquer coisa. E como ora não tinha uma coisa, ora não tinha outra, ora não tinha nenhuma delas, não escrevia. Dizia a mim próprio, e aos outros, que estava bloqueado, seco, apesar de continuar a ter as mesmas histórias de sempre (e algumas novas) a passear-me pela cabeça. Algumas há décadas. E este dezembro percebi que não era nada disso. O resultado?

O resultado foi ter escrito cerca de 2200 palavras ao longo de dezembro, fechando o ano com 3700 (tinha escrito uns quantos contos muito curtos entre março e maio). Não é muito, longe disso; é o equivalente a umas sete páginas (para o ano: 11). Mas havia pelo menos cinco anos que não escrevia tanto num só mês.

Pelo que isto é para continuar. A ver se acabo A Escolha de Diop antes do verão e parto depois para outras coisas. Para já, vai com quase 15 mil palavras, e é texto para chegar a umas 25 mil. Mais coisa menos coisa. Veremos. No início de fevereiro (sim, decidi fazer isto mensalmente), logo vos digo o que este mês rendeu. Até lá.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Lido: Remix

Há livros que são leitura obrigatória nas escolas. Tenho sobre isso uma opinião iconoclástica, de que esse facto faz mais mal do que bem ao objetivo de termos um povo de leitores, embora reconheça a sua utilidade para outras finalidades, e este último facto deve explicar desde logo que a minha oposição a leituras obrigatórias é mais pragmática do que ideológica. Apoio-as quando me parecem úteis, oponho-me a elas quando as acho inúteis ou prejudiciais.

E depois de ler este Remix fiquei com a firme convicção de que ele devia ser leitura absolutamente obrigatória para qualquer pessoa que queira opiniar sobre direitos de autor em particular e sobre as formas de divulgação e comercialização da arte em geral, tanto nos dias que correm quanto num futuro mais ou menos próximo.

Não que esteja à espera que toda a gente vá concordar com tudo o que aqui vem escrito. Nem vamos mais longe: eu não concordei, e até suspeito que o próprio Lawrence Lessig, se relesse hoje este seu livro, tampouco concordaria. Ele foi publicado em 2008, há dez anos, e dez anos na internet é uma eternidade. Em 2008, só para dar um exemplo, ainda nem se suspeitava que a mentira e a falsificação meticulosas e sistemáticas via internet viriam a ter um tão grande impacto na sociedade. O livro está datado, por esse motivo e por mais alguns detalhes. Se fosse reeditado hoje precisaria de uma atualização razoavelmente extensa.

Mas mesmo assim, a análise que ele faz sobre os vários tipos de produção e consumo de cultura e seus aspetos legais, éticos e económicos, e a defesa que é aqui feita do hibridismo cultural são francamente interessantes e cheios de sumo. Mesmo sendo o ponto de partida o de um social-democrata com algumas tendências libertárias (não sei se ele se identificaria politicamente assim, mas foi a ideia com que fiquei), e mesmo não sendo possível concordar parágrafo a parágrafo com o que ele defende, parece-me um facto puro e duro que qualquer pessoa que não seja especialista do tema, depois de ler este livro, fica bastante mais apetrechada para pensar sobre ele.

Daí eu dizer que o livro devia ser de leitura obrigatória. Os autores e artistas, em particular, tantas vezes levados ao engano por intermediários que não têm realmente os seus interesses em mente quando desenvolvem as ações que desenvolvem, lucrariam imensamente em ler este livro. Quanto mais não seja para ficarem com ideias mais firmes sobre onde se enquadram e onde e como pretendem enquadrar-se no vasto espectro da produção cultural. Porque é essa a principal ideia que aqui vem expressa: a de que a produção cultural é um espectro muito multifacetado e que portanto tentar enquadrá-la toda por igual é um disparate tantas vezes castrador da criatividade e da própria produção cultural. E isto, além do mais, entronca diretamente na atual discussão sobre copyright a decorrer na Europa, e muito em particular nos famigerados artigo 11 e artigo 13. Dificilmente seria mais atual, portanto.

Não é um livro perfeito, mas é francamente bom.

Este livro está à venda em vários sítios (incluindo a Wook), mas também é possível obtê-lo legalmente em ebook no archive.org, aqui. Foi o que eu fiz.

Lido: Yazik (#leiturtugas)

Ao longo dos anos fui acumulando uma enorme quantidade de ebooks que, como sempre detestei ler no écran do computador, ficaram quase sempre guardados sem ser lidos. Foi só quando comprei o primeiro tablet que comecei finalmente a lê-los, e entretanto já tinha acumulado tantos livros virtuais (para terem uma ideia: uso o Calibre para os organizar, e as minhas bibliotecas do Calibre contém mais de mil; livros que ainda nem tive tempo para organizar são significativamente mais que isso) que nem me lembro já de como, quando ou porquê muitos deles vieram parar ao meu disco rígido. É o caso deste Yazik, de Emanuel R. Marques.

Publicado em 2012, ajuizando pelos vestígios virtuais que deixou na internet, por uma tal "Editora Online Corujito" que parece não ter passado de uma iniciativa individual de alguém no Brasil, que criou um blogue no blogspot e publicou algumas coisas em PDF em 2011 e 2012, fechando o blogue em seguida e aparentemente transferindo-se para o Facebook, este livro é um conto de horror onírico com levíssimas pitadas de ficção científica a apimentar-lhe o final. O autor, porém, é português.

E cuidado que vêm aí spoilers.

Tudo gira em volta de um homem que é atormentado por uma criatura que designa como duende e lhe invade os sonhos dedicando-lhe versos enigmáticos. E quem diz sonhos diz pesadelos. A vida do protagonista, que já não estava a correr lá muito bem antes de lhe começar a aparecer o duende, cai depois na espiral de destruição que é praticamente inevitável em histórias deste género e que nos é contada com abundância de pormenores. E de adjetivos. Só no final, quando somos de súbito lançados para um futuro distante em que a humanidade já se extinguiu e quem domina o planeta é a espécie do duende, invertendo-se os papéis, o conto ganha realmente algum interesse.

E esse é o principal problema que aqui encontrei. A sucessão de excertos oníricos, intercalada por cenas de degenerescência no ambiente pessoal e social do protagonista, depressa se torna cansativa por obedecer sempre à mesma estrutura e conter muito pouca novidade de capítulo em capítulo. A piorar as coisas, há um português que não me pareceu particularmente estimulante, muito pelo contrário, em boa medida devido à superabundância de adjetivos (é um estilo de que os escritores de horror às vezes gostam. Eu detesto. É das coisas que mais me afastam de Lovecraft, por exemplo). Tudo somado já estava a preparar-me para encerrar a leitura com um rotundo "não gostei" quando aquele final surpreendente e eficaz fez a minha opinião sobre o conto melhorar repentinamente.

Mas não chegou para passar ao "gosto". O conto não me pareceu mau, é certo, mas tampouco me pareceu mais que medíocre, um esforço honesto de um escritor com alguma criatividade mas que há sete anos ainda tinha muito a aprender e fazia escolhas estilísticas que me repelem enquanto leitor. Esta foi uma leitura fraca.

Este livro esteve disponível na internet para descarga gratuita mas parece já não o estar em lado nenhum.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Lido: O Rabil

O Rabil, outra história recolhida por Adolfo Coelho em Coimbra, é mais um pequeno conto de pouco mais de uma página sobre o valor da lealdade dos subalternos aos seus superiores hierárquicos. Sem elementos fantásticos, se não considerarmos como tal a ideia de que um lavrador rico aceita de bom grado que a filha se case com um criado, por mais demonstrações de lealdade que este lhe dê (tenho na família direta um caso bem demonstrativo do que acontecia quando havia situações destas, e não era o que esta história conta), é um continho eficaz a transmitir os valores que pretende transmitir: os valores conservadores do conformismo social e da ascensão via bajulação. Para isso serve-se de um dilema aparentemente insolúvel apresentado ao criado, segundo o qual este teria de ser de alguma forma desleal ao amo, coisa que se recusa a ser. Mas lá se safa e a coisa acaba em bem, como não podia deixar de ser.

Estão a perguntar o que raio quer dizer "rabil"? Nada de especial. É apenas o nome de um boi que a filha do agricultor insiste para o criado matar. Ah, sim e o conto é bom? É eficaz, como já disse. Um pouco desagradável, também. Bom? Não.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Lido: O Menino Açafroado

Era uma vez um rei que era casado mas não tinha filhos. E assim começam dezenas de contos populares, este incluído, embora nem sempre se trate de um rei. Invariavelmente, segue-se um milagre qualquer, uma intervenção divina ou de alguma espécie de espírito ancestral, e o infeliz rei (ou não) lá obtém o filho tão desejado. Mas este vem sempre com um senão qualquer.

Com um título como O Menino Açafroado, está bem de ver que este conto recolhido por Afonso Coelho em Coimbra inclui artes mágicas e feitiços. Mesmo que não se perceba de imediato o que raio quer dizer "açafroado". Mas contrariamente ao que se possa supor, não é o menino o filho do rei. A história é mais complexa do que isso.

Sim, este é dos tais contos que dão pano para muitas mangas, com um enredo que percorre três gerações de uma família e uma maldição (o tal senão ali do primeiro parágrafo) que está relacionada com água de açafrão (e cá está a origem da bizarra palavra). Tudo resumido em três páginas, que apesar de tudo até acabam por transformá-lo num dos contos mais extensos deste livro. Os contos populares estão sempre reduzidos ao osso. Enchendo este de carne poderia ficar-se com um texto de fantasia razoavelmente longo... e basta isso para o tornar interessante.

Ah, sim, e no final tudo acaba em bem, claro. Nem precisavam de perguntar.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 30 de dezembro de 2018

Leiturtugas da semana...

... ou falta delas.

Pois, esta semana não houve leiturtugas, mas houve novidades no projeto, com a adesão de mais dois blogues e um vídeo de divulgação de iniciativa de um deles. Obrigado, Tita. Querem saber quais são? Visitem a página.

Esse vídeo e o post que o acompanha também transformaram uma suspeita numa certeza: o Google não basta como forma de se ficar ciente de todas as publicações relativas ao projeto. Não me chegou o post com o vídeo, por exemplo, apesar de ter chegado, mais tarde, a inclusão da etiqueta "leiturtugas" no blogue.

O que isto quer dizer é que vamos ter de arranjar outra forma de cruzar informação que no mínimo complemente o Google e não deixe que posts relativos ao projeto passem despercebidos. Estou a pensar num grupo de facebook, mas é ideia que não me agrada lá muito e estou aberto a alternativas que convenham a toda a gente.

Digam coisas.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Lido: A Seita dos Trinta

Não podia faltar, claro. Um livro de Jorge Luis Borges sem um conto pseudofactual mal pareceria um livro de Jorge Luis Borges.

Neste caso somos apresentados a A Seita dos Trinta, uma peculiar seita cristã que Borges descreve por intermédio da transcrição (e tradução) de um velhíssimo manuscrito datado do século IV. Este, incompleto, é de cariz fundamentalmente teológico, discorrendo com alguma demora sobre as heréticas práticas e ideias da seita, apesar de também se referir um pouco à sua história. Tudo falso, naturalmente.

Não costumo gostar deste tipo de texto pseudofactual, embora haja algumas exceções entre as quais avultam vários contos do próprio Borges, que é, de longe, o melhor escritor a fazer textos destes que eu conheço. Mas esta história não pertence às exceções: nada nela conseguiu realmente interessar-me, e o facto do manuscrito estar incompleto acrescenta a esse pouco interesse uma marca adicional de frustração: quem sabe se a parte interessante não estaria na parte que se perdeu? Reconheço que é precisamente esse o efeito pretendido, e que portanto Borges teve pleno sucesso no que se propôs fazer (ou seja: o conto é bom), mas mesmo assim não me agradou.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Lido: O Tesouro

Como sabem os que costumam vir à Lâmpada, tenho andado, nos últimos tempos, a ler contos populares, tanto portugueses como os alemães recolhidos e reformulados pelos Irmãos Grimm. E uma das coisas que me tem impressionado é a falta de utilização desses contos, na nossa literatura, como matéria-prima para ficções mais elaboradas, pelo menos fora do universo estritamente infanto-juvenil. Isto contrasta vivamente com o que acontece noutras paragens pois, como se sabe, boa parte da fantasia está solidamente alicerçada nas histórias tradicionais de vários povos. E, como tenho dito repetidamente, haveria pano para muitas mangas.

Pois bem, o Eça, o incontornável Eça de Queirós, também deve ter achado que havia pano para muitas mangas. E com este conto a que chamou O Tesouro mostra o que se pode fazer em literatura adulta com as histórias tradicionais.

A estrutura é bastante típica dos contos populares, apesar de lhe faltar o elemento fantástico que existe (e na verdade que sustenta) a maioria. Três irmãos, fidalgos asturianos muito empobrecidos, um belo dia quando andam à caça encontram um velho cofre trancado com três fechaduras. Aqui temos logo o número três, tão abundante nas histórias tradicionais, e a ambientação para uma história moral fica completa quando os três irmãos conseguem abrir o cofre (pois as chaves estavam nas fechaduras) e encontram lá dentro um imenso tesouro. Segue-se a cobiça. E o assassínio, que nenhum dos irmãos era propriamente boa pessoa.

É bom, este conto? Sim, é. É certo que lhe falta uma das principais qualidades de Eça, a ironia corrosiva, mas está tão bem escrito como seria de esperar e tem outras qualidades que não se encontravam nos textos anteriores deste livro. Afasta-se do estudo de personagem e, ao fazê-lo, adquire uma densidade narrativa mais sólida. E já para não falar da forma como adapta a história tradicional, ou pelo menos a estrutura destas histórias.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Lido: O Preto e o Padre

Mais um dos contos recolhidos por Adolfo Coelho com um protagonista preto, mais um monumento de racismo. Neste O Preto e o Padre, o preto não será criminoso, propriamente, mas é malandro e aldrabão, cabendo aos brancos, claro, o papel de pôr "ordem na casa". Neste caso ao padre, que não se deixa enganar, por mais que o preto tente.

Ah, sim, pois, os portugueses não são racistas. Ceeerto...

E o conto, com a sua única página, é basicamente o relato de uma sucessão de manigâncias por parte do preto para se safar de algum castigo por ter comido a perna de uma galinha que preparou para o padre, do qual é criado, manigâncias essas que são sucessivamente anuladas pelo padre. Suponho que a ideia original fosse ser um conto humorístico, mas confesso não lhe ter encontrado nenhum humor. E também não lhe encontrei nada que o integre na literatura fantástica, o que o coloca em clara minoria no contexto deste livro. Será uma historinha interessante como fonte de informação sociológica mas além disso é perfeitamente dispensável.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 23 de dezembro de 2018

Leiturtugas da semana

Esta semana, a entrada no leiturtugas foi minha: a coletânea de Carina Portugal O Engenho dos Sonhos que, não sendo globalmente um livro de FC, contém um conto de FC, pelo que é um livro com FC. Mínimos do ano cumpridos também por mim, portanto.

Veem como é fácil cumprir isto? Vá, juntem-se à malta!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Lido: Cannibal Farm

Histórias de detetives são coisa já com provas dadas na literatura, apesar de serem relativamente recentes, só tendo realmente nascido em finais do século XIX. Histórias de detetives futuristas são mais raras mas também estão longe de ser novidade; no fundo é isso mesmo o que o Rick "Blade Runner" Deckard é. Mas se o protagonista de um dos melhores filmes de FC de todos os tempos é um detetive/assassino respaldado pela lei decididamente noir, a dupla criada por Ron Goulart é basicamente cómica. Sim, mesmo com um título tão sombrio como Cannibal Farm.

Estamos no futuro, claro. No território dos estados independentes sucessores dos atuais EUA (e provavelmente noutros pontos do globo também), uma praga, a doença dos cães loucos, está a causar mortes. Nesse contexto, os ultradetetives de Goulart são contratados para investigar o desaparecimento de um tal Dan Lampkin, agente infiltrado da FDA que andava pelo Império do Texas a investigar uma tal Cannibal Farm quando desapareceu.

E fazem-no com a maior das facilidades e limpezas. Meia dúzia de peripécias, e estava o caso deslindado. Esse foi o principal motivo para eu não simpatizar grandemente com este conto. A descrição da investigação é desleixada, tudo é demasiado fácil para uma coisa tão absolutamente problemática que deixa de mãos atadas as próprias agências secretas americanas, obrigando-as a contratar os serviços de investigadores privados. A história resume-se assim a pouco mais que descrições vagamente futuristas, um ambiente político no qual a crítica à sociedade americana é evidente, e uma sucessão de piadas e ironias, muitas das quais exigem um conhecimento sólido sobre o alvo dessas piadas e ironias. Soube-me a pouco, a muito pouco.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: A Noiva e o Vampiro

O romance fix-up não é uma tradição muito comum na língua portuguesa, julgo que sobretudo pela fraca tradição de publicação de contos entre nós, sistematicamente remetida para publicações marginais e pouco acarinhada pelos leitores em geral e por quem opina sobre leituras em particular. De tal forma que nem existe, que eu saiba, um termo em português que o designe. Mas como devia existir, deixem-me tentar cunhá-lo: romance-colagem.

E o que é o romance-colagem? É uma obra construída a partir de contos e novelas, geralmente com publicação anterior, embora por vezes os autores acrescentem material novo, nunca publicado, e façam outras alterações ao material já publicado para melhor o adequar ao formato de romance. De notar que romance-colagem não é o mesmo que romance em mosaicos (isto é, romances fragmentários, compostos por várias histórias razoavelmente independentes), ainda que muitos romances-colagem também sejam romances em mosaicos (o Terrarium, por exemplo, é as duas coisas): não só há romances em mosaicos em que nenhuma das suas partes teve existência independente prévia, como também existem romances-colagem que integram de tal forma as histórias anteriores num todo coerente que elas perdem completamente, ou quase, a individualidade.

Serve esta demorada introdução para vos dizer que esta capa que veem aqui à direita pertence a um romance-colagem de Gerson Lodi-Ribeiro. E que o texto de que venho aqui falar um pouco, A Noiva e o Vampiro, usado aqui como prólogo, não parece ter tido vida independente anterior.

Apesar disso, ressoa a qualquer coisa. É que eu ao longo dos anos fui lendo várias das histórias que serviram de blocos de construção deste romance-colagem e outras histórias que aparentemente não fizeram parte da colagem mas pertencem ao mesmo universo ficcional. Até publiquei uma ou outra. E tenho uma vaga lembrança de algo semelhante aos acontecimentos aqui descritos me ter passado pelos olhos. Mas é vaga: não recordo onde. Nem quando.

Seja como for, esta historinha sobre uma noiva e um vampiro tem muito de prólogo. Quero eu dizer com isto que inclui bastante despejo de informação sobre quem é a noiva (personagem que serve para situar o leitor quanto ao universo ficcional em que estas histórias se desenvolvem) e sobretudo quem é, o que faz e que limitações tem para conseguir sobreviver o protagonista deste livro: o vampiro. Por esse motivo não creio que funcione como história independente. Já como prólogo de um romance, seja ele colagem ou não, funciona... desde que a sequência da história reduza bastante a proporção de infodump.

Quanto ao enredo... bem... digamos apenas que quem saiba alguma coisa sobre o que fazem os vampiros quando mulheres jovens e apetitosas lhes caem nas garras já terá uma boa ideia do enredo. Aqui as coisas são um pouco diferentes, porque este vampiro não é propriamente decalcado dos vampiros que estamos habituados a encontrar nas histórias de terror (é um vampiro de ficção científica, basicamente) e existem elementos raciais e políticos a afetar o desenvolvimento da trama, decorrentes do universo de história alternativa que o autor cria. Mas no fundamental, no âmago da coisa, sim, é isso.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Lido: O Engenho dos Sonhos (#leiturtugas)

Entre o devagarinho e o parado durante anos, dependente em demasia de uma série de autores que produzem pouco ou nada (mea culpa!) e de uma atitude perfecionista de mais valer não fazer do que fazer mal ou até insuficientemente bem, o panorama da ficção científica e fantasia portuguesa recebeu há uns anos nova vida com a chegada de uma série de autores que, entre erros e acertos, se borrifaram para os velhos do Restelo, arregaçaram as mangas e começaram a produzir coisas. E a publicar coisas.

Boa parte desses autores organizou-se em volta do site Fantasy & Co., entretanto desativado (definitivamente?). E Carina Portugal foi uma delas, produzindo uma série de histórias para o site, umas sujeitas a tema, outras nem tanto, as quais vieram depois dar contribuição decisiva para a composição desta coletânea a que resolveu dar o título algo enigmático de O Engenho dos Sonhos.

Mesmo havendo exceções a esta regra, sai-se da leitura com a ideia de que a autora se sai melhor em extensões médias (uma vez que não existe aqui nenhuma história realmente longa), pois geralmente não consegue fazer com que a maior brevidade não venha acompanhada pela sensação de que há demasiadas coisas no ar, ou gratuitas. Será provavelmente sintoma de inexperiência; só tentando e errando se compreende realmente onde estão os nossos pontos fortes e fracos e a experiência ensina a sublinhar aqueles e disfarçar estes.

Mas a verdade é que, pesem embora algumas fragilidades no tratamento da língua, de que fui falando e de que fui dando exemplos ao longo da leitura e comentário dos contos (e um poema), e que em geral pareceram ir diminuindo do princípio para o fim do livro, este não deixa de ser interessante. Não contendo nenhum conto muito bom, tem vários que se podem considerar bons, sobretudo Pintado a Sangue, Sementes de Fada, Pele de Escrava e O Cais do Poeta. Outros há que com uma revisão atenta e pequenas mudanças poderiam juntar-se a este grupo, embora também haja um grupo de seis ou sete mais fracos ou até bastante fracos. O tom geral que fica é de um livro de fantasia sombria próxima do horror, com alguns exemplos de outros géneros e com outras abordagens (até há um conto de FC), de uma autora com potencial mas ainda inexperiente e que nem sempre consegue descolar de caminhos já muito trilhados por autores anteriores.

E se, como eu digo sempre, uma compilação de contos vale a pena se contiver pelo menos uma história muito boa ou três ou quatro boas, esta cumpre. Não chegará a ser uma boa coletânea, não ultrapassará a mediania, mas apesar de ser autoeditada é melhor que algumas das coletâneas de FC&F portuguesa que saíram em livro por editoras de prestígio, contendo vários bons contos. Talvez merecesse uma boa revisão, uma reformulação de conteúdo para remover as histórias mais fracas e talvez acrescentar outras, e uma edição a preceito.

Eis o que achei de cada história:
Este livro pode ser obtido gratuitamente aqui.

Lido: Os Simplórios

Entre os contos recolhidos por Adolfo Coelho, há um tipo que é particularmente raro: contos sem sombra de magia ou sobrenaturalidades. Os Simplórios pertence a esse grupo.

Trata-se de um continho cómico sobre as coisas que fazem e dizem os prodígios de estupidez. Como na época não havia facebook, não estava à vista de todos e estas histórias tinham de ser contadas em volta da lareira. E é história que se conta depressa, pois ocupa pouco mais que uma página. Terá graça? Enfim, suponho que sim, alguma, uma gracinha ingénua sem sombra de sofisticação ou subtileza. Tudo gira em volta de casamentos frustrados, o que não deixa de ser natural numa sociedade sexualmente reprimida como era a sociedade portuguesa do século XIX (altura da recolha; não se sabe quando esta história foi criada mas é de supor que a repressão fosse mais ou menos idêntica). Mas nada que tenha grande interesse.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Lido: O Casamento da Senhora Raposa

Contrariamente a todos os contos anteriores deste livro dos Irmãos Grimm, e já são muitos (e ainda pouco passa de metade deste volume e ainda há mais dois), este O Casamento da Senhora Raposa não é um conto mas dois.

Trata-se de duas versões, razoavelmente diferentes, de um conto sobre a vida conjugal de uma raposa das das fábulas (logo, antropomorfizada). São dois continhos bastante curtos, com menos de duas páginas cada e cheios de falas em verso, o que ainda os encurta mais, e contam a procura da raposa viúva (num deles estava realmente viúva, no outro apenas se julgava) por um novo marido. Não há grande corropio de pretendentes, como na famosíssima história da Carochinha, mas eles não deixam de aparecer e, quando a raposa faz a sua escolha, dá-se o desenlace, bastante divergente entre um conto e o outro.

É precisamente esse o principal interesse deste(s) conto(s): o facto de um fundo comum poder levar a uma divergência tão acentuada no desfecho e na moral da história. No primeiro, bastante cínico, o raposo não estava realmente morto e reaparece em pleno casamento pondo tudo na rua, mulher, noivo e convidados; já no segundo, delicodoce, a raposa arranja outro raposo e tudo acaba em bem. É como se o primeiro fosse contado com base no ponto de vista de um marido ciumento e o segundo no da pobre viúva. E se calhar foi precisamente assim que as duas versões se originaram.

Tirando isso, porém, estes contos pouco interesse têm.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Lido: São Jorge

Mais um conto recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, mais um conto em que o burilamento da língua marca presença, mas sem que esse burilamento da língua venha acompanhado de grande elaboração narrativa. E esta história até que daria para isso.

Trata-se de uma versão da célebre lenda de São Jorge, o matador de dragões venerado pelos cristãos, misturada com outra história cristã, a do pescador que pesca um peixe que lhe pede que o poupe. E mais uma vez temos um rei que promete a mão da filha ao aventureiro que consiga resolver-lhe um problema, o que parece ser dos temas mais comuns neste tipo de história. No caso, o problema é um dragão, ou bicha de sete cabeças (o conto usa os dois termos), que anda a causar grande devastação e o rei quer ver morto. Jorge mata-o, o rei quer casá-lo mas Jorge, por ser santo, recusa, mas tudo acaba em bem como tem de ser.

Além de abrir portas a desenvolvimentos abundantes e potencialmente interessantes, o que mais curioso achei neste conto foi a identificação da bicha de sete cabeças (mais uma vez no feminino e não no masculino, como eu sempre conheci) com o dragão, tratando esses dois exemplos de criptozoologia como uma e a mesma coisa. De resto, é uma história que corresponde ao que seria de esperar, promovendo valores de lealdade e honra numa rápida historinha de menos de duas páginas.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 16 de dezembro de 2018

Lido: Biscoitos da Vida Eterna

Sempre fui de opinião que a forma com que se encerra uma coletânea ou antologia é importante, pois embora alguns leitores vão lendo conto a conto, saltitando para trás e para diante ao sabor dos apetites, a maioria não o faz e acaba por ler sequencialmente, começando pelo primeiro e acabando com o último. Assim, se o primeiro conto é como que o átrio de um edifício artístico, que pode atrair os visitantes ou repeli-los, o último é a porta de saída, e a última oportunidade de causar um bom impacto. Assim, julgo importante que tanto o primeiro conto como o último sejam obras fortes. Talvez não as mais fortes de todas, mas fortes o suficiente para causar ou deixar boa impressão ao leitor.

Carina Portugal, aparentemente, não é dessa opinião. É que este texto com que termina o seu livro, Biscoitos da Vida Eterna, está muito longe de ser um dos pontos altos desta compilação.

Reparem que falo em texto, não em conto. É que não estamos perante um conto no sentido tradicional da palavra. Trata-se de uma receita de bruxa, para fazer os biscoitos da vida eterna do título, completa com instruções para a obtenção dos ingredientes mais problemáticos. Meia dúzia de aventureiros ou raspa de escama de dragão, entre outras coisas do género, não são propriamente artigos que se possa ir comprar ao supermercado mais próximo.

A coisa até diverte um pouco, e está razoavelmente bem escrita, mas falta-lhe bastante para poder ter alguma esperança de ser um ponto alto neste livro. É um textozinho divertido e inconsequente, e só pretende mesmo ser isso. Pouco teria a apontar-lhe se o encontrasse no miolo do livro, mas encontrá-lo no fim não me pareceu nada boa ideia.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 15 de dezembro de 2018

Finalmente voltei a escrever

É... é isso que o título diz. Finalmente, depois de anos de quase completa seca, voltei a escrever.

Começou em agosto, quando, depois de ter tido aqui a Lâmpada parada durante mais de um mês por causa do trabalho, com toda a acumulação de textos atrasados que isso implicou, resolvi fazer uma experiência: e se em vez de esperar até ter tempo e disponibilidade para escrever textos razoavelmente longos de uma assentada, como era meu hábito e tem levado ao longo dos anos a interrupções mais ou menos longas em tudo o que não tenha diretamente a ver com o trabalho sempre que este aperta, eu começasse a escrever um parágrafo aqui, outro ali, nos intervalos das traduções? Coisinhas rápidas, de cinco, dez minutos de cada vez? Resultaria? Isto é: conseguiria eu ir escrevendo o que tenho para escrever sem pôr em causa o trabalho que paga?

Como sabe quem costuma visitar a Lâmpada, a coisa resultou bastante bem. Desde agosto, com esta técnica de ir escrevendo um parágrafo de vez em quando, descongelei a Lâmpada, recuperei quase por completo o imenso atraso de que as minhas opiniões literárias vinham sofrendo há anos, escrevi mais algumas coisas não diretamente relacionadas com aquilo que vou lendo, e tudo no meio de um período de trabalho intenso (que continua e só terminará em fevereiro), sem que este tenha sofrido minimamente com isso.

Quando me apercebi de que a ideia estava a resultar, perguntei aos meus botões: "e resultará também com a ficção?" No início deste mês resolvi-me a fazer o teste.

De modo que peguei n'A Escolha de Diop, texto que os leitores aqui do blogue escolheram há ano e meio como aquele que gostariam de ver primeiro, revi o que já estava escrito, mais para voltar a situar-me do que propriamente para fazer uma revisão em termos, e pus-me a acrescentar texto novo. Um parágrafo de cada vez.

Nestes 15 dias, entre revisão e texto novo, a novela (ainda não o é, mas vai ser) cresceu 741 palavras. Duas páginas, mais coisa, menos coisa. É pouco, pois é, mas bate aos pontos o zero palavras por mês que tem sido habitual. Há vários anos que não produzia tanto em 15 dias.

Ou seja: o truque também resulta com a ficção. E vou continuar com isto e vou fazer outros posts como este a dar notícia do andamento da coisa. Ou das coisas, que é possível que vá também escrevendo outras coisas a par desta. Provavelmente uma vez por mês, talvez de quinze em quinze dias. Ainda não decidi. Tenho um mês para decidir.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Lido: Pedro e Pedrito

Pedro e Pedrito é mais um conto recolhido em Coimbra por Adolfo Coelho e, talvez por causa disso, tem uma elaboração literária superior ao que é comum encontrar-se nestas histórias. Mas só em termos de texto propriamente dito, pois a narrativa é tão apressada tem sido em tantos outros destes contos portugueses, deixando a sensação de que ficou aqui muito pano por transformar em mangas.

Trata-se de um conto sobre a lealdade. Pedro é rei e Pedrito não é, mas é seu irmão de leite, e leal sem falta, o que o leva a pôr-se em risco para salvar o rei quando ouve por acaso uma conversa que indica que o este pode vir a morrer. Duas ou três peripécias depois, incluindo umas inconvenientes transformações em pedra, os dois revelam-se leais um ao outro e tudo acaba em bem. Expandida e acrescentada de alguns elementos, esta história podia vir a ser interessante, mas como está aqui não o é lá muito. A extrema brevidade não costuma dar-se lá muito bem com enredos complexos.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Civilização

Parece ser praticamente unânime que Eça de Queirós, sendo sempre bom, é melhor quando se carrega de ironia, coisa que fazia com frequência. E neste conto, que tal como os anteriores consiste principalmente de um estudo de personagem, fê-lo de forma particularmente incisiva. Mas só na primeira parte.

Civilização não será um conto sobre a civilização, propriamente (embora até acabe por ser), mas sobre um civilizado. Ou melhor, sobre um ultracivilizado, palavra de Eça, um homem de finais do século XIX fascinado com toda e qualquer inovação saída das engenhosas mentes dos inventores. Autores de steampunk podem encontrar aqui inspiração com fartura porque o homem, podre de rico, instala no seu palacete urbano tudo quanto é engenhoca e assim vive, rodeado de coisas mecânicas.

Que volta e meia avariam.

Nesta fase do conto, a ironia fina de Eça transborda e chega a provocar gargalhadas. Mas depois, uma viagem até à decrépita propriedade rural do ultracivilizado protagonista corre mal e ele é obrigado a descobrir as alegrias da simplicidade da vida campestre. E aí o conto muda radicalmente de tom, tornando-se bucólico e romântico... e perdendo boa parte do interesse que me despertara até aí.

A palavra "romântico" não está ali em cima por acaso. Há muito de romantismo neste conto, mesmo não existindo nele grandes amores... romantismo no sentido literário do termo: a exaltação da natureza e da simplicidade da vida campestre em detrimento da sofisticação tecnológica, por exemplo; a exaltação do indivíduo... Eça chega a mostrar-se quase ludita, mas enquanto o faz com ironia é uma pequena delícia. O problema é que a páginas tantas abandona a crítica e passa à exaltação, e aí torna-se algo monótono, previsível e até um pouco panfletário. O conto continua a estar tão magnificamente escrito como antes, mas isso não é suficiente.

Contos anteriores deste livro:

Lido: There Are More Things

Não, não é engano. O conto está mesmo num livro do argentino Jorge Luis Borges, e tem mesmo este título shakespeariano, em inglês, There Are More Things. Mais: é dedicado a nada mais, nada menos, que H. P. Lovecraft, esse mesmo, o do horror cósmico. E mais ainda: é um conto de horror cósmico muito lovecraftiano e tem, de facto, aquela espécie de horror pintalgado de ficção científica que é característica do subgénero.

Como acontece muitas vezes quando a ficção lovecraftiana é escrita por autores não americanos (e se viu entre nós, por exemplo, na antologia Sombra Sobre Lisboa), Borges como que "nacionaliza" o universo de Lovecraft, ambientando este seu conto na Argentina. Tudo gira em torno de uma casa isolada, vendida pelo narrador da história a um misterioso estrangeiro o que, por o estrangeiro ser misterioso e porque à venda se seguiram obras demoradas que o vendedor sente como um ataque às suas memórias, o vão levar a investigar o que se passa. E o que encontra é o que qualquer leitor que conheça Lovecraft imagina.

Em parte por isso, porque o que vamos encontrar neste conto ser quase precisamente o que esperamos encontrar assim que percebemos que estamos perante uma ficção lovecraftiana, e em parte porque Borges se afasta neste conto do seu próprio estilo e imaginário (embora não completamente) para assumir até certo ponto os de Lovecraft, este é um conto competente mas não é nada de transcendente. O escritor genial que Borges foi cria aqui uma história que poderia ter sido criada por muitos outros escritores. É uma boa história? É, claro, que não é por criar uma obra derivativa que Borges desaprende de escrever. Mas está muito longe das suas melhores histórias.

Contos anteriores deste livro: